ESPAÇO ABERTO
Agricultura à beira da falência
Marcelo Alexandre Venâncio
A agricultura brasileira está vivendo uma das piores crises já registradas no setor. O problema atinge o país de norte a sul e se agrava com produtores de milho e soja, pois a grande maioria obtém sua receita destas culturas. Isto acontece principalmente pela queda do dólar, moeda na qual são cotados estes produtos. Oscilando hoje entre R$ 2,11 e R$ 2,16, o preço final dos destes produtos agrícolas fica abaixo de um valor estimado para seu custeio e gerar uma receita líquida suficiente para sobrevivência dos produtores. Em segundo plano vem a super-safra americana de soja e estoques mundiais altos. Para o milho ocorre a queda no seu consumo por conta da gripe aviária nos principais países consumidores de frango diminuindo assim as exportações e automaticamente diminuindo o consumo de milho em grandes volumes.
Existem ainda fatores adversos que contribuem para o aumento do prejuízo no campo, como a estiagem em algumas regiões, o excesso de chuva na colheita em outras, a severidade da ferrugem asiática aumentando o uso de fungicidas e o ataque de pragas.
O produtor não encontra saída para amenizar seu prejuízo, nem mesmo para saldar suas dívidas com fornecedores. Lembrando ainda que nossos produtores também possuem seu orçamento doméstico mensal e muitos possuem compromissos com funcionários, financiamento de máquinas, veículos, etc.
Isso explica que de nada adianta os preços dos produtos alimentícios estarem mais baratos nas prateleiras dos supermercados hoje e um dos principais setores da economia estar falido amanhã. Os governantes de uma forma geral fazem vista grossa ao assunto sem sequer manifestar algum apoio concreto e real, ou seja, preferem fazer promessas e discursos vazios que mascaram o problema e prorrogam o mesmo sem solução por tempo indeterminado.
Precisamos de uma resposta de política agrícola real, séria e com fundamentos concretos que pelo menos tire o setor do sufoco, viabilize o negócio e continue dando condições para seu desenvolvimento sustentável e econômico no país. Ou então seremos escravos de multinacionais, especuladores e atravessadores por muito tempo.
O setor agrícola encontra-se à beira de uma falência generalizada e sem o devido conhecimento e consentimento da população urbana ficando a maioria sem a informação necessária, pois a rede de TV aberta do país só faz reportagens especiais quando tudo está num mar de rosas. Pura propaganda ilusória.
MARCELO ALEXANDRE VENÂNCIO é produtor, consultor e técnico em produção agrícola em Londrina
Gripe aviária ou câmbio inviável?
Paulo Muniz
Ultimamente, a imprensa de forma geral vem noticiando a diminuição das atividades avícolas no Brasil, com paralisações parciais da atividade, e mesmo em alguns casos com paralisações plenas, através de férias e outras alternativas. Isso é fato verdadeiro, porém, cabe uma análise pontual sobre a motivação que tem levado a esses fatos.
A imprensa tem dado ênfase à gripe aviária, que vem acometendo plantéis avícolas na Indonésia, onde já morreram 22 pessoas. No Vietnã, foram 42 mortes. Somam-se a estes, outros casos que chegam ao total de 103 óbitos, entre os anos de 2003 a 2006 - números atualizados em março deste ano pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Convenhamos, trata-se de um pequeno número quando comparado como, por exemplo, com outra influenza, a humana (gripe comum) que, a cada ano, mata mais de 500 mil pessoas em todo o mundo, sem falarmos nas mortes ocorridas no trânsito brasileiro em média, 45 mil pessoas por ano.
Obviamente, não estamos indiferentes às 103 mortes, tratam-se de vidas humanas e merecem nosso respeito. Tampouco este quer ser o advogado do diabo, mas convém refletirmos considerando outras motivações.
Considerando que se confirme que, no mês de abril, as exportações brasileiras do conjunto carne avícola fiquem em torno de 220 mil toneladas, teremos então um recuo nas exportações - levando-se em conta o primeiro quadrimestre próximo - de 2%, uma variação perfeitamente normal.
Segundo a agência noticiosa Reuters, sem novos registros de casos de gripe aviária nos países fronteiriços à Europa, o consumo recupera-se e deixa de ser pauta nos meios de comunicação.
Agora, olhando as questões das exportações brasileiras sobre o ângulo cambial, aí sim, identificamos um pandemônio e não uma pandemia. As questões cambiais vêm mortificando todos os segmentos exportadores brasileiros.
É a agricultura que não viabiliza suas produções, esta é tão grave que já indicam quedas nas aquisições de seus insumos principais, como defensivos agrícolas (queda de 30%), sementes (-20%), indicando expressiva diminuição de produtividade em 2007.
Mas nem todos são perdedores neste conjunto. Vivemos um ano de acirrada disputa eleitoral, e para a situação que está no governo não existe nada melhor do que inflação baixa para reconciliar a capacidade de compra das famílias brasileiras.
A política de juros altos, imposta pelo Banco Central, leva a entrada de capital especulativo em nossas bolsas, dólares que, convertidos em reais, torna este último supervalorizado. Nesta relação, não existe produto exportado que se viabilize, derrubando os preços em reais.
Diante deste quadro, quem pode, diminui suas produções e aguarda o novo governo, seja qual for. Só aí vamos cair em uma relação real.
PAULO MUNIZ é empresário do setor avícola em Londrina





