Perfil das empresas: retrato da desigualdade

Oded Grajew

O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, em parceria com o Ibope Opinião, está lançando a terceira edição da pesquisa ''Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas'', que conta com o apoio da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O objetivo desse estudo é estimular e apoiar as empresas a desenvolver ações que efetivamente contribuam para superar as desigualdades. Os resultados de 2005 mostram que houve avanços tímidos, mas significativos. Entre os pontos positivos, registre-se o progressivo crescimento da parcela de mulheres no quadro executivo e de gerência das empresas, respectivamente 10,6% e 31%, e a acelerada inclusão das pessoas com deficiência, que hoje já somam 13,5% dos quadros funcionais das empresas pesquisadas.

Quanto aos negros, sua situação ainda é bastante desigual: eles compõem apenas 26,4% do total de funcionários, 13,5% do quadro de supervisores, 9% da gerência e 3,4% do quadro executivo. Vale ressaltar que os negros compõem 46% da população economicamente ativa e representam 48% da população brasileira.

A pesquisa comprova, por outro lado, o engajamento cada vez maior do setor empresarial brasileiro nas práticas de responsabilidade social. Mais da metade das empresas pesquisadas disse desenvolver alguma ação afirmativa para favorecer grupos sociais tradicionalmente discriminados no mercado de trabalho. O maior destaque foi dado à contratação de pessoas com deficiência, citado 41% das empresas. Em seguida vem o apoio a projetos comunitários para qualificação de profissionais oriundos dos grupos usualmente discriminados (33%).

Pelos dados até aqui relatados, é possível concluir que a diversidade está presente nas empresas, mas a equidade ainda é um objetivo a ser alcançado. Por isso, os líderes das empresas precisam incentivar abertamente a discussão do perfil social, racial e de gênero da organização. É preciso também não ter medo de dar prioridade a ações de inclusão, como estabelecer diretrizes de RH que privilegiem o recrutamento e a promoção de mulheres, negros e outros grupos sociais comumente discriminados.

Superar os preconceitos e a discriminação no Brasil deve ser um compromisso da sociedade. Entretanto, as empresas têm um papel preponderante nesse processo. Políticas de diversidade e equidade contribuem para promover justiça social, agregam um importante diferencial competitivo, valorizam a imagem corporativa da organização e ajudam a construir um país melhor para todos.

ODED GRAJEW é presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social em São Paulo




MST, reforma agrária e agronegócio

Paulo Muniz

Parabéns à Folha de Londrina pelo excelente caderno especial sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o ''Terra Estremecida'', publicado no último domingo. É um material muito esclarecedor, um documento que merece ser lido com atenção, guardado e também debatido.

Recentemente, o presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, trocou acusações com o coordenador do MST, Jaime Amorim, que disse: ''Não haverá trégua na luta contra o agronegócio e nenhum latifundiário vai ficar em paz''.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que desejava ser cobrado pelos movimentos sociais e, ao mesmo tempo, criticou os agricultores que não pagam os financiamentos, referindo-se a eles como ''laranjas podres''.

Um proprietário rural disse nos jornais que ''o primeiro que encostar a mão no seu cadeado, ele manda para o inferno''. Nabhan completou: ''Quando começamos a não ter mais confiança na lei, a situação se torna perigosa e o aviso do produtor faz sentido''.

Todas essas declarações e as desenfreadas invasões de terras que se espalham por todo o País, merecem uma reflexão sobre o modelo de reforma agrária e de agricultura que nós pretendemos. Hoje o agronegócio é muito importante para o Brasil, gerando não só divisas, mas também os alimentos necessários para matar a fome de mais de 180 milhões de habitantes.

A agricultura só sobrevive se tiver tecnologia, alta produção e grande extensão de terras. Não é possível viver da terra com poucos hectares. Há anos que a subsistência somente, não é suficiente. As famílias querem conforto e acesso às modernidades. Ninguém quer voltar ao tempo da pedra, com enxadinha na mão.

Um bom modelo seria o adotado pela Itália. Lá existem pequenas propriedades familiares que estão ligadas por cooperativas, associações, comunidades. Cada região se especializou em um tipo de produto. No ''Brasil Gigante'' muita gente pode dizer que o modelo italiano não seria plausível. Mas com os assentados integrados ao agronegócio, a produção teria mercado garantido. Eles veriam resultados e não ficariam desanimados, como muitos, a ponto de negociar a propriedade doada pelo governo.

O modelo atual dá a terra e abandona o assentado à própria sorte, sem equipamentos nem dinheiro para financiar a compra de sementes e a produção. Isso provoca mais revolta e transforma uma grande quantidade de pessoas em massa de manobra dos grupos que dizem, só da boca para fora, querer a terra para quem nela trabalha.

Não vamos defender os latifúndios improdutivos, mas é preciso que a foice e a enxada dos sem-terra sejam trocadas por tratores, colheitadeiras, sementes de qualidade, adubo. O trabalhador rural e o agricultor querem ser tratados com respeito, ter dignidade, e não ficar recebendo tudo de mãos beijadas, num assistencialismo e paternalismo sem fim. Esse tipo de política está falida.


PAULO MUNIZ é empresário em Londrina

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