Vânia Brum Moraes
  Muitas vezes pensei em levar minhas idéias ao jornal e acabei desistindo. Por que tornar público meu pensamento? Parece que nada resolve...Mas hoje decidi. Não agüento mais ficar assim parada, como uma morta-viva. Acompanhei a retirada dos camelôs das ruas de Londrina e a discussão de vereadores e da Prefeitura sobre um local em que pudessem trabalhar. Na época achei que poderia ser boa alternativa. Havia uma crise de desemprego, talvez estaríamos contribuindo para diminuir a violência. Sempre passava lá para comprar algumas coisas.
  Um dia recebi em minha casa um sobrinho que nasceu e mora nos EUA. Foi comigo ao camelódromo e não conseguia entender o que estava acontecendo. Por que a Polícia, a Prefeitura e os outros comerciantes consentiam? Ficou indignado e, por fim, não quis comprar o programa de computador que nos EUA era tão caro. Foi um choque, por um tempo fiquei me sentindo cidadã de quinta categoria. A lembrança da loja de discos que sempre embalava minhas tardes de brincadeira na Avenida Paraná, fechada depois da invasão dos CDs piratas.
  Meu sobrinho foi embora. Voltei a comprar ali. Sentir-me esperta por ouvir o último CD da Ana Carolina e seu Jorge, baratinho. Certo dia minha filha me mostrou um artigo, falando que quando compramos mercadorias contrabandeadas ajudamos a lavar dinheiro do tráfico de drogas, a exploração do trabalho infantil e mais uma infinidade de coisas. Mas as autoridades não fazem nada, todo mundo permite! Uma boa desculpa para eu fechar os olhos.
  Há 3 semanas ocorreu um furto em meu apartamento. Uma menor de idade, com uma criança de colo, entrou no prédio e levou alguns pertences: um laptop com informações importantes sobre meus pacientes, o videogame do meu filho e mais algumas coisas de menor valor. Tive uma surpresa boa: a Polícia nos tratou muito bem e identificou rapidamente a menor, conseguindo reaver os objetos roubados. Fiquei com esperança, nem tudo estava perdido!
  A surpresa ruim: o laptop e o playstation já estavam no camelódromo para venda. Era ali que ela tinha passado a mercadoria roubada. Na linguagem policial: lugar de ‘‘desova’’. A violência vem atrás de você, não adianta fingir que é normal, que não é sua responsabilidade. Ela vem dentro de seu apartamento e lhe diz por que não pode, por que você não fez nada.
  Outro camelódromo vem por aí. Veremos outras lojas que compram com notas fiscais, que têm empregados com carteira assinada, que recolhem impostos, fechar. Parece que foi outro dia que acompanhei a polêmica em relação à implantação da rede de supermercados Wall-Mart em Londrina. Apesar de gerar 200 empregos diretos seria ruim por desestabilizar o comércio local? Não seria construído um Teatro Municipal no lugar? Essa história é para outro dia que eu já gastei minhas 30 linhas.
VÂNIA BRUM MORAES é médica em Londrina



Movimento pela ética na sociedade

Gerson Araújo
  O renomado jurista René Ariel Dotti escreveu um excelente artigo conclamando todos nós a um ‘‘Movimento pela ética na política’’, com o qual concordo plenamente. Ouso, no entanto, ampliar a abrangência deste movimento por acreditar que toda a sociedade precisa ter consciência desta realidade, ainda que, no atual momento, a podridão da classe política esteja escancaradamente exposta.
  Os políticos, queiramos ou não, representam a ‘‘ética’’ daqueles que financiaram suas campanhas e que, em última análise, os elegeram, pois todos sabemos que as grandes corporações (empresários, banqueiros, pecuaristas, etc.) investem pesado nos que lhes podem dar algum retorno, e ninguém acredita que este retorno tenha a ver com o bem da sociedade como um todo.
  E com a visibilidade que tem o político fica sendo ele o grande culpado por toda esta trama que envolve grande parcela de toda a comunidade. Muitos deles, sabendo disto, assumem com uma certa alegria esta culpa, já que o lucro financeiro é compensador. Se os empresários investissem em políticos sérios, sem preocupação em auferir vantagens pessoais, toda a sociedade lucraria e até os próprios empresários. E como é triste constatar que até parte da imprensa participa deste jogo.
  E, com isso, o círculo vicioso se fecha, pois o povo, sabedor do envolvimento de tanto dinheiro, exige, para votar, que o candidato ofereça alguma coisa. Esta é uma das razões pelas quais uma campanha é muito cara e só são eleitos os que têm muito dinheiro para gastar. E os que gastam tanto para se eleger o fazem na expectativa de uma reposição com juros e muita correção monetária. Eu ficaria horas falando o que os líderes de algumas igrejas e de algumas instituições sociais pedem ao candidato para que ele obtenha os votos destas comunidades.
  Uma pesquisa feita por um professor para a sua tese de doutorado constatou um fato que ainda dificulta mais esta campanha pela ética: ‘‘O que você pensa dos políticos?’’, era uma das perguntas. ‘‘Todos ladrões, vagabundos e outros adjetivos impublicáveis’’, respondeu a maioria. Aí veio a próxima: ‘‘O que você faria se estivesse no lugar deles?’’, e aí a terrível resposta: ‘‘Aproveitaria para ‘‘meter a mão!’’ Que chance melhor que esta? Claro que não dá para generalizar.
  Devemos, sim, tomar todas as atitudes propostas pelo dr. Dotti (vale a pena ler o que ele escreveu) para fazermos frente ao lixo que veio à tona (graças à democracia). Mas, para uma mudança em profundidade, é preciso que o Movimento pela Ética seja matéria obrigatória desde os primeiros anos escolares, com respaldo dos lares, das igrejas, pois, queiramos ou não, somos fruto de uma cultura imoral trabalhada durante séculos, confirmada por uma frase dita por Antônio Vieira, missionário português, que morreu em 1697: ‘‘No Brasil o verbo furtar conjuga-se em todos os tempos, em todos os modos e em todas as pessoas’’.
GERSON ARAÚJO é capelão do Hospital Evangélico e pastor da 3ªIgreja Presbiteriana Independente de Londrina


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