ESPAÇO ABERTO
Banalização do ensino universitário
Sidney Girotto
Vemos hoje no Brasil que todos nossos jovens sonham em freqüentar uma faculdade. E é por isso que se propagam escolas de cursos superiores em todos os cantos. Vejam em Londrina quantas existem. E nas cidades vizinhas, todas têm as suas faculdades. Em sua maioria verdadeiras arapucas para tomar dinheiro de jovens que muitas vezes passam por privações no seu dia-a-dia para pagar as ditas faculdades.
Ah, agora já não basta ter um diploma de
faculdade, e sim uma pós-graduação, que por sinal está tão banalizada, pois tem pós para tudo ou quase tudo. Digo quase tudo pois ainda não vi a tal de pós para envernizar asas de baratas, para tratamento de hemorróidas, para ser mensaleiro ou corrupto. Mas acredito que não vai demorar muito.
Mas o que se espera de um país em que no currículo do curso fundamental obriga o aluno
aprender inglês e que até hoje não vi ninguém sair do segundo grau falando o tal idioma. Por que insistir? Por que passar anos e anos ensinando nossas crianças a falar this is a book, this is a pencil e nada mais. E à noite, na frente da televisão, assistindo um filme em inglês, logicamente legendado, a mãe infelizmente analfabeta, pergunta ao filho se ele está entendo o ingreis e o menino constrangido responde: Mais ou menos, mãe.
Ora, com tantos doutores formados, vemos crianças morrendo de verminoses; com tantos dentistas, somos campeões em cáries; com tantos professores temos altos índices de analfabetismo e por aí afora. Agora quem se meteu a construir uma casa teve que contratar um pedreiro, carpinteiro, eletricista, encanador, pintor, etc, e não teve dissabores? E por quê? É porque não temos cursos técnicos. Com quem esses profissionais aprenderam? O pedreiro com Cidão do Barro, o pintor com o Chico Lambuzado, o encanador com o Zé do Mico (aquele da propaganda), o eletricista com o Mané do Choque e por aí em diante.
Por que não ter mais escolas técnicas para formação profissional? Veja o presidente Lula. Perdeu um dedo no pouco tempo em que trabalhou. Os fofoqueiros de plantão dizem que foi para receber o
seguro, outros para ficar encostado no INSS. Mas acredito que foi porque ele não fez um curso técnico, não teve informações sobre segurança no trabalho. Quando ele chegou do Nordeste, precisava de trabalho, colocaram na máquina e deu no que deu.
SIDNEY GIROTTO é médico em Londrina
Associação Médica e eventos culturais
Lucinea Aparecida de Rezende
Há alguns anos sou freqüentadora assídua das sessões de cinema na Associação Médica. Música e, neste segmento, a ópera, tenho visto menos, por falta de tempo. Sei, no entanto, de gente que não perde essas sessões. Ainda que muitas pessoas tenham estado presentes a esses eventos, a cada início de ano é sempre uma ladainha: continuarão ou não? A despeito das inquietações, atribuídas às parcerias que aconteciam com a Prefeitura de Londrina até passado recente, as apresentações têm tido continuidade. Agora, 2006, a preocupação nossa - participantes assíduos - está ampliada. Já estamos em abril e nada nem ninguém nos assegura que terá continuidade o programa cultural nos moldes do que está assegurado junto à comunidade londrinense.
Um dos argumentos que ouvi tinha como justificativa a situação financeira; outro que se trata de cultura para pessoas não-necessitadas. No que se refere à questão financeira, se é que ela existe, sugerimos parcerias: com a prefeitura, com empresas, com a população. No tocante a quem precisa de eventos culturais vou procurar sintetizar, mas penso que há muito a dizer. Enumero alguns dos pensamentos que me vêm.
A importância da cultura. As leituras múltiplas e a relação com a nossa formação continuada. A lembrança de que as escolas/universidades formam academicamente, mas não têm se voltado para a formação ampla do ser humano. A idéia de que só no exercício sociocultural podemos melhorar nossas formas de convivência com o outro. Ao lermos/vermos/ouvirmos um filme, uma peça de teatro, uma apresentação musical, nos vemos e vemos ao outro; isso pode nos ajudar em nossos desempenhos sociais ao longo da vida. A cada cidadão/cidadã, que ao participar dos eventos culturais, melhora seu entendimento de si mesmo e do mundo, há o repercutir disso em seu meio familiar, de amigos, de trabalho. Portanto, não há população não-necessitada de eventos culturais. Temos fome de teatro, de cinema, de música, de saber, como temos de comida, de goiabada, de sorvete. O mundo não melhora sua condição social a não ser que essas necessidades todas estejam sendo supridas.
Uma associação médica que se ocupa do crescimento cultural das pessoas junto à qual atua demonstra que tem presente a promoção da saúde. Seres humanos saudáveis que aprendem sempre a lidar melhor com a vida continuamente. A lista, por certo, pode ser ampliada, mas acredito que já temos pontos a ponderar. Inclusive, o fato de que aquilo que já está assumido pela comunidade merece cuidados e atenção. Alguém, lá atrás, no tempo, pensou, por certo, muitas dessas questões - talvez todas e outras mais - e nos deu de presente a programação que tanto nos tem atraído e enriquecido. Nós, agora, nos juntamos àquelas idéias para que elas continuem, já lhes descobrimos o sabor e o valor! Precisamos mantê-las por nós mesmos e por outros que virão.
LUCINEA APARECIDA DE REZENDE é professora na Universidade Estadual de Londrina e organizadora e apresentadora da Coluna Ler para ser da Rádio Universidade
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