Reféns ou cidadãos, qual a nossa escolha?

Raul Fulgêncio
  Reação, essa é a palavra de ordem. Reação legítima, cidadã e organizada, com ações práticas e de resultados visíveis. Chega, não dá mais para esperar as decisões do governador e projetos que só ficam no discurso enquanto nossas as casas são invadidas, nossos filhos são assaltados e os bens que conseguimos às custas de muito trabalho são violentamente subtraídos.
  Todos os dias, fechamos os jornais aterrorizados e damos graças a Deus que nós fomos nós as vítimas do dia. Insisto, chega de esperar uma solução que nunca vem! Vamos nos unir numa grande mobilização e interferir de forma consistente e contundente na estrutura e no sistema de segurança em Londrina. As causas da violência, essas todos conhecemos. As polícias têm feito até mais do que podem, diante da calamitosa situação em que se encontram em termos de valorização profissional e estrutura operacional.
  O que Londrina precisa agora é de uma ação pontual da sociedade, que tenha força e abrangência para recolocar a segurança em Londrina dentro do mínimo aceitável.
  O combate à criminalidade é algo que cabe inteiramente à polícia e este é o ponto em que deve se sustentar esta tomada de posição - vamos nos cotizar para dar à polícia plenas condições de trabalho. Uma reação equilibrada e racional, que integre empresários, veículos de comunicação, instituições sérias e as próprias autoridades num programa amparado pelos tópicos a seguir.
  1- Fazer um rápido levantamento dos recursos necessários para atualizar a estrutura de comunicação das polícias e para colocar mais homens e viaturas nas ruas; 2- Buscar junto à OAB o amparo legal para a criação deste Fundo Privado de Investimento na Segurança de Londrina. Estou certo de que os empresários e homens de bem vão responder a este chamado, mesmo pagando impostos absurdos que deveriam ser usados na segurança; 3- Realizar uma grande campanha de orientação, informação e conscientização para que cada cidadão não espere, mas seja ativo e participativo nesta questão; 4- Cobrar insistentemente do governador e do secretário de Segurança soluções - e não promessas - para dar fim a essa situação insustentável.
  Pagamos para ter guardas nas ruas, pela segurança móvel à noite, cercas elétricas, câmeras e outros aparatos que não resolvem mais. Não nos resta outro caminho a não ser pagar também pela segurança que deveria ser de integral responsabilidade das autoridades estaduais. Conclamo Londrina a reagir diante deste quadro absurdo de violência em que vivemos. Conclamo o cidadão de bem a se manifestar e a participar deste movimento de resgate da nossa cidadania. Conclamo você a se fazer ouvir para que o eco de nossas vozes seja capaz de acabar com o marasmo das nossas autoridades.
RAUL FULGÊNCIO é empresário em Londrina


O último vôo do Falcão

Arnildo Linck Júnior
  ‘‘Falcão, meninos do tráfico’’, documentário idealizado pelo rapper MV Bill e exibido pela Rede Globo no último domingo, bem que poderia ser classificado como ficção ou drama, não fosse por sua linguagem jornalística e diálogos realistas, uma vez que, para nós, privilegiados do outro lado do monitor, custa acreditar que aquelas histórias narradas por crianças e adolescentes sejam verdadeiras. Afinal, todos somos conscientes que tais fatos ocorrem em nosso território, mas, até por uma questão de defesa pessoal ou fuga, sempre ocultamos nossos olhares para a verdade.
  O rapper MV Bill nos entrega um tesouro cinematográfico, com suas imagens ácidas e diálogos cruéis. Um documentário capaz de disputar e certamente conquistar prêmios em circuitos e festivais nacionais e internacionais. E mais uma vez, assim como já acontecera na obra-prima de Fernando Meirelles, ‘‘Cidade de Deus’’, vimos nossa pátria ser dissecada e ‘‘desconstruída’’ em suas mazelas sociais. Através dos olhos e lentes do cantor MV Bill fomos lançados num círculo de verdades onde crianças de três anos reconhecem o cheiro da maconha e onde meninos de 14 anos são fuzilados sem piedade.
  Tivemos a chance de visitar o cotidiano de uma sociedade marginalizada, onde eleições, Copa do Mundo e CPI são expressões sem significado. Onde, segundo as palavras de uma criança, ‘‘impera a lei do cão’’. Onde brinquedos, computadores e videogames são substituídos por armas dos mais diversos calibres. Onde papelotes de entorpecentes são manuseados com uma precisão quase cirúrgica. Onde um adolescente de 17 anos sonha em conhecer um circo enquanto brinca com seu fuzil. Enfim, onde crianças e adolescentes vivem um carpe diem às avessas, no qual cada dia sobrevivido representa uma batalha conquistada dentro de uma guerra nunca vencida.
  Ainda é cedo para saber a dimensão deste documentário. Pode ser esquecido ao longo do tempo ou, na melhor das hipóteses, ser alçado à condição de obra-prima documental, mas é certo que ele vem confirmar que algumas imagens realmente valem mais do que milhares de palavras contidas no último relatório de CPI. E que aqueles pequenos malabaristas de semáforo não são apenas moleques atrás de trocados, mas o produto de uma sociedade construída sobre desigualdades e injustiças, onde julgar é mais fácil do que mudar.
ARNILDO LINCK JÚNIOR é médico pediatra em Londrina


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