Esporte de alto nível exige sacrifício

Karen Aoki Romero
  As grandes conquistas sempre têm um ônus. Ao ler o artigo ‘‘Esporte não é sinônimo de saúde’’, do professor José Luciano Tavares da Silva, publicado neste espaço no último dia 2, falando sobre os males do esporte de alto rendimento, quis também utilizar o espaço para minha opinião pessoal, já que este assunto é bastante debatido, estudado e controverso.
  Com todo respeito e admiração que lhe são devidos, gostaria de colocar que ‘‘patrocínios pífios’’ e ‘‘técnicos’’ que exploram atletas sempre existiram, assim como maus profissionais, em todas as áreas. Não existem, porém, ex-atletas à míngua, colecionadores de ‘‘latinhas douradas’’ e ‘‘troféus de plástico dourado’’ como deixou enterver.
  Os ‘‘patrocínios pífios’’ muitas vezes servem para lançar aos pequenos atletas a visão de um futuro mais promissor, com bolsas de estudo e alimentação que muitas vezes faltariam em sua casa. Basta lembrar que a maioria de nossos ‘‘talentos’’ surgem das classes C, D e E, nas famosas
‘‘peneiradas’’. Ajudam, inclusive, a afastar estas crianças e adolescentes de outros riscos que conhecemos bem.
  Estes atletas existem graças a técnicos competentes que, aliados a médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e psicólogos, entre outros, têm lutado para prolongar a carreira dos grandes atletas. Estes que despontam aos 20 e poucos anos, deixando claro que um trabalho consciente terá seus resultados quando o corpo estiver para isso preparado.
  Os patrocínios ajudam sim, e muito. Ajudam técnicos a buscar especialização adequada, não só no exterior, mas dentro do país. Contamos com um quadro bem experiente de mestres (incluindo o senhor, professor) que buscam pesquisar para desenvolver o esporte de alto rendimento.
  O tempo realmente é implacável. Dores, todos nós um dia sentiremos, mas a medicina está aí, crescendo a cada dia. Ao lado dela caminhamos, educadores físicos, fisioterapeutas, e áreas afins. Busquemos conhecimento para alimentar estes atletas.
  Quanto ao estudo destes atletas, ainda temos muito a caminhar. Sabemos que uma boa opção seria a universidade acolher estes atletas. Em algumas, aqui mesmo no Brasil, isso já acontece.
  E afinal, temos que ter bons exemplos. Que venham de nossos mestres e esportistas, respeitando os cuidados necessários à integridade de todos.
KAREN AOKI ROMERO é professora de natação em Londrina



De saber onde estava Deus

Walmor Macarini
  Um amigo padre já falecido costumava perguntar-me, inconformado, onde estava Deus quando crucificaram Jesus. Eu lhe respondia que se ele, que era padre, não sabia, como iria eu saber? Na verdade era um gracejo que eu fazia, e guardava comigo a resposta: a de que Deus estava lá, nessa hora fatídica. Da mesma forma que sempre esteve e está no cenário de todos os acontecimentos. É comum ouvir-se esta pergunta: como Deus permite isto? Dias atrás, visitando um lugar que foi campo de extermínio nazista, o papa perguntou o mesmo: onde estava Deus nesta hora? Se eu pudesse responder-lhe, diria ao pontífice que Deus estava lá.
  Pressupõe-se que um papa tenha a resposta para uma pergunta como esta e não que seja ele um perguntador. Mas não só o chefe da Igreja romana e também meu amigo padre e tantos outros líderes religiosos que conheço e com os quais às vezes converso. Porque eles também não sabem definir o princípio que caracteriza Deus, e onde Deus estava em certos momentos importantes da história e nas situações de calamidade. A verdade é que Deus (da forma que cada qual o imagina) está presente em todas as coisas e deixa que elas aconteçam, porque sua vontade é que se faça a vontade dos homens.
  Deus não interfere, mas age segundo o homem deseja. Porque Deus está no homem, assim como o homem está em Deus. Então, se essa sabedoria suprema está no ser humano – porque centelha de Deus e, portanto, parte de Deus – está na essência primordial do homem o conhecimento de todas as coisas, as ditas boas e as ditas más. A força que o move a praticar todos os seus atos é a mesma força emanente de Deus, acionada pelo livre-arbítrio de cada um. Deus não quebra a sua ordem – a de que a livre decisão do homem se manifeste.
  Então, Deus estava lá, no momento do martírio de Jesus, estava nos campos de morticínio, estava em todas as guerras e está em tudo o que acontece neste reduto terreno e em todos os pontos da vastidão infinita. O homem pode valer-se do fogo para forjar o ferro ou cozer o alimento, ou pode incendiar a floresta. Depende de sua vontade. Deus não o impede de fazer nem uma coisa e nem outra. Se Deus interferisse, não permitiria as misérias sociais. Lhe bastaria um toque com sua vara mágica.
  E, ao contrário, se o homem evitar as guerras e todas as formas de violência e praticar as ações que julga boas, Deus também aí está. Porque Deus é a força geradora de todas as coisas. Por isso presente nos cumes dos montes e nos brejos, no ato de um inseto mover-se, no desabrochar de uma flor, no dedo que aciona a arma mortal, na mão que se estende para o socorro, no giro dos astros.
  Deus não faz distinção entre os atos dos homens e de todos quantos habitam os mundos visíveis e invisíveis. Porque ‘‘ele’’ é a própria substância e o movimento de tudo isso. Se Deus desejasse impedir ou direcionar as ações da humanidade estaria negando a si mesmo, porque o experimento do homem é a oportunidade solicitada e concedida e é também o experimento de Deus. Melhor é não qualificar Deus como um ser racional e não isolá-lo. Porque Deus e todas as coisas são uma só coisa.
WALMOR MACARINI é jornalista na Folha de Londrina



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