ESPAÇO ABERTO
Sobre homens e bois
Marcos Afonso Posso
As fotos sobre a matança do gado paranaense publicadas neste Jornal dias atrás além de chocarem por si mesmas chocam pela mensagem que nos transmitem. O boi, no derradeiro momento, frente ao seu algoz, nos disse mais do que poderíamos imaginar. Ali está a síntese de nossa condição como povo nos tempos atuais. Ali estão a população, o Estado, os fatores que destróem nossa nação.
Explico: o boi somos nós. O pasmo, a incompreensão ante o óbvio, a falta de percepção e atitude em relação ao que nos cerca é a característica de nossa sociedade. Parados, com olhar quase que indiferente em relação ao que vai nos atingir. A credulidade é tamanha, que em algumas situações, como os animais, nos oferecemos ingenuamente à degola. Queremos acreditar que desta vez vai ser diferente. A honestidade, a ética, os valores, a pátria será mais importante para aqueles que escolhemos para nos representar. Tal qual o pobre animal, tentamos acreditar no inacreditável, e recebemos uma bala na testa.
Os outros animais, que, segundo a reportagem tentavam se proteger, escondendo a cabeça ao ver o companheiro tombar nos retratam muito bem. É assim que agimos na maioria das vezes, na esperança vã, de não sermos atingidos pelo mal. Talvez, quem sabe, o meu silêncio, o meu descaso me proteja. Já sabemos que nossa passividade não é suficiente para nos garantir proteção, mas continuamos, como o gado, a agir dessa maneira.
O atirador, sem dúvida é o Estado. Posicionado acima de nós, numa condição segura e confortável, agindo de forma cruel e indiscriminada diante da falta de reação. Não nos protege mais. Nos acua. Não nos direciona, nos confunde. Não nos respeita, nos avilta. Não ouve os clamores da população, porque, observem na foto, usa um protetor de ouvidos. Permite e lança mão de armas terríveis para atingir a população, pobre, rica, negra ou branca, sem distinções.
As armas são a corrupção, a bandalheira, as negociatas, a falta de patriotismo, a impunidade, o egoísmo, a ânsia por poder. Ele está lá, sentado, escolhendo, protegido, apontando para o admirável gado novo da velha música. É inatingível, pois cria cercas cada vez mais altas, que o mantém cada dia mais a salvo de nós... o povo.
E nós, impassíveis, encarando estas formas terríveis de morrer (ou de viver), achando até que há uma certa dignidade neste tipo de comportamento. Mas não há. O que há é o comodismo, a incredulidade em relação ao ponto em que chegamos. Pobres dos bois. Pobres de nós.
MARCOS AFONSO POSSO é médico em Londrina
Fundo de ajuda aos vereadores carentes
Reinaldo Mathias Ferreira
Quando a Saúde Pública no Brasil estava em vias de ir para a UTI, o ex-ministro Adib Jatene propôs a criação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) de 0,38% sobre praticamente todas as movimentações financeiras, equivalente à metade do que rende num mês uma Caderneta de Poupança. O resultado foi a súbita melhora do sistema de saúde pública. Como a Justiça também andase com os bolsos vazios, criou-se o Funrejus (Fundo de Reequipamento do Poder Judiciário) de 0,2% que incide mos diversos procedimentos judiciais. Se a Justiça não ficou mais rápida, ao menos ficou mais bem equipada. Para melhorar o desempenho dos bombeiros, existe o Funrebom (Fundo de Reequipamento do Corpo de Bombeiros).
Então, cada vez que o sapato aperta o calo é hora de criar um instrumento capaz de resolver ou minimizar o problema, e um Fundo é uma boa pedida. Por isso, elaborei este projeto de lei:
Considerando: 1- que o número de vereadores em Londrina diminuiu, causando sobrecarga de trabalho aos atuais dezoito; 2- a afirmação do presidente da Câmara, especialista em proteína animal, de que tem vereador aqui que não consegue nem levar alimentação para dentro de casa (Folha de 10/3, p. 7); 3- que cada vereador só pode gastar até R$ 300,00 com telefone de gabinete, R$ 300,00 com correio e mil cópias por mês (Folha de 10/3/, p. 7); 4- que celulares de outras operadoras são melhores que os propostos pela Sercomtel para que cada cidadão fale com seu vereador predileto, como afirmou Henrique Barros (Folha de 10/3, p. 7); 5- que a afirmação de que os gastos com telefones celulares irão se reverter em atendimento à população (Orlando Bonilha, Folha de 8/3, p. 4); 6- que vereador de Londrina não tem um carro para cada um, nem recebe gasolina (Orlando Bonilha, Folha de 8/3, p. 4); 7- que já existem no país outros Fundos para bem atender à população;
Proponho que seja discutido e (queria Deus!) aprovado pela egrégia Câmara de Vereadores de Londrina o seguinte projeto: Artigo 1º: fica criado o Fundo de Ajuda aos Vereadores Carentes (Funaverca) com o objetivo de atender às necessidades mais prementes de cada um. Art. 2º: o Funaverca corresponde a 0,38% dos valores arrecadados da população com taxas e impostos, que passarão a ser reajustados nesse porcentual. Art. 3º: o montante arrecadado pelo Funaverca será administrado pelo Presidente da Câmara. Art. 4º: Somente os vereadores que comprovarem a necessidade de ajuda financeira para outros gastos podem usufruir desse Fundo. Parágrafo único: a divisão do Funaverca será proporcional a cada necessidade, sendo atendidos antes os que estiverem mais necessitados. Art. 5º: o Funaverca será extinto no fim da atual Legislatura, a menos que os mesmos carentes sejam reeleitos.
REINALDO MATHIAS FERREIRA é professor e escritor em Londrina
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