Esporte não é sinônimo de saúde

José Luciano Tavares da Silva
  Diariamente vemos na mídia atletas amadores de diferentes modalidades participando de eventos de alto nível e trazendo títulos para suas cidades. Refiro-me àqueles que treinam e competem dependendo de patrocínios, em sua imensa maioria pífios, e que não garantirão seu futuro quando estiverem incapacitados de competir. Enquanto o atleta encontra-se no auge de seu desempenho tudo parece ‘‘cor-de-rosa’’. O seu ego, o ego da família e, principalmente, do treinador (este sim com chances de ganhar muito dinheiro à custa de seu ‘‘pupilo’’) são massageados. Acontece que, excetuando-se o treinador e o patrocinador, quase ninguém imagina o que aguarda o atleta após o dia em que seu rendimento começar a cair e, pode ter certeza, este dia inevitavelmente chegará.
  Se o indivíduo dedica-se a uma causa esportiva, na maioria das vezes não estuda. Se estuda, estuda mal, pois deve dedicar ao esporte a maior parte do tempo disponível, faltando às aulas constantemente. Trocar uma boa formação profissional pela dedicação aos treinamentos por si só já comprometerá seu futuro. Pior ainda é a ilusão de que esporte é sinônimo de saúde. Isto é o que prega a mídia e o desconhecimento e ingenuidade leva a maioria a acreditar.
  Na verdade, a extrema carga de treinamento e pressão psicológica que é imposta ao atleta para que possa chegar e manter-se no pódio, beira o absurdo e não tem absolutamente nada a ver com saúde. Podemos fazer uma comparação com um carro zero km. Suponha que você adquira um carro e o utilize para trafegar de sua casa ao trabalho, viajando de vez em quando. Se fizer todas as revisões, etc., poderá tê-lo em boas condições por muitos anos. Por outro lado, se você não trafega com o veículo, simplesmente deixando-o parado na garagem o tempo todo, certamente terá problemas com o motor. Agora se você trafega, digamos, 500 km por dia, seu carro durará menos da metade do tempo que no primeiro caso. Com nosso corpo ocorre algo semelhante.
  A atividade física é extremamente importante, pois devemos nos movimentar para evitar doenças relacionadas ao sedentarismo. Porém, a formação de campeões exige cargas de trabalho diárias para as quais nosso organismo não está (e nunca estará) preparado, principalmente em se tratando de crianças. Tais cargas extremas apresentam riscos enormes de propiciar danos permanentes, tanto em se tratando de músculos, ossos e articulações, quanto em outros órgãos e sistemas como sistema nervoso e coração, dependendo do esporte.
  Sem ganhar praticamente nada, o atleta estará sujeito a trocar sua saúde por uma medalhinha de latão e/ou troféu de plástico dourados. O treinador e o patrocinador terão sua recompensa monetária e seguirão cada qual seu caminho. Ao agora ex-atleta, esquecido, sem profissão e sem dinheiro, restarão as dores crônicas e um amontoado de quinquilharias douradas junto a recortes de jornal para um dia, se tiver sorte, mostrar aos netos. Será que valerá a pena?
JOSÉ LUCIANO TAVARES DA SILVA é professor adjunto de Fisiologia Humana na Universidade Estadual de Londrina



Cautela pedagógica no futebol de base

Wilton Carlos de Santana
  Tem sido recorrente por parte dos dirigentes de futebol, em particular dos de times considerados pequenos, a atitude de destacar publicamente as virtudes de seus jovens jogadores. Em alguns casos chega-se a atribuir a crianças de 9 anos adjetivos como os de futuro grande craque e ‘‘fenômeno’’, como ratificam as matérias publicadas pela Folha num passado recente (‘‘Lusinha prepara o seu fenômeno’’, de 12/10/2004’’ e ‘‘Adap deve vender garoto de 9 anos para o Manchester’’, de 25/01/2005). Nesta última, inclusive, o então presidente da Adap disse ser o menino ‘‘tão bom quanto Pelé e Maradona’’. Em geral, essas opiniões acontecem por conta de alguns gols e dribles que a criança faz diferentemente dos colegas da mesma idade. Esse assunto voltou a figurar na Folha quando da matéria ‘‘Alan, a mina de ouro do Tubarão’’, publicada em 05/05/06.
  Imagino que matérias como essa não sejam veiculadas amiúde nos jornais de expressão, a exemplo da Folha, haja vista que os grandes clubes se ocupam de temas mais ligados ao desempenho das suas equipes profissionais. Porém, quando públicas, revelam o despreparo de parte das pessoas em lidar com o esporte infanto-juvenil. Ora, não se deve lançar tamanha expectativa (promessa, craque, fenômeno, mina de ouro) sobre jogadores em formação. Bastaria, para isso, o bom senso. Como este anda meio esquecido, vale lembrar uma máxima em se tratando de pedagogia do esporte: quanto mais novo o jogador, menos expectativas e comparações devem ser geradas. O momento é de relativizar os resultados face ao aprendizado.
  Diria que o garoto Alan (e os outros) poderá transformar-se numa promessa para o futebol (numa visão muito otimista) mais para frente quando der os seus primeiros passos no time profissional. Até lá, nada de atalhos. Vamos a alguns exemplos: Jádson, Dagoberto e Fernandindo, hoje com 22, 23 anos, estão entre os principais jogadores jovens do futebol mundial nas suas posições, mas quem os conhecia aos 15, 16 anos? Esses craques ratificaram a suspeita de todos nós, que trabalhávamos no PSTC na época, de que, um dia, chegariam ‘‘lᒒ, a partir das suas entradas na equipe profissional do Atlético (PR); Oswaldo de Oliveria, atual técnico do Fluminense, quando perguntado sobre o desempenho de Lenny, de apenas 17 anos, mas que já é atacante titular da sua equipe, foi cauteloso: ‘‘É cedo para dizer, mas o menino promete’’.
  Torço pelo sucesso do Alan e de toda criança que joga futebol. Mas sejamos prudentes. A mentalidade imediatista de parte dos dirigentes ratifica que o futebol na infância e na adolescência, em boa parte dos casos, transformou-se, apenas, num palco de negócios. Por detrás desse tipo de atitude vem, invariavelmente, o objetivo de divulgar o clube e a si mesmo, ou seja, é uma forma intencional de usar o outro para se autopromover e ao clube.
WILTON CARLOS DE SANTANA é professor da disciplina de Futebol na Universidade Norte do Paraná (Unopar) e ex-técnico de futebol do PSTC e da seleção paranaense de futsal


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