ESPAÇO ABERTO
Tríduo Pascal ou feriadão?
Manoel Idalgo
Para os cristãos, na Semana Santa acontecem as celebrações da vida (quinta), morte (sexta) e ressurreição de Cristo (sábado). Na verdade é uma única celebração chamada teologicamente de Tríduo Pascal, dividida em três partes. A Igreja Católica é a mantenedora desta tradição e é através dela que são transmitidos os conteúdos da fé. Na Quinta-Feira Santa celebra-se a Instituição da Eucaristia, na Sexta-Feira Santa a Morte Redentora de Jesus e no Sábado Santo a Ressurreição Gloriosa de Cristo. Estes três encontros querem reafirmar a fé em Jesus Cristo: O Deus feito homem que deu a vida por amor da humanidade e venceu a morte. Isto tudo marca o início da própria Igreja (Católica Apostólica) que deve transmitir esta verdade.
Para os não-cristãos é uma ótima oportunidade para descansar, viajar ou simplesmente aproveitar os dias de folga. Aqueles que determinam os feriados não estão interessados na fé ou na educação religiosa. A sociedade como um todo mantém esta tradição e todos aproveitam estes dias santos como bem quiserem. Mesmo não compartilhando da fé cristã, todos aproveitam dos seus dias sagrados sem reclamar.
Bem no começo da Igreja Católica era celebrado somente o Domingo da Páscoa. Páscoa significa passagem da morte para a vida. Neste dia recordava-se todo o mistério da vida-morte-ressurreição de Cristo. Alguns séculos depois surgiria o Tríduo Pascal. O Domingo da Páscoa era o dia mais festivo da Igreja. Não sei quando veio o costume de dar de presente um ovo bem ornamentado para simbolizar a vida nova que saíra do túmulo, que ficaria conhecido como Ovo de Páscoa. O que sei é que a sociedade capitalista fez a passagem da fé para o comércio e começou a fabricar ovos de chocolate. O domingo cuja palavra significa Dia do Senhor transformou-se em dia de folga. E o Domingo de Páscoa é lembrado por muitos como Dia do Coelhinho da Páscoa.
Penso que a fé de um povo é o que existe de mais sagrado e por isso merece respeito. Deve-se estimular a prática religiosa através de todos os meios, inclusive decretando feriados as datas mais significativas. O problema surge para quem não pratica a fé: que valor tem uma data religiosa? A resposta pode ser esta: vira feriadão. Simplesmente dia ou dias em que não se trabalha. A fé que deveria estimular a esperança, a fraternidade, corre o risco de ser reduzida a mais um estímulo para o comércio.
De que lado você está? Daqueles que vivenciam os dias santos da paixão-morte-ressurreição de Cristo ou daqueles que aproveitam do feriadão para descansar? De qualquer maneira saiba que estes dias santos são oportunidades para pensar na sua própria vida, morte e ressurreição. Feliz Páscoa.
MANOEL IDALGO é pároco da Paróquia Nossa Senhora dos Migrantes em Cambé
Se és filho de Deus, desce da cruz
Gerson Araújo
Terrível tentação deve ter sentido Jesus, ao ouvir estas palavras. Os discípulos o haviam abandonado. Daquela multidão que, uma semana antes, estendia tapetes de flores para ele passar, alguns fugiram apavorados e outros estavam ali escarnecendo dele. E ele sabia, que a um simples pedido seu, o Pai varreria para o inferno aquela multidão ululante, simplesmente preocupada em preservar sua posição junto às autoridades, tanto romanas como judaicas. Mas ele sabia também, e principalmente, que o Pai amava aquela multidão e que sua missão ali estava sendo cumprida exatamente por morrer por ela, tanto é que uma das poucas palavras ditas na cruz foi a de pedir: ...perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.
Almoçando com uma senhora na chamada Sexta-Feira Santa, antes da oração de agradecimento, assim ela se expressou: Precisamos orar pois hoje comemoramos a maior tragédia de todos os tempos..., o que me permitiu completar: ...e que se transformou na maior bênção de todos os tempos. E isto porque Jesus não aceitou a terrível sugestão daquela infeliz criatura.
Sim, ele não desceu da cruz porque fosse incapaz, mas porque aceitou o desafio de Deus até suas últimas conseqüências. Se ele aceitasse o desafio do desce da cruz a humanidade perderia a oportunidade da salvação e estaria ainda imersa na maior escuridão, sem perspectiva de liberdade. Mas ele suportou a pressão.
Muitas vezes, no nosso dia-a-dia, somos tentados a desistir diante de inúmeras pressões: nossos esforços são inúteis; os amigos já não merecem confiança; nossos ideais são colocados abaixo, não dá para suportar. Aí, então, ouvimos as palavras salvadoras: Desce da cruz. Não vale a pena tanto sacrifício, tanto trabalho, ainda mais por pessoas que não nos compreendem; por ideais que não vamos nunca alcançar. Que sugestão maravilhosa!, tão oportuna.
Mas, assim como Jesus, não devemos atender a este apelo, pois, se queremos alcançar algum ideal, a primeira coisa a saber é o nível de dificuldade e os meios para enfrentá-la e prosseguir firmes. Cristo prosseguiu e por isso, hoje, comemoramos com a mesma alegria sua morte e também a sua ressurreição. Ele aceitou o desafio do Pai e rejeitou o desafio do homem, exatamente por amor a todos nós.
Muitos dos que conviveram com Cristo achavam que o descer da cruz era a grande vitória, tanto é que se decepcionaram com a morte. A prova disto é que alguns disseram: Vamos pescar; outros caminhavam desanimados para Emaús para recomeçar a vida. As mulheres, ao terceiro dia, foram até o túmulo, na certeza de ainda encontrarem lá o amigo morto. Tudo era decepção. Mas, para felicidade do mundo, ele não desceu da cruz. Ele venceu morrendo, pois ressuscitou e mostrou a todos os indecisos uma nova perspectiva de vida.
GERSON ARAÚJO é capelão do Hospital Evangélico e pastor da 3ª Igreja Presbiteriana Independente em Londrina
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