ESPAÇO ABERTO
A globalização, o jovem e o trabalho
Outubro de 2005 foi marcado por uma onda de violência que atingiu os arredores de Paris, tendo como protagonistas jovens filhos de imigrantes, em sua maioria do norte da África. O que motivou o protesto foi a morte acidental de dois adolescentes, que se eletrocutaram ao entrar numa subestação de energia ao se esconderem da Polícia.
No entanto, outros confrontos estavam por vir, tão arrebatadores como os primeiros e a mensagem contida nestes episódios é clara: é preciso criar perspectivas para os jovens, não apenas aos do continente europeu. Mas para os jovens de todos os países que não têm sido privilegiados com políticas que lhes assegurem o acesso ao trabalho. O problema dos jovens da França não é diferente dos jovens brasileiros que cada vez mais vêm encurtar suas possibilidades profissionais. O que esses jovens atores sociais estão produzindo não é o caos deliberadamente porque eles são, na verdade, o resultado de uma sociedade globalizada, que equivocadamente globalizou apenas a miséria, a desigualdade social e a violência. São resultado de um modelo econômico que cada vez mais estabelece a distância entre ricos e pobres. Daí a revolta contra a exclusão social dos moradores da periferia, não só de Paris, mas de várias cidades em diversos pontos geográficos do planeta.
A maior parte dos manifestantes tinha entre 14 e 20 anos e eram imigrantes africanos sem acesso aos estudos e ao mercado de trabalho. A taxa de desemprego entre jovens da França é de cerca de 22%. A falta de emprego é a maior questão política com que se depara o país. Também são exemplares os protestos contra o chamado Contrato do Primeiro Emprego (CPE), que, segundo os movimentos organizados objetivava criar instabilidade no mercado, para os menores de 26 anos.
O governo francês cedeu às pressões populares e cancelou o Contrato do Primeiro Emprego. No Brasil, a política do primeiro emprego, infelizmente não decolou, ficou apenas na intenção. Um olhar sério para esta questão seria determinante para prevenir o que temos visto a olhos nus: o aumento cada vez mais de crianças, adolescentes e jovens no mundo do crime, principalmente no tráfico de drogas.
Enfim, com a globalização, o cidadão comum ficou à mercê de pregões de bolsas e índices financeiros que não geram emprego e não dão estabilidade alguma. Nesta relação de servidão ao mercado o que sobra para o jovem - quando sobra - são contratos terceirizados e temporários que só fazem aumentar a pobreza. E esta é entendida como exclusão social: exclusão do mercado de trabalho, ou seja, como incapacidade de um indivíduo obter uma renda mínima necessária para sua sobrevivência, seja no setor informal, seja no formal. Ao crescer o desemprego e o trabalho flexível, cresce também a exclusão social.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina, ISBL e Uninorte
Pó de célula
A arte de curar sempre foi pasto livre para as mais diferentes ruminações. Fontes literárias, da Antigüidade ao século XIX, são ricas de experiências que, vistas à luz dos avanços dos últimos 50 anos, enchem balaios de esquisitices. Houve um tempo em que as práticas médicas não passavam de um aglomerado de crendices. Sangrias e vomitórios, poções infeccionantes, crença em poderes mágicos de reis e feiticeiras, durante séculos, deram o tom predominante na arte de curar. O que poderíamos caracterizar, hoje, como as excentricidades experimentais de curandeiros eram, verdadeiramente, expressões da lógica peculiar da mais douta ciência, ao menos até o século XVIII.
No século XVI, o filósofo cético Michel de Montaigne (1533-1592), já fazia pilhéria dos tratamentos médicos predominantes em sua época: De costume a cura só se obtém em detrimento da vida; fazem-nos incisões, cauterizam-nos, privam-nos de alimento, tiram-nos sangue; um passo a mais e eis-nos curados para sempre. Para Montaigne, a medicina era uma infinidade confusa de opiniões, um universo vasto e turvo de erros. Algumas técnicas eram realmente bastante eficazes, notava o filósofo, para apressar a morte, bem entendido. Acerca de um circunstanciado relato das concepções médicas predominantes no século XVI, além de divertidas referências às crendices e superstições diversas da medicina antiga e medieval, Montaigne faz a alegria do leitor com uma infinidade de gozações, como a do mau lutador grego que, malogrado em seu ofício, tornou-se médico. Um filósofo zombeteiro, Diógenes, ao saber da nova profissão do ex-lutador, disse ao novo discípulo de Esculápio: Coragem, vais agora derrubar todos os que te derrubaram outrora.
Como toda obra universal, o livro Ensaios, de Montaigne, é fonte rica em imagens e metáforas que iluminam a nossa própria realidade. Com efeito, nos dias que correm, é muito comum acompanhar as aventuras de alguns desses lutadores canastrões sob a pele de médicos juramentados. E as novas terapias com células-tronco acrescentam algumas pérolas à história da arte médica. É o que se vê quase diariamente pela imprensa, conforme matéria de Chiara Papali, na Folha de Londrina: Médicos alertam sobre uso de terapia celular, de 15/4. Em tempos de transplante de rosto e de outras façanhas louváveis da Medicina séria, o pó de célula virou a salvação da lavoura de charlatães diplomados. Mutatis mutandis, não estamos tão distantes dos tempos de Montaigne.
MARCOS ANTÔNIO LOPES é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina e co-autor de A peste das almas: histórias de fanatismo (Editora da Fundação Getúlio Vargas, no prelo)
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