Desfazer o 'malfeito'

Antonio Delfim Netto

Obtido por meio de manobras ''heterodoxas'' no primeiro governo tucano, o instituto da reeleição num país sem controle social, distorce o processo democrático. Era previsível o que aconteceu: o eleitor se vê diante da realidade que só a cada oito anos, terá a oportunidade de participar de uma eleição relativamente honesta.

A prova cabal desse fato foi a mal disfarçada disputa interna no PSDB para condicionar a escolha do candidato tucano à promessa que ele ''iria desfazer o malfeito por FHC'', para dar oportunidade em 2010 ao candidato preterido. O problema é que ''as coisas malfeitas talvez possam ser desfeitas, mas não podem ser não-feitas''. A disputa entre José Serra e Geraldo Alkmin estimulou a advertência vinda do próprio partido, nas alterosas: ''Agora chega de paulistério: 2010 passa por Minas Gerais''...

Para benefício do processo democrático e eleições competitivas mais frequentes, o primeiro compromisso que se deve exigir dos candidatos é seu engajamento numa emenda constitucional que liquide de uma vez com a mais trágica herança da octaetéride fernandista: a vergonhosa possibilidade de reeleição sem desincompatibilização.

Esse compromisso é necessário, mas não suficiente, para a escolha do melhor candidato. O Brasil precisa libertar-se do medíocre crescimento que ele tem vivido nos últimos 15 anos e resolver enfim três problemas complexos legados pela execução incompleta do seu programa de estabilização:

1. Um imenso aumento da carga tributária bruta/PIB;

2. Um imenso aumento do endividamento/PIB; e

3. Uma imensa vulnerabilidade externa/Exportação.

O terceiro problema está praticamente superado por uma atuação brilhante da equipe econômica no governo Lula.

Resta enfrentar o aumento da carga tributária e o aumento do endividamento público que transferem recursos do setor privado (mais eficiente) para o setor público (menos eficiente) reduzindo seus lucros, seus investimentos, o consumo das famílias e, consequentemente, o ritmo de crescimento econômico. A questão é mais grave porque os investimentos públicos que deveriam complementar os investimentos privados não podem ser realizados. A conclusão é que o Estado deixado por FHC depois do Plano Real, inchou tanto que não cabe mais no PIB brasileiro.

Só merece nosso voto aquele que se comprometer a extinguir o instituto da reeleição e apresentar o melhor programa para desmontar a armadilha produzida pelo simultâneo aumento da carga tributária e do endividamento público.

ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PMDB-SP



Iraque: uma nação sem paz

Nelson Araújo de Oliveira

Ninguém pode permanecer por muito tempo sob a fobia do medo. Nenhum ser humano pode suportar, continuamente, os horrores do terrorismo. Qual seria a nação capaz de suportar por um longo período a submissão imposta pela prepotência estrangeira? Quem poderia imaginar que, em tempos de conhecimentos científicos, do uso da razão e da liberdade, os filhos do mesmo solo se digladiariam por divergência religiosa? A sabedoria mostra que um reino dividido contra si mesmo não subsistirá.

Será possível de que tantas coisas ruins podem abater-se simultaneamente sobre um mesmo povo? Se for possível, ousaria dizer que Deus abandonou esse povo ou, então, quem sabe esse povo abandonou seu Deus. Todavia, qualquer observador pode afirmar que uma dessas duas coisas está acontecendo no Iraque. O ódio entre facções religiosas é incompatível com a essência do amor a Deus.

Foram desprezíveis aqueles sofrimentos do regime de exceção do ditador Saddam Hussein. O povo iraquiano não acreditava quando, de repente, foi surpreendido com os horrores da invasão americana. Por causa disso, explodiu o terrorismo local. Essas ações mataram e mutilaram multidões indefesas. Como se tudo isso não fosse suficiente para aniquilar uma nação, como se a guerra e o terror fossem apenas fatos corriqueiros do dia-a-dia de um povo, ainda que os milhares de iraquianos que tombaram sem vida nos inúteis esforços para deterem os invasores, nada disso impressionou os representantes das facções religiosas do Iraque. Agora, os irmãos, filhos da mesma terra, voltaram-se uns contra os outros. Iraquianos matando iraquianos, patriotas agora se matam mutuamente, não por uma justa causa, mas simplesmente por ódio entre irmãos, seguidores do mesmo credo.

Xiitas e sunitas, facções religiosas, temporariamente agem sem direcionamento de Deus, sob influência da vingança e do ódio não se receber luz divina. Milhares de mortos nesta guerra civil vêm aniquilar impiedosamente a própria pátria, já enfraquecida. Não se constatou nenhuma ruptura no Alcorão, não houve desrespeito à personalidade do profeta Maomé e o Deus no qual acreditam ainda permanece o mesmo. Então, não se justifica que o solo iraquiano continue embriagado, embebido de sangue desses religiosos. Deuses e profetas não compartilham com esse embate religioso, incompatível com nosso tempo. Esse conflito não se justifica no momento de transição iraquiana. O melhor seria unir forças para a reconstrução do país, mais enfraquecido por causa das divergências religiosas. Que os profetas que inspiraram sua fé, possam ajudar o povo iraquiano nesse memonto de desconforto.

NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina

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