Perspectivas econômicas à expansão do crédito

Rafael Lopes Antunes
  Quem já não entrou em um banco comercial, ou recebeu folheto de rua, oferecendo-lhe persistentemente um ‘‘incrível’’ empréstimo consignado, consórcio, ou mesmo, financiamento a taxas imperdíveis?
  Em 2005, as operações de crédito do sistema financeiro saltaram de 27,2% para 31,3% do PIB no decorrer do período. Em Janeiro de 2006, o resultado ficou em 31%, podendo chegar ao final do ano, segundo alguns analistas, a 33% do Produto Interno Bruto. Isto decorre, em grande parte, das operações com pessoas físicas, que em 2005 tiveram aumento de 37%. Em fevereiro, o aumento representou 34,7% em relação ao mesmo período do ano passado, e crescimento de 2% em relação a Janeiro. As maiores altas anuais se concentraram nas linhas de crédito consignado (68%), financiamentos diversos (46,6%), e de crédito pessoal (41%). Essa constatação propõe a seguinte questão: até que ponto se sustenta à expansão do crédito ao consumidor no país?
  Na escala de preferência nacional, o cheque especial tem participação de 40,09% (com taxas que chegam a 148% a.a), acompanhados do crédito pessoal, 18,04%, e do cartão de crédito, com 18,01%.
  Com a baixa de 0,5% da taxa média de juros cobrada pelos bancos e financeiras, decorrentes das consecutivas quedas da taxa básica de juros nos últimos meses, têm exercido relativa pressão à redução do spread bancário, embora o aumento do índice de inadimplência, e a crescente demanda por crédito, tem estabelecido um tradeoff à flexibilização destas taxas e conseqüentemente do spread.
  Em um cenário otimista, com aumento do nível de atividade econômica, controle inflacionário, queda da taxa Selic, hoje em 16,5% a.a, barateando relativo de empréstimos e financiamentos em geral, o aumento nominal de 16,67% do salário mínimo, e a expansão de investimentos públicos e publicitários em ano de eleição, potencialmente irá contribuir para o crescimento do PIB em 2006, e a conseqüente expansão do crédito.
  A cautela, portanto, deve ocorrer no âmbito da educação financeira, em um ano oportuno como 2006 este panorama pode induzir as pessoas ao consumo excessivo e ao endividamento, gerando conseqüências desastrosas ao Sistema Financeiro. Esta é a doença que atinge os Estados Unidos. Segundo o FED (Federal Reserve), os americanos devem hoje US$ 9 trilhões, o dobro do que deviam dez anos atrás. A dívida per capita do país, hoje em torno de
US$ 7 mil, já acendeu o sinal de preocupação e alerta dos economistas em todo o mundo. Eles projetam uma catástrofe na estrutura financeira, caso o banco central norte-americano necessite elevar muito a taxa de juros. Por isso, é preciso estar atento aos pequenos movimentos mercadológicos, porque educação financeira, ou ao menos educação elementar, nunca foram, nem de longe, foco político em nosso país.
RAFAEL LOPES ANTUNES é diretor de Projetos da Empresa Júnior de Economia - ligada à Empresa de Consultoria e Assessoria Econômica da Universidade Estadual de Londrina



Vergonha nacional

Eliana de Oliveira Trindade
  O tempo passa, a corrupção continua. Quando escrevi meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) - ‘‘O Crime organizado inserido no contexto nacional’’ -, não imaginaria que surgiria no cenário nacional a palavra ‘‘mensalão’’. Podia ter sido inserida no texto, constituído numa análise sócio-jurídica sobre o crime organizado em razão da alta incidência e repercussões danosas para a sociedade como o tráfico e a exploração de crianças e adolescentes, crime do ‘‘colarinho branco’’, drogas, entre outros, e o que se tem feito para combatê-los, concluindo-se que sem corrupção não existiria o crime organizado.
  Na CPI dos Correios dava-se a impressão que muitos seriam punidos. Ao contrário, a nação vê atônita parlamentar dançando de alegria comemorando a impunidade. O pior é o chefe do Executivo que não viu, não ouviu e não falou nada, pois também é inocente. Que país é este? Como mudar um país em que o documentário ‘‘Falcão, meninos do Tráfico’’ denunciou a realidade de crianças pobres que aparecem brincando de traficantes, e outras já são de verdade?
  Esta realidade não é só das favelas do Rio e São Paulo, e sim de cada periferia brasileira onde tantas crianças também não têm perspectivas de um futuro melhor, e em vez de brincar, estudar, são assaltantes ou traficantes, pois não têm alternativas. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) representa a adoção das doutrinas mais avançadas na defesa dos direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes, o princípio de absoluta prioridade na atenção a estes direitos. É preciso que haja vontade dos governantes para tirar o ECA da prateleira e colocá-lo em prática.
  Combater o crime organizado é discurso do governo para camuflar a própria incapacidade política de reformas democráticas como problemas de emprego, habitação, educação, saúde. O Brasil, país com imensa desigualdade social, é considerado um mercado atraente para expansão do crime organizado. Deve-se dotar a juventude com ferramentas éticas e intelectuais apropriadas. Só a educação poderá trazer mudanças reais para combater a corrupção e o crime organizado. Só ela pode produzir mudanças nas atitudes e hábitos responsáveis pela inversão de valores ocorrida nos últimos tempos, pois para muitos o crime não é apenas cometido no âmbito das profissões, ganha status de profissão.
ELIANA DE OLIVEIRA TRINDADE é bacharel de Direito em Londrina


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup