Pizzarias hereditárias

Dora Maria Silva Grimaldi

  A ameaça de extinção do programa cultural da Associação Médica de Londrina (fruto proibido da Fernanda Jiran) me chama à arena. Usufruímos do projeto desde os primeiro dias (o público éramos três ou quatro pessoas em algumas noites). Crescemos até cem que multiplicados pelas segundas, sábados e domingos ultrapassamos os três mil. As poltronas azuis recebem também as famílias dos nossos jovens talentos (muitos já saídos do anonimato, incluindo membros da orquestra da Osuel com seus trios e quartetos).
  Percebemos o prejuízo dessa morte anunciada tentando inutilmente entender essa política equivocada. Nós, os cem cativos privilegiados desse clube não temos vontade política para reverter esse quadro? O projeto sempre abordou temas culturais abrangentes e atuais através dos debates do cinema, da música popular e da música erudita. Ali desfila toda a humanidade dissecada em todas as suas facetas. É a elite cultural que está na platéia? O acesso à cultura universal, direito constitucional, está sendo respeitado? Cidadão londrinense que não tem o direito de conhecer para depois escolher, tem assento nas históricas poltronas azuis? Como reagiriam diante das ‘‘Bodas de Fígaro’’ popular e audaciosa já naqueles tempos? Talvez dissessem - ‘‘mas é ainda assim hoje meu’’ ou ‘‘que massa cara!’’, ‘‘esse tal de Mozart é manero e ligado’’.
  Mulheres espancadas ou assassinadas por homens violentos, doentes e inseguros se arrepiariam diante de Otelo, o mouro (não há nenhuma novidade no pedaço, que o digam os 300 atendimentos mensais da Delegacia da Mulher, que será contemplada com um projeto de revitalização incluindo música ambiente). Quanta força tirariam da coragem escandalosa de Carmen, a cigana livre. A humanidade desde que desceu das árvores e povoou as savanas da África corre um risco trágico para não dizer cômico. A cortesã redimida pelo amor na Traviatta poderá ser substituída com vantagem pela história da ‘‘Eguinha Pocotó’’. Quem conteria as lágrimas?
  Vacinação em massa contra o vírus da ignorância, urgente! Para 2008 quem sabe uma ópera do mundo do hip-hop. Por que não? Outros espaços estão disponíveis, outros públicos anseiam por serem seduzidos. Sara na velhice foi capaz de gerar (Gênesis cap. 21) e assim será com Fernanda Jiran com sua prole cultural. Em tempos de Copa, Bhrams para todos! Se conquistarmos o hexa dançaremos sob a ‘‘Ode da Alegria’’, de Beethoven, o surdo, ou quem sabe em uma roda de capoeira com tambores afro. Há para todos.
  Enquanto escrevo, ouço uma gravação dos anos 60. Villa-Lobos com seus índios, negros em sua Floresta Amazônica com a voz de Bidu Saião, nossa prima-dona que virou samba-enredo, diretamente dos palcos do primeiro mundo para o sambódromo. E se música faz bem para saúde, (até as vacas produzem mais leite!) música passaria a ser uma questão de política de saúde pública. Quando o poetinha Vinícius encarnar em algum secretário, antes dos jornais, saberemos e naquele dia ninguém morrerá segundo as intermitências da morte (Saramago). Me disse o rei arrependido da divisão em capitanias hereditárias, que muito melhor teria sido o sistema das pizzarias hereditárias.

DORA MARIA SILVA GRIMALDI é médica em Londrina


Segurança: a outra face da liberdade

Rodrigo da Rocha Loures

  Em uma nação democrática impera a liberdade, o livre-arbítrio, o respeito ao cidadão e a garantia dos direitos fundamentais. Não há liberdade em uma sociedade insegura e amedrontada. A segurança é a outra face da liberdade. Para que a liberdade exista e prospere, é fundamental que os princípios de segurança física, jurídica e institucional sejam acatados por todos os cidadãos, a começar pelas autoridades constituídas.
  Infelizmente, não é o que acontece no Brasil: o país está se convertendo em uma arena sem regras, um vazio institucional. Grande preocupação me invade pela inexistência de mecanismos eficientes de blindagem da democracia e da cidadania, aptos a garantir a segurança jurídica de nossas instituições e proteger o cidadão contra os desvios de conduta praticados pelos ‘‘donos do poder’’.
  Caso emblemático é o do caseiro Francenildo Costa, cujo sigilo bancário foi quebrado ilegalmente e a imagem e patrimônio moral foram expostos à execração pública. De igual modo, a invasão e destruição do horto florestal da Aracruz Celulose ou os confrontos entre o Exército e traficantes nos morros cariocas, são exemplos da insegurança que se alastra pela vida da população brasileira.
  Entrave à democracia também foi a escandalosa articulação para impedir as prévias do PMDB. Claro exemplo de um sistema partidário frágil e desfigurado, dominado pela vontade e projetos pessoais dos mesmos caciques que predominam na cena política deste país há mais de 30 anos.
  Precisamos reagir e nos mobilizar! Não podemos mais assistir, passivamente, autoridades se omitindo do dever de cumprir suas missões institucionais. Afinal, como desenvolver o país e estimular os empreendimentos se não existe segurança, e, por conseguinte, liberdade?
  A renovação política certamente é o grande instrumento de participação e mudança. Nossas armas são o senso crítico, o voto e a mobilização social. Queremos mudança, não só de regras, mas, acima de tudo, de atitudes e de valores, para com isso podermos efetivamente participar, acreditar e sonhar.
  Sonhamos com a liberdade de votar sem a quase certeza de sermos traídos. Sonhamos com o político que cumpra fielmente as promessas de campanha. E que, se algum dia alguém houver de sambar em plenário, que o faça para celebrar a redução do desemprego e da violência; o crescimento da renda e do emprego; a melhoria dos sistemas de educação e saúde.

RODRIGO DA ROCHA LOURES é presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná


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