A política não precisa de moralidade

Aguinaldo Pavão
  Pelo que posso perceber há um gosto generalizado por discursos em prol da ética na política. É claro que esse anseio se intensifica em contextos como o que vivemos, em que a classe política é malvista em virtude do comportamento de muitos de seus pares, quiçá da maioria deles. Contudo, essa conversa de ética na política (aqui, eu não distingo ética de moral), ainda que bem-intencionada, não deixa de ser equivocada.
  Não há boas razões para reivindicarmos a moralidade dos políticos (profissionais). O que devemos reivindicar é a legalidade do comportamento dos políticos; que eles ajam de acordo com as regras do jogo; que não trapaceiem seus eleitores; que não sejam corruptos; que deixem transparecer suas posições assumidas nas casas legislativas. Enfim, devemos reclamar honestidade e continência moral dos políticos, mas não que eles sejam morais.
  A exigência de moralidade significaria que eles deveriam agir segundo motivações puramente racionais (no sentido kantiano) ou se alguém preferir, segundo motivações desinteressadas. Mas isso além de ser insondável, não é preciso para os objetivos que esses movimentos pela ética na política acalentam. Esses movimentos são, na verdade, repletos de confusão conceitual. Eles falam em ‘‘respeito à Constituição’’. Ora, respeitar a Constituição não envolve necessariamente moralidade. Posso perfeitamente respeitar a Constituição tendo em vista um cálculo das conseqüências indesejáveis advindas de meu desrespeito a ela.
  Disso não se segue, contudo, que a política comporte zonas cinzentas, como apregoa o eminente professor José Arthur Giannotti. Não existe essa zona cinzenta. As ações ou são morais, ou são imorais. Se se trata de ação, isto é, da capacidade de se produzir efeitos a partir de uma causa livre (da vontade), e não se trata de mero comportamento, que poderia ser remetido ao determinismo natural, então não temos como eximir a ação, qualquer que seja, de juízos morais. Portanto, nossos ajuizamentos continuam sendo aproximativamente morais. Isso é uma coisa.
  Agora, urge separar a legítima reivindicação por mais decência na política da, embora nobre, exigência de moralidade na política. Suponha (fácil suposição) que um político age a partir de motivações fundadas no auto-interesse. Ora, dificilmente alguém diria que esse político age moralmente. Contudo, é perfeitamente possível que, mesmo agindo por auto-interesse, esse político não seja corrupto. Ele pode simplesmente pensar que não é uma ‘‘boa política’’ correr o risco de ter sua reputação maculada com escândalos. Isso deve acontecer, por certo, com muitos de nossos representantes. E quanto à queixa de corrupção, bastaria que os políticos não a praticassem, independentemente de seus motivos. Daí não ter sentido, ou melhor, ser no fundo vão o reclame por moralidade na política.
  Reconheço que esses movimentos são bem-intencionados. Todavia, confusões nas palavras geralmente refletem confusões nas idéias. E certamente esses movimentos carregam muitas idéias confusas sobre a relação entre ética e política. Vamos apertar os parafusos.
AGUINALDO PAVÃO é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina



Química, futebol e nanociência

Marcos Nalli e Renata Shizue Okubo
  No dia 28 de outubro do ano passado morreu Richard Smalley, prêmio Nobel de química. Smalley, juntamente com H. W. Kroto e R. F. Curl ganharam o prêmio no ano de 1996. A façanha: ao lançarem feixes de laser sobre placas de grafite submetidas a uma temperatura de elevadíssima, eles descobriram e sintetizaram a molécula do fulereno.
  Sua forma molecular mais estável e abundante é o fulereno C60, conhecido como buckminsterfulereno - uma molécula constituída de 60 átomos de carbono - cuja forma lembra perfeitamente a bola de futebol de campo, obtida pela composição de 20 faces hexagonais com 12 faces pentagonais. O fulereno é, juntamente com o grafite e o diamante, uma das formas mais estáveis e cristalinas de carbono.
  Como uma bola de futebol molecular pôde se mostrar tão importante cientificamente a ponto de seus descobridores merecerem o prêmio Nobel, e sua respectiva recompensa financeira? O que permitiu que essa seleção ganhasse a ‘‘Copa do Mundo da Ciência e da Química’’? Seu mérito está tanto em sua beleza e simetria estrutural, quanto em sua ‘‘plasticidade’’ e ‘‘maleabilidade’’, o que lhe permite várias sínteses de outros compostos químicos.
  Na verdade, a família do fulereno tem, como seu membro mais ilustre o C60 ; mas ela é composta de outros tantos membros. O entendimento de sua estrutura molecular permitiu o estudo e produção tanto dos próprios fulerenos quanto dos chamados nanotubos de carbono, estruturas filamentosas variadas que podem ser obtidas mediante vários procedimentos tecnológicos, e com aplicações variadas e imaginativas: da eletrônica às aplicações inimagináveis, passando por microscópios de alta resolução e sondas nanométricas, até a já imaginada (e admitida como ficção científica) fabricação de nanomáquinas e nanorobôs.
  Por hora, sua aplicação mais bem conhecida e tecnologicamente dominada é a eletrônica. É famosa a foto de um nanotubo de carbono sobre os eletrodos de platina, publicada na famosa revista ‘‘Nature’’, em 1997 (a foto pode ser vista no site http://www.mb.tn.tudelft.nl/). Ela representa a possibilidade de extrapolar os limites atuais da informática (baseada na tecnologia do silício), de tornar viável a fabricação de equipamentos eletrônicos cada vez menores, mais potentes, mais eficazes, e até mesmo mais baratos.
  É, temos que admitir que nesta copa mundial da nanociência, Smalley e seu time fizeram um gol de placa!
MARCOS NALLI é professor de Filosofia e RENATA SHIZUE OKUBO é discente do curso de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina


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