Cuidado, junho é mês de quadrilhas!

Júlio Cesar Rodrigues
  Bons aqueles tempos em que a principal avenida de minha cidade, Arapongas, se transformava num imenso arraial no mês de junho. Escolas públicas e particulares montavam suas barracas, com alunos e professores trabalhando para arrecadar fundos. Havia concurso de quadrilhas, que na época não passavam de animados casais caipiras dançando canções ritmadas pelo locutor: ‘‘Olha a cobra! É mentira!’’. Era tudo diversão. Ninguém roubava ninguém.
  Outros tipos de quadrilhas também brincam até hoje, mas não dançam músicas da roça. São embaladas pela triste sinfonia da impunidade e da vergonha. Vestem paletós e gravatas, de marca e sem remendos, e tomam de assalto todas as esferas de poder neste país. Fazem parte do temível ‘‘PCC: Políticos Corruptos de Carteirinha’’.
  São audaciosos e perigosos. Enquanto os integrantes da sigla homônima tiram nossos bens, via celular, sem sair dos presídios, os ‘‘PCCs’’ do mundo externo levam nossos sonhos, nossa esperança. Roubam no atacado e não têm medo da Justiça, da qual escapam com recursos e liminares.
  A corrupção é tão endêmica que desce do Planalto e chega ao garoto que, na mesma avenida onde se comia paçoquinha na festa folclórica, nada lhe cobra por horas de estacionamento, se dele comprar um talãozinho e presenteá-lo com uma folha em branco, que será vendida para o próximo motorista. Lucro certo e fácil - em Arapongas, Londrina e qualquer outra cidade. Constatações assim fazem filósofos e sociólogos discutirem, sem alcançar o consenso, se o exemplo vem de cima ou se é a sociedade que cria os governantes desonestos.
  O fato é que se aprende, desde cedo, que enganar e mentir não geram muitas conseqüências. Poucos pais reprimem a conduta desonesta do filho. Delfim Netto, quando ministro, costumava falar em rede nacional para dizer que a gasolina não iria subir. No mesmo instante as filas se formavam nos postos, porque ninguém acreditava. George W. Bush também justificou sua agressão ao Iraque com a falácia das armas de destruição em massa, até hoje não-localizadas. Lula continua dizendo que não sabia de nada. E o governador de São Paulo, Claudio Lembo, jura que não fez nenhum acordo com o PCC, o original, para estancar a violência daqueles terríveis dias de maio.
  O frio anuncia agora a chegada das festas juninas. Com pipoca, quentão e quadrilhas. Muitas quadrilhas. Se o locutor da festa avisar ‘‘Olha a cobra!’’, acredite. Ela pode estar ao seu lado.
JÚLIO CESAR RODRIGUES é advogado em Arapongas



O desafio é a ‘nossa’ energia

Reginaldo José da Silva
  O nacionalismo em relação aos recursos naturais foi muito comum na década de 1970. A cada alta do petróleo o assunto ressurgiu. Vivemos em 1980, uma década de privatizações no setor e duas de preços baixos e oferta abundante. Assim, empresas ocidentais obtiveram termos favoráveis por parte de governos ansiosos por elevar suas produções, suas receitas. Algo muito comum nessa busca por receitas são os acordos de forma no mínimo capciosa. Isso não é privilégio da Bolívia, por aqui algo um tanto corriqueiro, como as benesses do governo Lerner a empresas automobilísticas. Mas muito pior é quando o Executivo municipal doa ‘‘praças’’ a particulares.
  O nacionalismo tem sido praticamente um subproduto do preço alto do petróleo. Bolívia e Rússia assumiram o controle direto de seus campos de petróleo e gás natural. Já Venezuela Equador e Reino Unido aumentaram, e muito, os impostos do setor. Assim respondem os governos: com nacionalismo ou regime fiscal severo. O governo brasileiro apresenta a tão esperada auto-suficiência como se fosse obra exclusiva de seu governo, um desrespeito aos 53 anos da Petrobras. Defende os ‘‘miseráveis’’ da Bolívia como se os contratos com a empresa brasileira fossem realizados ‘‘hoje’’, ao preço de 75 dólares o barril. Lembremos que muitos desses contratos foram feitos em época em que o preço atual era inimaginável até mesmo para peritos (contratados exclusivamente para preverem cenários futuros), quiçá pelo senso comum dos políticos envolvidos. O governo brasileiro anunciou que a auto-suficiência alcançará também a produção de gás natural (possivelmente) em 2008. Erram o presidente e a 12ª maior empresa de petróleo do mundo - a Petrobras -.
  O momento é de se buscar novas fontes de energia. A BP é o bom exemplo a ser seguido. A empresa que se chamava British Petroleum (petróleo da Grã-Bretanha) hoje usa BP com o slogan BP, beyond petroleum - (além do petróleo) na busca por fontes renováveis de energia. A Petrobras iniciou este caminho (no qual a BP está há 15 anos) em 2001, quando o estatuto foi mudado definindo-se a destinação de 0.5% de todo o volume de recursos do orçamento para programas da área de energia renovável. O problema é que com quase 50 mil funcionários, a empresa destinou apenas sete funcionários para desempenhar esta função. Companhia de capital misto, a empresa tem mais de 160 mil acionistas, e estes querem receitas, dividendos.
  O que se espera não é que a empresa desista dos lucros em busca de energias renováveis, mas que não abandone esta busca. Tampouco, que o governo abandone a idéia (já que ele parece acreditar nesse evento estéril chamado de) reeleição. O cenário brasileiro é dos melhores para a produção de energias renováveis. Radiação solar, ventos, biomassa, tecnologia. É preciso comprometimento maior para o bem de todos. Usemos esse cenário favorável, para que não vejamos no setor de energia um caos. Já nos basta aquele da segurança pública, em que ao final estivemos todos discutindo os erros, a (in)eficácia, a mudança de uma lei que nem sequer é cumprida. Governos, empresas e todos nós, façamos o mínimo em prol do ambiente, ainda restará muita energia par a Copa do Mundo.
REGINALDO JOSÉ DA SILVA é policial militar em Londrina e biólogo pós-graduado em Análise Ambiental pela Universidade Estadual de Londrina


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