ESPAÇO ABERTO
O Código de Dan Brown
Christian Steagall-Condé
A obra literária do até então obscuro Dan Brown é, para dizer o mínimo, medíocre em sua narrativa textual, mas riquíssima em subsídios cinematográficos. Fiquei estarrecido quando soube que uma professora indicara o livro a alunos de terceiro grau, com tão poucos recursos financeiros e tamanha disposição de títulos os mais diversos nas bibliotecas, livrarias e editoras, ainda mais por contar uma trama que não nos diz respeito em muita coisa, talvez em nada.
Pelo tsunami de marketing que invadiu com muito alarde as praias literárias, nem se é preciso ser do ramo para farejarmos um potencial embuste, mas, eis que mais de cinqüenta deslumbrados universitários passaram a desfilar com a mais-que-vistosa encadernação carmim debaixo de seus braços.
Após a ressaca, de tanto uma das alunas insistir, eis que me vejo às primeiras páginas do livro emprestado e, qual não foi minha surpresa, ao terminá-lo em coisa de uma tarde de dedicação não-exclusiva, com pausa para um robusto e petrolífero café expresso, este sim, com conteúdo.
O livro é até bom, melhor falarmos da Gioconda do Leonardo do que das atoladinhas cariocas, mas é piada de salão para quem é minimamente lido. Já de prima, o autor desmancha-lazeres entrega logo a rapadura na moçinha que se chama... Sofia. Filo-Sofia. Já tínhamos um precedente bem mais elegante (O Mundo de Sofia) e, narrativa por narrativa, há um filme estrelado pelo lutador esportivo Jean Claude Van-Damme (A Seita, se não me falha...) cujos ícones secretos estão todos lá, com exceções ao cilindro-mestre, Mademoiselle Tatoo (de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, magnificamente superior) e Mister Hanks, ator que eu pagaria até mesmo para vê-lo em propaganda de absorventes femininos.
De fato, esse Código não é exatamente literatura, mas uma rasa narrativa visual-cinematográfica destinada às multidões, um story-boarding perfeito de um roteiro bem escrito, limpo, pronto para animação, daí também os ecos positivos de seu estupendo sucesso editorial, movido a muita e cara publicidade.
No mais, se o agora milionário autor conseguir incutir em pelo menos umas dez pessoas o ingresso também ao bom gosto do amplo universo da leitura (qual seja esta...) relaxemos, pois valerá o ticket. Divirta-se você também nas sagradas salas escuras da sétima arte, afinal, vai esquecer do que viu já ao volante de volta para casa, pois até seu medieval molho-de-chaves possui muito mais códigos secretos do que possa imaginar nossa vã filosofia: thats entertainment!
CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto em Londrina
Os riscos e mortes inúteis
Walmor Macarini
No último dia 28 o alpinista brasileiro Vitor Negrete, de 38 anos, morreu quando descia o monte Everest, depois de haver chegado ao seu topo. É preciso ter dignidade até no ato de morrer, e Negrete não a teve. Assim como não a têm todos os que galgam penhascos e praticam outros esportes radicais e perdem a vida. Uma perda inútil, porque essas aventuras não se realizam por alguma causa em benefício da humanidade. Não são missões salvadoras mas apenas vaidade.
A esses riscos calculados e a essas mortes sem sentido dá-se o nome de suicídio. Porque esses aventureiros têm consciência do perigo e mesmo assim se arriscam, em troca de nada. Se ao menos subissem ao pico das montanhas e fincassem lá uma bandeira conclamando à paz, mas nem isso fazem. Aqueles que patrocinam essas loucuras também são responsáveis pelas mortes que ocorrem, porque indiretamente contribuem para isso.
Mas é também uma forma de suicídio fumar, beber abusadamente, consumir drogas, comer como glutões e não zelar pela saúde, praticar rachas com automóveis e motos, e outras coisas do gênero. As próprias corridas oficiais com veículos de grande velocidade são exposições à morte assim morreu Ayrton Senna, e para quê? São maneiras de suicídio os saltos de bodyjump, as artes de pilotos que fazem acrobacias com seus aviões (muitos morreram e mataram espectadores), o pára-quedismo esportivo, tudo o que for pura aventura sem proveito.
Os que voam com seus carros e motos, nas ruas e estradas, são suicidas e assassinos potenciais. Sabem que podem morrer ou matar. Tudo na vida tem riscos, mas importa que não se faça desafios desnecessários. Aí reside a diferença. O mundo está cheio de suicidas, como os que vão se exterminando vagarosamente pelo uso de drogas, fumo e álcool, que além de prejudicar a si próprios criam grandes custos sociais, pois acabam em clínicas e hospitais no mais dos casos às expensas do dinheiro da sociedade.
Por tudo isso eles serão responsabilizados e sofrem os efeitos dessa carga durante esta vida e ainda a carreiam para a próxima e as subseqüentes. Não um castigo divino mas a simples lei de causa e conseqüência. A vida é um precioso bem terreno, e dela tudo se leva. Se não se poderá carregar fisicamente os bens e as fortunas, essas coisas vão junto de quem as obteve desonestamente ou foi mesquinho e muito apegado a elas. Também se leva os males impuros da mente e dos atos irresponsáveis. E, naturalmente, as coisas positivas.
Se o corpo físico é apenas uma vestimenta terrena, que se deteriora pela morte, é no entanto, enquanto vivo, o abrigo do espírito. Abreviar a morte pelo suicídio propriamente dito ou pelo extermínio por meio de aventuras egoísticas e sem utilidade para si ou para outros, ou deteriorar o corpo pelos vícios, é interromper uma trajetória que precisava ser cumprida. Será então necessário retomar o processo, mas há que aguardar uma nova oportunidade, que às vezes tarda e leva a dolorosos sofrimentos.
WALMOR MACARINI é jornalista na Folha de Londrina
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