Paz é aspiração humana; violência é realidade

Wilton Carlos Santana
  O artigo ‘‘A cartilha do Colégio Maxi’’ (Espaço Aberto, 16/6), acertadamente, identificou que a cartilha em questão se trata de um guia de segurança/vigilância e não de um guia para a articulação/promoção da paz. Esta precisaria ser construída mediante um longo e comprometido processo educacional, que envolve a escola e a família.
  A idéia da ‘‘Escola da Cidadania’’ caminha nessa direção. Soa, inclusive, como um puxão de orelhas para as escolas em geral, que ao longo do tempo tem se prestado mais à capacitação (aquisição de técnicas) do que à formação humana (construção de valores). Concordo: é dever e não concessão da escola dar voz às crianças, lhes tirar do anonimato! A italiana Maria Montessori (1870-1952), certamente a maior educadora do seu tempo, afirma no seu ‘‘A educação e a paz’’, que ‘‘A sociedade de hoje não prepara suficientemente o homem para sua vida de cidadão’’. Para a autora as crianças, em muitos casos, são confiadas a adultos que negligenciam ‘‘[...] os valores da vida’’ e fixam naquelas ‘‘(...) apenas o objetivo, egoísta e mesquinho, de obterem um bom emprego na sociedade’’.
  Entretanto, não compartilho afirmações como as de que ‘‘Um jovem formado para o exercício da cidadania não terá medo! Sem medo, não irá para as drogas e terá canalizada suas energias para revolucionar o país’’. As otimistas frases me parecem simplistas. Penso que as crianças, ainda que sejam educadas para a cidadania, que envolve, entre outras atitudes, as de conhecer/discutir/exercer direitos e deveres, continuarão sitiadas, sim! Tanto pelas drogas como pela violência. Se, por um lado, esta última, ancorada na miséria, na fome, no desemprego, na corrupção, na falta de impunidade, etc., denuncia a nossa falta de cidadania, por outro lado, é uma realidade, nos afronta cotidianamente e gera o medo. Logo, a cidadania, para vencer o medo, como sugerido, primeiro terá de vencer todas essas coisas. Conseguirá isso? A cidadania revolucionará o país? De quanto tempo mais precisa?
  Indiscutivelmente, o Colégio Maxi e todos os demais, particulares ou não, cujas crianças são alvo da violência, precisam educar para a cidadania e para a paz. Entretanto, trata-se de uma aspiração. De algo ainda distante. Retorno a Montessori, que em 1949 escreveu algo compatível com o que vivemos hoje, 57 anos depois: ‘‘[...] um fato imediato e concreto deve ser considerado do ângulo da paz: a sociedade humana ainda não colocou em prática a forma de organização que lhe é indispensável para fazer face às necessidades atuais. Somos, então, obrigados a não nos contentarmos em sonhar com a organização de um futuro melhor e de manter nossa atenção nas necessidades do presente’’. Por isso, o Colégio Maxi está certo: as crianças de hoje, se quiserem ter tempo para aprender cidadania, terão de aprender vigilância.
WILTON CARLOS DE SANTANA é professor do curso de Educação Física da Universidade Norte do Paraná



A minoria branca

Gabriel Bertin de Almeida
  O atual governador de São Paulo, Cláudio Lembo, antes desconhecido do público nacional, e talvez até dos paulistas, passou por uma situação nada fácil recentemente, quando uma facção criminosa deflagrou uma série de ataques contra os policiais daquele estado. Tornou-se uma figura conhecida.
  Embora seja filiado ao PFL, um partido conservador, o governador tem criticado a ‘‘minoria branca muito perversa’’, que ‘‘muito mal fez pelo país’’. Disse inclusive que o senador ACM, de seu partido, é um ‘‘senhor de engenho’’. Além disso, tem-se mostrado um sujeito erudito e de enorme bom senso, mesmo em situações críticas. Trata-se, portanto, de uma agradável surpresa.
  Fez referências ao ‘‘Bom Selvagem’’, de Rousseau, e ao livro ‘‘Casa Grande e Senzala’’, de Gilberto Freyre. Como a ‘‘casa grande tem tudo e a senzala não tem nada’’, a ‘‘bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações’’.
  Definindo-se como um ‘‘pequeno burguês com roupas escuras, soberbas’’, falou ainda que se sentia como o alienista de Machado de Assis (personagem que considerava todas as pessoas de sua aldeia loucas, tendo internado todos elas; porém, ao final, verificou-se que o louco era ele). Disse isso porque praticamente não recebeu telefonemas de políticos da ‘‘direita’’ durante a crise. E concluiu: ‘‘É bom que eles (a direita) me achem louco porque daí não têm convívio comigo’’. Só para citar um exemplo, a apresentadora Hebe Camargo, rejeitando a culpa da ‘‘elite’’, disse que o governador ‘‘devia estar muito nervoso’’, pois a ‘‘elite é a mais prejudicada’’. Talvez Hebe se referisse ao prejuízo decorrente do cancelamento de festas no período dos ataques e ao aumento de gastos com segurança pessoal.
  Mesmo sem conhecê-lo, acho que é razoável imaginar que o governador se enquadrasse naquela ‘‘minoria’’ a que fez referência. Talvez não o fosse. Mas vamos ficar com a primeira hipótese. Nesse caso, vemos como uma experiência curta, mas intensa, fez com que olhasse as coisas com novos olhos. É sempre surpreendente como uma situação-limite pode mudar uma pessoa. O ‘‘pequeno burguês com roupas escuras’’ afirma que precisamos abrir a bolsa para sustentar a miséria.
  É verdade que a idade avançada (o governador passou dos 70) traz uma inclinação maior à solidariedade. No crepúsculo da vida é mais fácil abrir mão das coisas, pois nada restará, além de uma reputação, boa ou má, na posteridade.
  De qualquer forma, seria muito bom se surgissem alguns novos alienistas no cenário nacional.
GABRIEL BERTIN DE ALMEIDA é advogado em Londrina


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