ESPAÇO ABERTO
A mão entre o olho e o microscópio
Marcos Nalli Ermógenes Jacinto Jr.
Há uma metáfora bastante conhecida, proposta pelo filósofo alemão Gottlob Frege (1848-1925), curiosamente para falar da linguagem, sobre a diferença entre o olho e o microscópio. Ela afirma mais ou menos o seguinte: a diferença reside no fato de que com o olho se podem ver coisas muito diversas quanto à cor e tamanho, e num raio de apreensão perceptiva bem mais ampla que a do microscópio, que serve para fins bem mais estreitos e definidos de percepção; e neste sentido o olho é bem superior ao microscópio. Contudo, considerando a especificidade para a qual foi projetado o microscópio, sua superioridade reside na possibilidade de proporcionar uma percepção bem mais precisa e definida, mais exata e adequada que o olho humano.
Esta metáfora, proposta no final do século XIX, certamente enfrentaria sérios problemas nos tempos atuais, se considerarmos os avanços tecnológicos da microscopia. O microscópio que fora provavelmente criado em 1590, pelos holandeses Hans e Zacharias Jansenn, e aperfeiçoado por Robert Hooke (1635-1703) atende perfeitamente bem àquela metáfora. Trata-se do microscópio ótico, que atende perfeitamente à tese do conhecimento científico como forma aprimorada de percepção e descoberta dos objetos para investigação, e contemplação da verdade a ser descoberta.
Durante o século XX outras tecnologias de microscopia foram criadas, desenvolvidas e aprimoradas. Em 1932 surge o primeiro microscópio eletrônico, que por meio de um feixe de elétrons, e não de luz, propicia uma visualização mais precisa e mais potente. E em 1982, foi criado o microscópio de tunelamento (STM), pelos pesquisadores Gerd Binning e Heinrich Hohrer; o que lhes valeu o prêmio Nobel de física de 1986. Com esse novo aparelho foi possível não apenas ''ver'' átomos e moléculas, como também manipulá-los sobre uma superfície. Tanto é que em 1989, equipe de pesquisadores da IBM manipularam átomos de níquel de tal modo que escreveram a sigla da empresa sobre uma superfície de xenônio.
Com ferramentas como o microscópio de tunelamento se possibilitou, dentre outros, o avanço das pesquisas em nanotecnologia: não se trata mais de apenas visualizar e estudar imagens geradas; mas de poder efetivamente manipular com suficiente precisão átomos e moléculas - tal como peças de blocos de montar - com vistas a fabricar novas coisas. Com o STM, a ciência mudou: agora fazer ciência não é mais só ver e contemplar, mas também manipular e fabricar; inclusive suas verdades.
MARCOS NALLI ERMÓGENES JACINTO JR. é professor no departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina
Reale: entre a política e o Direito
Roberto Bueno
A filosofia do direito não costuma ser das áreas de saber com maior penetração nem sequer dentro dos cursos jurídicos. Nela pontificou a figura de Miguel Reale. Embora a filosofia brasileira tenha encontrado dignos representantes, internacionalmente não alcançou a mesma repercussão. Pode dizer-se que entre as exceções estão as figuras de Reale (1910-2006) e Mangabeira Unger.
Nascido em São Bento do Sapucaí (SP), foi congruente com uma de suas máximas. Dizia que ''para um velho, um segundo vale uma hora''. Trabalhou em todos eles até ser surpreendido por síncope cardíaca. Até o mês anterior foi presença ativa na Academia Paulista de Letras, debatendo com a costumeira cordialidade e profundidade temas do momento.
Articulista ativo, publicava quinzenalmente em um dos mais influentes jornais de circulação nacional. Era rotina obedecida prazerosamente, contou seu filho. Entre suas contribuições às letras jurídicas nacionais pontifica o Código Civil. Sua trajetória política foi marcada por hesitação na defesa das liberdades. Nisto Reale mantém proximidade com Bobbio. Todos recordamos da carta de Bobbio a Mussolini onde com letras maiúsculas destacava que ele e sua família tinham grande apreço pelos princípios fascistas. Ambos arrependeram-se. Publicamente Bobbio o fez mais intensamente, não perdendo oportunidade de mostrar quase nula condescendência.
Reale esteve mais implicado. Aos 30 anos, após publicar duas obras (''Teoria do Direito e do Estado'' e ''Fundamentos de Direito'', de 1940), já era maduro intelectualmente, pois ambas seriam referência para sua conhecida teoria tridimensional do direito. Em torno de 1932 conheceu Plínio Salgado, o articulador do integralismo, versão do fascismo no Brasil, quando filiou-se à Ação Integralista Brasileira (AIB). Pecado de juventude ou o germe de todo um pensamento conservador que marcaria a íntegra de sua obra? Esta é uma pergunta à qual não cabe responder neste espaço.
Reale, assim como Bobbio e Junger, foi privilegiado com longa existência. Arguto, vislumbrou os maiores eventos políticos de seu tempo. Reale deixa grande legado. Exemplo é sua celebrada teoria tridimensional do direito. Nela, fato, valor e norma se entrelaçam como que para explicar que as coisas não têm realidade unidimensional. Portanto, por qual motivo querer classificar seu autor de forma tão plana como conservador?
ROBERTO BUENO é professor de Direito em Guarapuava





