O que mais aborrece o londrinense?

Osvaldo Cardoso Ribeiro

O londrinense está aborrecido. Reclama que tudo poderia ser melhor. Às vezes até critica sem razão. Queixa-se da violência e depois é visto insultando no trânsito. Lamenta a falta de segurança, só que vota em candidatos que não dão conta do recado. Quando liga a tevê ou rádio, abre as páginas dos jornais e recebe notícias de corrupção, impunidade e violência, fica convicto que ninguém tem seriedade, todos estão na mesma vala: misturou-se o joio com o trigo. Há um individualismo forte, cada um se defendendo a todo custo e se criando um mecanismo de distanciamento, não se conhecendo o próximo e se irritando com o comportamento dos outros.

Quando dirige carro sente que o trânsito londrinense é caótico. Os motoristas dirigem raivosamente. Os mal-educados ao volante, mesmo errados, gritam, gesticulam e xingam. Nossas ruas têm fracas sinalizações. Na periferia e no centro entristece o lixo que enfeia as ruas. Caminhando às margens do Lago Igapó, observa centenas de pessoas pescando, acha bonito tirarem do lago pequenos peixes que servem para a alimentação, e não gosta de ver o que eles deixam no local: latas de cerveja, garrafas plásticas, restos de alimentos e outras coisas que poluem o ambiente.

O cidadão londrinense educado vê uma falta de civilidade na mania que algumas pessoas têm de fumar em lugares fechados. Tenebroso é precisar dos hospitais públicos. Eles estão sempre lotados por causa de atendimentos centralizados que os sobrecarregam. As nossas leis não são respeitadas.
Parece que nada de grandioso se cria em Londrina. Não há uma obra de realce, para mostrar a grandiosidade da cidade. O que se fez para as camadas sociais carentes até agora? Só se ouve falar em projetos faraônicos de teatro, faculdade e parque ecológico. O povo precisa de tanta coisa nos bairros, perde até esperança e tem que continuar na escuridão de suas ruas, fracamente iluminadas pela Copel, morrendo de medo dos ladrões.

Quando vai à Câmara fica revoltado com o procedimento dos vereadores. Parece que eles brincam com as coisas públicas. Ele tem direito ao sossego e repouso que é assegurado por leis. Mas a barulheira está nas lojas comerciais, e até no maior recanto de lazer da cidade que é o Igapó. Bares e casas noturnas estouram os tímpanos dos moradores próximos.

Diante de tudo isso, ele fica entristecido e descrente. Vê que, na realidade, o londrinense tem que repensar suas ações, colocando suas idéias em ordem em busca de novos horizontes para que tudo se transforme e seja diferente.

OSVALDO CARDOSO RIBEIRO é professor e jornalista em Londrina



O discurso da ordem

Luiz Carlos Ferraz Manini

É digna de repúdio a ação dos fiscais da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) com relação aos vendedores ambulantes que atuam no Calçadão de Londrina, tratados como marginais que não respeitam o discurso que pretende higienizar o ambiente visual daquela região.

Mais do que isso, combate-se esse tipo de comércio por ser ilegal, negociando produtos que chegam do Paraguai sem notas fiscais e que, pela sua circulação, não pagam impostos. Além disso, parece que, suspenso no ar, há um velado discurso da ordem e da segurança, que pretende retirar da visão pública, pessoas que tentam, de uma forma não-ortodoxa, sobreviver.

O que está errado nesta situação toda é a hipocrisia governamental, que tenta (cada vez com menos sucesso) se revestir com um discurso impoluto, afirmando a necessidade de pagamento de impostos, pois isso pode gerar um déficit nas contas públicas que, consequentemente, vai se refletir na má qualidade dos serviços oferecidos pelo governo.

Convenhamos que deveríamos partir de um raciocínio newtoniano, ou seja, para cada ação, existe uma reação, de igual intensidade e no sentido oposto. A reação esperada por aqueles que pagam impostos é a de que o governo ofereça saúde, educação e segurança na medida dos impostos pagos.

Entretanto, nos deparamos sempre com hospitais superlotados, escolas depredadas e uma segurança pública que, por força das circunstâncias, se vê desmotivada a cumprir seu papel. Enquanto isso, grandes larápios de colarinho branco divertem-se às custas do dinheiro do povo, desviando-o para pagar suas orgias particulares com casas, carros, viagens e toda sorte de regalias que somente são sugeridas ao cidadão comum, que trabalha 8 horas por dia e recebe um salário suficiente para sobreviver e continuar sonhando com dias melhores .

Neste ínterim, vemos o combate agressivo e incessante contra as pequenas formigas, que carregando seus pesados fardos diários, têm de se confrontar com a fanfarronice dos nossos grandes gafanhotos, que somente sabem esconder o rosto, fugir das responsabilidades e alegar que não se lembram do que foi feito ou falado.

LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


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