Um homem, uma palavra, um sentimento

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  Palavras, às vezes, são mentirosas. Uma pessoa pode utilizar aquelas já consagradas pela sociedade, bem como pode inventá-las ao estilo de Guimarães Rosa. E, não importando qual dessas duas opções, o resultado é o mesmo: o emissor do discurso assume uma identidade. Essas identidades são, com isso, variadas. Há a identidade do demagogo, do pseudoliberal, do revolucionário, do hipócrita e até do injustiçado. Percebe-se que a forma de falar, isto é, de construir as idéias para serem ouvidas e para provocar o impacto desejável, acaba sendo tão importante que se torna crucial para a personalidade do emissor.
  E por que se afirmou que as palavras são mentirosas? Bem, elas podem ser também verdadeiras, mas o que se quis afirmar é que elas não traduzem fielmente o caráter da pessoa que fala. E, como foi citado, às vezes a personalidade acaba sendo formada a partir de um conjunto de vogais e de consoantes. Além disso, as palavras sofrem transformações ao longo dos tempos, o que leva a possibilidade de o ser humano ser moldado a partir delas.
  Um fato interessante é que as palavras foram um dos instrumentos em que o homem, no começo de sua evolução, se apoiou para expressar suas idéias, seus temores, suas paixões, enfim, seu interior. Entretanto, parece que, ao se organizar em sociedade, o ser humano abandonou a colaboração que havia com as palavras, surgindo, assim, a subordinação de sua personalidade a elas. Isso significa dizer que quem realmente se expressa, é na verdade a própria sociedade (ou seja, a forma como a maioria se comunica), e não o indivíduo. Se na comunidade predomina a corrupção, por exemplo, é comum a população adotar um discurso condizente com a realidade. No caso, a fala revoltada de um pai de família, o tom de tristeza de um político que se diz ‘‘perseguido’’, as palavras desoladas de um desempregado, entre outros, são os papéis desempenhados de acordo com o roteiro elaborado pela sociedade.
  Então, quem é realmente o homem? Como saber se está sendo sincero ou apenas condizente com o momento? Se as palavras precisam ser sinceras, isso começa pelo homem a partir de seus sentimentos. Afinal, estes são difíceis de serem adulterados e são a expressão espontânea de seu interior. Isto mostra que conhecer a si é determinar o papel que a pessoa deseja, na verdade, assumir na sociedade. Sem a interferência externa (as palavras da maioria), se adota suas próprias palavras.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina


A violência de cada dia

Ary Chimentão
  A violência é resultado da omissão, complacência e o alto poder que temos de subestimar os problemas, fazendo filosofia barata acerca da ignorância, miséria, educação e saúde. Significa que sempre ficamos no verbo, sem qualquer ação concreta, por mais simples que seja. Trata-se de um problema estrutural, não condenando apenas um ou outro poder, nem sequer a polícia ou falta de condições materiais para combate ao crime, não se concebe que todos estão querendo achar formas mágicas de se estancar uma hemorragia quando o ferimento é interno e necessita de uma cirurgia rápida para que se ache e suture o órgão lesionado.
  Chega a ser hilário, ficar discutindo a idade ideal do penalmente responsável por seus atos quando se tem situações antagônicas: a Constituição proíbe o trabalho do menor de 16 anos de idade, que menores de 14 a 16 anos possam trabalhar desde que estejam fazendo curso de aprendizagem em escolas regulares quando se tem cursos específicos de aprendizagem, resultando em falta de entidades e cursos para que se atenda a demanda. Completado 18 anos, sem qualquer experiência, este é jogado no mercado de trabalho por demais disputado, e já com alguns vícios adquiridos na adolescência.
  Daí três problemas: arrumar emprego, dar experiência e prepará-lo para a competição profissional, quando não, tirá-lo da delinqüência. Aí está a confirmação dos extremos, quando se proíbe em demasia adota-se a clandestinidade e uma vez adotada se tem os abusos praticados e divulgados.
  Nossos filhos necessitam de educação não só escolar como também profissional e ainda uma forma de mantê-los sob orientação com liberdade relativa 8 horas/dia, caso contrário, acontece o inevitável - escola meio-período e ‘‘ outras atividades’’ em outro período. Por que não buscar parcerias com a iniciativa privada, onde o menor de 14 a 16 anos seja obrigado a freqüentar um banco escolar e possa trabalhar por meio período? Controle através do Estado representado pelo Ministério do Trabalho ou Público, estabelecendo condições mínimas de freqüência e nota escolar, controle semestral, possibilitando que a própria sociedade cuide de seus problemas.
  Bom seria que tivéssemos condições de manter nossos filhos com boa qualidade de vida e educacional, com o Estado suportando tudo em período integral e quando completassem 18 anos estivessem prontos para a vida pessoal e profissional, mas na atual conjuntura isso é utopia. Enquanto estamos tentando, um número exponencial de menores iniciam prematuramente uma vida de dificuldades, vícios e delinqüências. A cada dia o resultado de ‘‘nossas’’ realizações.
ARY CHIMENTÃO é advogado em Londrina e mediador e conciliador credenciado pelo Ministério do Trabalho


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