ESPAÇO ABERTO
Colômbia, sem preconceitos
Devaldo Gilini Júnior
Recentemente voltei de uma viagem a trabalho pela Folha de Londrina por três cidades colombianas, a convite do Escritório Comercial da Colômbia em São Paulo (Proexport). Antes de viajar, ouvi muitos conselhos sobre terrorismo e cocaína e, logicamente, as piadinhas mais diversas. Muitos colegas de trabalho, amigos e parentes ficaram assustados quando mostrei o roteiro: Cartagena, San Andrés e Bogotá.
Sempre que falamos dos países vizinhos, temos algum preconceito. Pobreza, violência, atentados terroristas e drogas fazem parte da nossa imagem distorcida, principalmente, sobre Bolívia e Colômbia. Nossa mente é tomada pelos filmes norte-americanos, com os chefões dos cartéis mandando matar todo o mundo e os grupos guerrilheiros, principalmente as Forças Revolucionárias da Colômbia, as Farc, explodindo alvos nas cidades e seqüestrando pessoas.
Confesso que também não tinha uma opinião favorável sobre a Colômbia. Talvez fosse um dos últimos lugares que escolheria para visitar. Mas pela natureza do meu trabalho já sabia que o país vizinho não se reduzia somente às plantações de coca, ao tráfico da cocaína e às ações das Farc. Hoje em dia, com o avanço da comunicação (internet, canais a cabo), é mais fácil conseguir informações sobre tudo e sempre vale a pena aprender através destes veículos. Mas nada melhor do que viajar e verificar na prática aquilo que sabemos através dos outros, do computador e da televisão.
Nestes oito dias que passei em solo colombiano, acompanhado por outros quatro jornalistas (Cynthia Castro, do jornal O Tempo, de Belo Horizonte; Márcia Delgado, do Jornal Brasiliense, de Brasília, Marcos Santuario, Correio do Povo, de Porto Alegre; e Rodrigo Castro, Bom Dia, de São José do Rio Preto/SP) vi lugares maravilhosos, com grande peso histórico e cultural, belezas naturais e, o melhor de tudo, um povo hospitaleiro, educado e bastante receptivo, como nós brasileiros. E meus amigos de viagem voltaram com a mesma impressão.
Cartagena, banhada pelo Atlântico Norte, é uma belíssima cidade histórica, fazendo grande esforço para restaurar seus monumentos (e vem conseguindo); San Andrés, uma ilha no Mar do Caribe, tem consciência de preservação e é santuário mundial de biodiversidade marinha, ótimo local para mergulhos; Bogotá, a capital, é uma grande cidade, com infra-estrutura impecável. E o preço de tudo é muito mais acessível se compararmos com as grandes cidades do mundo e os tradicionais roteiros turísticos do Brasil.
Lógico que a Colômbia enfrenta problemas. Mas qual país em desenvolvimento não enfrenta? A violência urbana está em todos os lugares, não é privilégio de nenhum país. Mas todos têm muito mais a oferecer. Em Bogotá, saí à noite sozinho em uma das principais avenidas, simplesmente para andar e conversar com as pessoas, e voltei ao hotel são e salvo.
Já está na hora de conhecermos melhor nossos irmãos sul-americanos. A barreira da língua não pode se transformar em desculpa. Afinal, em nossas veias corre o mesmo sangue latino. Precisamos nos unir mais, porque a prepotência e o poderio dos Estados Unidos podem acabar com nossas culturas, nos transformando em cidadãos padronizados e pasteurizados, ao gosto dos norte-americanos. A América Latina, com suas diferenças, é muito mais bonita e vale a pena conhecê-la melhor.
DEVALDO GILINI JÚNIOR é editor da Folha de Londrina
A fé multiplicada
Marcos Antônio Lopes
A partir do século XVIII, tanto os escritores políticos como os homens de ação tencionaram promover a circunscrição das questões teológicas e da experiência religiosa a uma esfera específica, desvinculada das preocupações governamentais e das razões de Estado. Força irracional associada aos vícios mais abomináveis do gênero humano, a religião deveria ceder espaço à filosofia e à razão. Cada vez mais, ela seria uma questão de livre escolha e de crença individual.
Com argumentos distintos, Max Weber também asseverou que, no mundo contemporâneo, havia uma tendência de perda de influência social da religião. Para Weber, a modernidade se caracterizaria pela secularização de todas as esferas da vida social. O progresso da ciência e da técnica conduziria as pessoas a acreditar na ausência ou ineficácia da ação de forças misteriosas e sobrenaturais. A racionalidade científica e a ação instrumental da técnica, ao abarcarem todas as esferas da vida social, tornariam excepcionais os comportamentos ancorados na tradição e em emoções ou sentimentos místicos. A modernidade seria acompanhada pelo domínio do cálculo sobre todas as dimensões da vida social e por um desencantamento do mundo.
Em fins do século XX alguns sociólogos chegaram a formular a tese da secularização ampliada. Um desses sociólogos assinalou o declínio do envolvimento popular com as igrejas, a perda de abrangência e influência das instituições religiosas, assim como da popularidade das crenças religiosas. Ora, como compreender então que, segundo pesquisa realizada em 1995, tenham sido encontrados apenas 4,9% de eleitores brasileiros que admitiam não ter qualquer crença religiosa? Como explicar a pujança, no Japão atual, de um sincretismo que mistura fontes religiosas indianas, chinesas, coreanas e até mesmo cristãs? E as formas idiossincráticas e difusas de experiência com o sobrenatural que surgem nos cultos da Nova Era?
Esses fenômenos do final do século XX e deste início de milênio sugerem que está em curso um reencantamento do mundo. Em escala local, é o que demonstra o especial Multiplicação da Fé, publicado pela Folha de Londrina no último domingo. A reportagem da jornalista Fernanda Borges revela a singularidade do fenômeno: a crença medra com mais vigor entre os fiéis diante das adversidades e das crises. Creio que é aqui que mora o maior mistério da questão e o grau de complexidade do problema tende a situá-lo sempre alguns passos adiante das explicações sociológicas, tão ricas e inventivas quanto as seitas que pretendem explicar.
MARCOS ANTÔNIO LOPES é docente da Universidade Estadual de Londrina e co-autor de A peste das almas: histórias de fanatismo (Editora da Fundação Getúlio Vargas)
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