ESPAÇO ABERTO
Universidade e democracia
Aguinaldo Pavão
Está em curso na UEL a campanha para a reitoria. Certamente esse seria o momento em que questões polêmicas como as cotas, o sistema de voto paritário a política educacional do MEC estivessem sendo vivamente discutidas. Contudo, não vi nenhuma manifestação clara dos candidatos sobre esses temas. Na edição especial do jornal ''Notícia'' da UEL nenhuma das cinco chapas se posiciona sobre isso.
Pois bem, sobre cotas, ao que parece, os candidatos preferem ou fazer uma defesa tímida das nobres intenções que a teriam inspirado, ou tergiversar. Não ouvi nenhum pronunciamento dos cinco candidatos a reitor sobre o valor do princípio republicano da igualdade jurídica e política entre os indivíduos. A meu ver, se somos favoráveis a esse princípio - e eu sou -, então temos de ser, por coerência, contra as cotas.
Sobre o voto paritário, ainda não sei se, na opinião dos cinco candidatos, eles procurariam, caso discordem, promover uma discussão em vista da mudança dessa regra que concede aos professores apenas 33% de peso na decisão sobre quem será o reitor da UEL (lembremos que na última eleição para reitor o desejo da maioria dos professores não era pela candidata que se sagrou vitoriosa). O que pensam os candidatos sobre a política educacional do MEC em geral e do programa ''Universidade para Todos''?
Uma discussão sobre democracia e universidade seria crucial para percebermos as premissas que sustentam as posições (muitas ainda na sombra) dos candidatos. A universidade deve ser democrática? O que significa isso? Significa não levar em conta o que a LDB estabelece, isto é, que ''os docentes ocuparão 70% dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes''? Ser a favor da democracia talvez seja justamente não discutir temas que possam ferir a suscetibilidade dos interesses de certos eleitores. Significará a democracia na universidade a defesa de cotas, haja vista a necessidade de promoção da inclusão social?
Gostaria de entender melhor a opinião que ouvi de um amigo de outra universidade segundo a qual tratar desses temas significaria ser um candidato que faz anticampanha, pois ele estaria entrando no jogo para perder. Será que nossa universidade, ao menos num momento de campanha como esse - que desperta o interesse até de pessoas politicamente apáticas como eu - não mereceria conhecer as opiniões dos candidatos? Falo em conhecer as opiniões que são publicamente defendidas, isto é, defendidas nos programas de campanha, nas entrevistas, nos debates, e não opiniões defendidas à sombra da massa de eleitores que poderia ficar melindrada com certas posições. Sinceramente, caso venha a tomar conhecimento de que algum candidato tenha se manifestado com clareza acerca dos pontos a que me refiro, poderei votar em uma das chapas. Do contrário, farei questão de votar nulo.
AGUINALDO PAVÃO é professor no departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina
O astronauta brasileiro
Nelio Roberto do Reis
No meu tempo, as crianças eram enganadas com histórias sobre ''Papai Noel'' e ''Coelhinho da Páscoa''. Mas não existia má-fé. Hoje se enganam crianças criando-se astronautas brasileiros. Da forma como foi feito, pagando-se 10 milhões de dólares (quase 24 milhões de reais), o astronauta poderia ter sido um paraguaio ou um nigeriano, pois seria a mesma coisa.
Não ligo muito pela ''carona'' do Marcos Pontes. O que me chateia é que esses 10 milhões de dólares poderiam ter sido usados no combate à malária que aflige milhares de pessoas no Amazonas; poderiam ser revertidos aos pesquisadores brasileiros que trabalham arduamente sem verbas, praticamente fazendo milagres e improvisando. Da mesma forma, poderiam ter se construído milhares de casas populares aos sem-teto ou ainda poderiam ser revertidos em alfabetização de adultos, cujo fato no Brasil tem característica de ''Terceiro Mundo''.
Mas preferiu-se investir em propaganda de um progresso oportunista de véspera de eleição. E o pior de tudo são os milhares de estudantes que foram violentados com esse engodo, e que talvez demorem muito tempo até voltarem à realidade. Esse negócio funcionou como ''ganhar uma falsa Copa do Mundo'', só que pagando. E o Brasil colhe esse louro falso da vitória.
É bom que se entenda que o Brasil ainda não tem condições de preparar um astronauta, ainda não tem condições de mandar ninguém para o espaço e a mídia está mostrando como se toda essa tecnologia fosse nossa. Enquanto os astronautas russo e americano trabalhavam sério, o brasileiro fazia sinal de ''positivo'', sorria como uma criança que ganha um doce, colocava o chapéu de Santos Dumont.
O que aconteceu com o nosso dinheiro de contribuinte, o imposto que pagamos arduamente, foi ''show de exposição rural'', não foi sério. Nenhum cientista sóbrio neste país gostou dessa carona.
Fernando Reinach, biólogo nacional, calculou que poderíamos formar com esse dinheiro 290 novos pesquisadores com doutorado. Mas preferiu-se mostrar uma imagem que não temos. A imagem da fraude, a imagem da Nasa que aqui não existe. Aqui existe, sim, a imagem de milhões de brasileiros vivendo à margem da pobreza passando fome e a gente, pagando 10 milhões de dólares para o Pontes ir passear no espaço.
Realmente não sei se Lula acredita em ''Coelhinho da Páscoa'' ou ''Papai Noel'', mas ele fez coisa pior. Disse que a bandeira na mão de Marcos Pontes fez com que ele se lembrasse de Ayrton Senna. Sacrilégio. Para ser sincero, meu filho já era capaz de plantar feijão aos 6 anos de idade no Colégio Marista.
NELIO ROBERTO DO REIS é doutor em Ciências pelo Inpa e professor na Universidade Estadual de Londrina





