ESPAÇO ABERTO
Ordem e o MST
Germano Birckholz Vieira
Quem são os integrantes do MST, essa organização que não tem personalidade jurídica? Para a maioria dos agricultores e pecuaristas donos de propriedades maiores, apenas um bando de baderneiros. Para a quase totalidade da população urbana, algo que não importa muito e acontece à distância. O que deseja o MST? Para os primeiros, nada além do protesto ideológico. Para os segundos, simplesmente nada além de um símbolo a mais da injustiça social no Brasil. Evidentemente, como em qualquer ramo de atividade ou movimento, há um pouco de cada coisa.
A existência do MST se deve à prolongada falta de políticas públicas para a reforma agrária, um tema presente na realidade política e econômica brasileira há várias décadas. Afirmar que foram assentados um imenso número de sem-terra não significa nada, já que os assentamentos não incluem, em geral, um mínimo de infra-estrutura e assistência técnica para que se tornem produtivos e integrados à sociedade. Assim, é evidente que ocorre uma razoável margem de insucesso nesses assentamentos. Só o governo federal tenta esconder isso.
Essas constatações não significam qualquer transigência com o MST quando os limites da lei são ultrapassados com invasões de terras produtivas e, ainda menos, quando ocorrem violências, com a destruição do patrimônio - por meras razões ideológicas - ou quando, além disso, há ameaças à vida até mesmo de empregados. O MST passa, assim, da reivindicação e do protesto ao campo da ilegalidade, o que pode resultar num sinal verde para um conflito armado, já que aos proprietários - como a todos os cidadãos - é assegurado o direito de autodefesa. Permanecer na informalidade jurídica é uma opção das lideranças de um movimento para ganhar visibilidade na imprensa sem a correspondente responsabilidade no respeito à ordem jurídica estabelecida. E isso é certamente prejudicial para todos.
De uma certa forma, pode-se dizer que os sem-terra são equivalentes aos sem-teto que nas últimas décadas ampliaram de forma significativa a formação de favelas nas grandes regiões metropolitanas que, mesmo sem um movimento formalmente organizado, terminaram por servir de caldo de cultura para o surgimento da violência e da falta de segurança.
Em qualquer hipótese, enquanto não são formuladas e implementadas políticas públicas de cunho social consistentes, não se pode tolerar a ilegalidade e, ainda menos, a violência, sob pena de uma diluição ainda maior do estado de direito do que aquela que nos é informada todos os dias pelos jornais quando veiculam as impunidades de muitos deputados e ex-ministros em Brasília.
GERMANO BIRCKHOLZ VIEIRA é membro do Centro Internacional de Negócios do Paraná e da Federação das Indústrias do Estado do Paraná em Curitiba
Onde está Deus?
Ernesto Ferreira de Oliveira
Semanas atrás o papa Bento XVI visitou a Alemanha, sua terra natal. Com certeza, se extasiou perante o fabuloso progresso alemão, recém-saído de uma cisão entre Oriente e Ocidente. Viu o desenvolvimento material que caracterizou sua pátria após o desastre da Segunda Guerra. Mas o que chamou a atenção da mídia foram suas palavras diante dos fornos de cremação que o regime totalitarista construiu e que cremaram milhares de seres humanos. Anestesiado diante de tão tétricas imagens, o papa não se conteve e questionou sobre a presença de Deus, como se ele não tivesse visto tanta crueldade. Onde estaria Deus?
Quando o poeta Castro Alves questionou sobre a presença/ausência de Deus com o poema Vozes dÁfrica, muitos, na época, julgaram aquelas palavras como blasfemas. Como se a Deus fosse atribuído o permitir que tudo aquilo acontecesse.
É lógico que há um erro de interpretação do comportamento divino. Atribuir a Ele a causa de tantas desgraças, pois bem que poderia frear as mãos de carrascos impiedosos, gente sem crença nem dignidade. Mas o imaginário de crueldades que tem caracterizado o comportamento humano não cessou, apesar de tanto progresso e tanto desenvolvimento por que tem passado nosso mundo. Até hoje, ainda podemos perguntar onde Deus está que permite modernos métodos de castigos e injustiças para com pessoas inocentes desvalidas?
É o caso de se perguntar onde está Deus que permite matanças de inocentes pelo mundo afora? E o cúmulo da ironia é que tais atos são praticados em nome de Deus! Onde estaria Deus que permitiu que muitas bombas caíssem sobre países, matando crianças, velhos, mulheres e julgar que tais atos foram praticados por quem se diz cristão?
Ainda hoje os canhões roncam, destruindo. E os autores dessas façanhas, sádicos, riem, com o aplauso da mídia. São heróis, recebem comenda. E os vencidos, caçados, são arrastados como bichos, como seres desvestidos de razão. Não há quem os conteste, como antigamente também não havia para combater os crimes da escravidão e da injustiça.
Heróis marcham garbosos ao som de hinos patrióticos. Suas mãos são cobertas de luvas brancas. O uniforme militar é impecável. O silêncio é rompido pelo som dos coturnos, em cadência, no asfalto. As palmas falam palavras não-articuladas na platéia embasbacada. Mas as luvas brancas escondem as mãos ainda molhadas do sangue que escorreu do inimigo. O caixão, no silêncio presente, sai do avião sobre ombros lentos em procissão: é o atestado que apresentam como justificativa das infâmias praticadas. E dizem que Deus não poderia permitir que os inimigos agissem em defesa dos seus.
ERNESTO FERREIRA DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina
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