ESPAÇO ABERTO
Levanta-te, vem para o meio
Anésia Cavalcante Lopes
Somente agora, lendo essa frase que simboliza a campanha de integração do deficiente, lançada pela Arquidiocese de Londrina, é que senti traduzido tudo o que eu, avó, e meus familiares estávamos e estamos fazendo pela Susane Lopes Hasuda ao longo dos seus 17 anos de vida.
Ela é portadora de paralisia cerebral, não anda, não fala, não come sozinha e é dependente em todos os simples atos da vida, tais como ir ao banheiro, vestir-se, etc., mas aproveitou bem os pouquíssimos movimentos que lhe restaram na mão esquerda. Com muita dificuldade, mas bastante garra, consegue comunicar-se com o mundo à sua volta.
Cercada de amor, carinho e respeito conseguiu alfabetizar-se completou o ensino fundamental e está cursando o ensino médio, com planos de tentar o vestibular no ano que vem.
Não foi fácil a caminhada. Havia pedras no caminho, simbolizadas por preconceitos, desconhecimentos, desamor e piedade. Mas as pedras foram sendo retiradas uma a uma por uma pequena pessoa (Fabiana, a mãe de Susane), que mede 1,50 cm de altura, e por mais que eu tente imaginar ou fazer cálculos, ainda não consegui medir a altura de sua coragem, perseverança, dignidade e doação, porque quando penso ter chegado a uma medida, ela se supera, bate recorde e vai em frente.
E lendo esta frase senti a tradução de tudo o que a Fabiana, e nós os seus familiares, estamos tentando passar a Susane: Levanta-te, vem para o meio. Não é levantar-se e andar, pois isso só Deus poderia fazer. Nós só poderemos tentar passar para Susane, levanta-te moralmente, se encha de coragem e dignidade em seus movimentos descoordenados e não se acanhe em pedir ajuda aos outros.
Susane não está tentando chegar ao topo, só está tentando chegar ao meio. Rezemos para que Deus, em sua infinita sabedoria e bondade, nos permita ver os caminhos e assim, nós, sociedade/governo saibamos entender o pedido e a necessidade de um deficiente e, aí então, em conjunto, abriremos uma imensa clareira em nosso meio e colocaremos ali essas criaturinhas iluminadas.
Susane lançou recentemente o livro Jamais diga nunca.
ANÉSIA CAVALCANTE LOPES é secretária executiva aposentada em Londrina e avó de Susane Lopes Hasuda
Plano falcão de natalidade
Luciano Dias de Oliveira Reis
Assisti estarrecido a reportagem Falcão, os meninos do tráfico. Nela crianças ligadas ao tráfico prestam depoimentos inacreditáveis. Relatavam que a vida deles seria curta mas era com droga e alegria. Portavam arma de fogo durante a gravação e usavam vocabulário (im)próprio, cheio de vícios de linguagem. Órfãos de pai roubam pelas mães que contemplam a tudo indefesas. O Brasil tem milhões de crianças carentes, paupérrimas, desnutridas; adolescentes abandonados, trombadinhas e delinqüentes; adultos desempregados e presídios abarrotados de pessoas com poucas chances de recuperação.
A inimputabilidade dos adolescentes é a principal razão deles estarem à frente do tráfico, sendo explorados por adultos donos do comércio ilegal de armas e drogas. Acho que falcão nos indicou a direção que deveremos tomar. Onde estão os pais irresponsáveis? Eles deveriam ter sua capacidade procriativa cerceada pelo Estado. Sugiro, para diminuir a densidade de presos nas nossas abarrotadas penitenciárias, comutar 10% da pena dos presos em troca da vasectomia. Tenho certeza que os apenados aceitariam de imediato, sem pestanejar, esta possibilidade. Essa seria uma eficiente maneira de diminuir a paternidade irresponsável.
Mas isso não basta, teríamos que atacar na raiz o problema, deflagrando um programa nacional do controle da natalidade. Os pobres, cujos filhos são paridos sem controle, sem alimentação, educação e cuidados médicos adequados, tornam-se mais pobres e em maior número, fazem com que a distribuição de renda seja progressivamente mais distorcida e coloque o Brasil na mesma posição do Haiti. Se controlarmos eficientemente o crescimento populacional, as escolas, creches e hospitais hoje já existentes serão suficientes para albergar todas as crianças que nascerão nos próximos anos. Seria possível pagar melhor professores, assistentes sociais e médicos, todos sobrecarregados e injustamente crucificados pela imprensa. Emergencialmente as crianças abandonadas devem paliativamente receber atendimento especial, tutelado pelo governo e supervisionado pela sociedade organizada, igreja, ONGs e clubes de serviço.
O Ministério da Saúde, o Colégio Brasileiro de Cirurgiões e a Federação da Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, poderiam criar um eficiente programa de controle de natalidade. Neste programa haveria orientação familiar, com ajuda de assistentes sociais e psicólogas treinadas para triar os que são elegíveis para controle de natalidade (temporário ou definitivo). Poder-se-ia até pensar em dotar as famílias paupérrimas com um salário para que as mesmas fossem ajudadas nesse período pós-operatório em que não pudessem trabalhar. Por incrível que pareça economizaríamos, pois o custo a curto prazo com parto ou cesariana é grande, a médio prazo com pediatras, creches, escolas é maior ainda e a longo prazo com delinqüentes, ladrões, trombadinhas é incomensurável. Além disso, abortos clandestinos seriam evitados.
Sugiro criar o Plano Falcão de controle de natalidade, em homenagem aos meninos do MV Bill e ao falcão, ave linda, de grande eficiência e de visão acuradíssima que contrasta com a ineficiência e pouca visão dos nossos dirigentes.
LUCIANO DIAS DE OLIVEIRA REIS é médico em Santo Antônio da Platina e membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões
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