ESPAÇO ABERTO
A arte e o labirinto da violência
Valdir Grandini Alvares
Após a onda de violência deflagrada pelo crime organizado no estado de São Paulo que deixou perplexo o país, é importante propormos soluções. Em meio a alternativas possíveis, estão os processos culturais criativos. Esses processos podem ser orientados estrategicamente para duas frentes principais: junto a crianças e jovens das periferias urbanas - para evitar que se tornem o exército de reserva e operações do tráfico - e junto às unidades prisionais, para revisão de perspectivas de vida dos internos e humanização desses ambientes. Seria de bom senso o fomento a projetos e ações neste campo, com senso de urgência e perspectiva de acompanhamento e aprimoramento. Ali estariam mobilizadas a paixão e as energias de artistas e arte-educadores.
Com as crianças e jovens, as oficinas de criação cultural mobilizam linguagens como a capoeira, o hip hop, o circo, o teatro, as artes plásticas, a música em favor da capacidade de criar em grupo e de ler o mundo com olhos sensíveis. Há um componente de eficiência nesses processos que supera a educação tradicional, porque se baseia no prazer de viver e de fazer. Portanto, seduzem e envolvem uma disciplina criativa, que nasce do trabalho vivo, do respeito e da convivência.
Sobre ações culturais criativas nas prisões, como se trata de um ambiente difícil, relato o caso concreto do Projeto Criando a Liberdade, desenvolvido na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), desde o início de 2004, com patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura e recentemente selecionado entre os melhores exemplos de tecnologias socioculturais no Prêmio Cultura Viva, do Ministério da Cultura. O projeto desenvolve a expressão e a liberdade de criação ampliando os direitos humanos no ambiente prisional.
Participam das oficinas detentos de várias alas do presídio e elas priorizam jogos lúdicos e exercícios de expressão corporal e vocal, que fortalecem o grupo e são divertidas. Os participantes têm nas dinâmicas e jogos teatrais uma forma de se deslocar do cotidiano da prisão, cheio de tensões e pressões de regras próprias daquele contexto. É um exercício de liberdade, mesmo intramuros. As fábulas da literatura universal são utilizadas como base para montagens de peças teatrais pelos participantes, pelo seu potencial de reflexão ética e porque novas situações e leituras podem ser facilmente incorporadas a seus personagens. A partir da base das fábulas realiza-se adaptações que os internos propõem e traçam, avaliando as escolhas nos contextos da vida.
Se a princípio parece tratar-se de algo ingênuo num ambiente violento, é só por leituras superficiais. Prisões se tornaram escolas de crime porque estão tomadas por procedimentos de repressão e castigo. Quando vamos pensar que para se recompor uma vida é preciso o prazer de viver? A arte proporciona prazeres construtivos. O crime organizado propõe o poder destrutivo. Há pessoas nesses ambientes que não estão dominadas pelo crime organizado, mas acabam agindo a seu serviço se for o único dos mundos possíveis.
VALDIR GRANDINI ALVARES é jornalista e coordenador da incubadora de projetos culturais da Secretaria Municipal de Cultura de Londrina
Código Da Vinci é boa ficção
Marcos Antônio Lopes
Um filme histórico é um esforço de imaginação criativa bastante livre em relação às regras que presidem o exercício intelectual da historiografia. Sabemos da complexidade da linguagem cinematográfica, com todas as especificidades de sua estética muitíssimo complexa e singular. A exemplo da literatura, o cinema é uma representação da realidade que pode, inclusive, omitir ou falsear acontecimentos que poderiam, por exemplo, esvaziar o impacto visual de uma cena. Mas não será por essas traições que os historiadores deverão sair em defesa da revisão dos filmes históricos que distorcem a verdade histórica. E por uma simples razão: um roteiro para o cinema é uma obra de arte livre, não possui nenhum compromisso com as verdades extraídas dos documentos históricos.
Assim sendo, não incorrem em erro os que encaram o filme como produto calculista daquilo que se tornou um poderoso ramo da indústria cultural desde os inícios do século passado: o cinema. Há somas vultosas investidas na aquisição dos equipamentos de alta tecnologia, na remuneração dos atores e do pessoal especializado, na contratação dos distribuidores mais eficientes, no aluguel das salas de exibição, etc. Girar essa grande máquina demanda alguns alentados cifrões e a palavra mágica nunca deixará de ser uma só: bilheteria.
Como reflete o crítico Antonio Candido, a propósito da literatura: ...o sentimento da realidade na ficção pressupõe o dado real mas não depende dele. É uma imitação, mas uma imitação narrada de maneira que transmita a impressão de uma realidade verossímil, passível de ter realmente ocorrido. Com a linguagem cinematográfica ocorre processo semelhante: a história que se conta não é a história propriamente dita. Se a escrita da História profissional é concebida pelos próprios historiadores como um exercício calculado de anacronismo, o que dizer de uma trama narrada por obras ficcionais?
Isso dito, a partir de algumas notas de aula, resta saber o que vai na cabeça de um autor de ficção. Ao que parece, é tanta coisa que a determinação do sentido de uma obra dessa natureza torna-se uma missão intelectual de sucesso improvável. Concordo com a análise do professor Felipe Aquino, estampada em artigo nesta Folha em 22/5: Há muita invenção na obra de Dan Brown. Aliás, esse é o segredo de seu sucesso de vendas e, agora, também de bilheteria. Mas daí concluir por maldade e perversão, já é bem menos crível. A obra de Brown é ficção, ficção de boa qualidade, diga-se de passagem, mas sem a energia para fazer marola para além de uma semana. O que Brown mais desejou arrisco dizer que conseguiu: celebridade e algibeiras bem estufadas.
MARCOS ANTÔNIO LOPES é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina
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