A verdade dos fatos

Maria das Graças Ferreira
  Causou-me surpresa o teor da artigo publicado sexta-feira pela Folha de Londrina e assinado pelo estudante Renato Forin Júnior sob o titulo ‘‘Rainha da Sucata’’. E mais surpresa ainda fiquei quando percebi que o texto se referia ao curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina.
  Quando assumi a direção do CECA uma da metas a que me dispus, foi colocar à disposição dos cursos todo o investimento possível para a melhoria da qualidade do ensino. Nesse sentido, busquei informações junto aos departamentos e colegiados sobre as necessidades de cada um. Ao mesmo tempo iniciei o trabalho de verificar o caminho mais indicado para que pudesse cumprir o objetivo de colocar os recursos necessários para equipamentos, espaço físico e consumo. Naquele momento, todos os cursos do CECA necessitavam de grandes investimentos, já que começava o processo de avaliação do MEC, o que explicitou a sua efetiva condição.
  Quanto ao curso de Jornalismo lembro-me de que naquele ano, os alunos do quarto ano não puderam terminar a parte prática do TCC porque dispunham de um videocassete que funcionava com a tampa traseira aberta e os alunos, a cada parada, limpavam o cabeçote do mesmo para que ele voltasse a funcionar. Nesses quase quatro anos o que foi feito pelo curso de Jornalismo deixa claro que, daquele videocassete, resta apenas uma lembrança ruim. Até hoje já foi destinado ao curso de Jornalismo um valor aproximado de R$ 80 mil em equipamentos além de R$ 47.580,85 em recursos de custeio nos anos de 2003, 2004 e 2005. Vale salientar que esse valor é muito maior do que o curso recebeu nos 15 anos anteriores.
  Tenho consciência de que ainda falta muito para sanar as necessidades deste curso, como de outros também, mas tenho absoluta convicção de que nem o curso de Jornalismo como qualquer dos outros cursos do CECA foi esquecido pela administração de modo a merecer a denominação de ‘‘sucata’’. Atitudes como a tomada pelo autor do artigo a que me referi no início não constrói nada, ao contrário, destrói o que foi construído em tão pouco tempo.
  Há que se ter bom senso e operar com verdade em qualquer circunstância, não a verdade de cada um em particular, mas a verdade dos fatos tal como eles se dão. O que foi feito até hoje para o curso de Jornalismo pode não ter sido tudo, porém, tenho certeza de que também não foi nada.
MARIA DAS GRAÇAS FERREIRA é diretora do Centro de Educação, Comunicação e Artes da Universidade Estadual de Londrina
Nota de Redação: O texto da professora Maria das Graças Ferreira já havia sido publicado na sua essência na seção de cartas. A pedido da UEL, o texto está sendo publicado na sua íntegra.



Aquém do que se vê

Amanda Mont’Alvão Veloso Rabelo
  Ouvi dizer que criticar é destruir. Peço licença para discordar. Como participante ativa de um protesto que mobilizou o curso de Comunicação Social da UEL na busca por um mínimo de dignidade no exercício das tarefas práticas disciplinares, reitero aqui a situação de sucateamento em que se encontra o meu curso. Foram exatamente uma semana e um dia em que a prostração cedeu lugar ao inconformismo e à reivindicação. Se antes sempre fôramos aqueles por detrás das prensas, durante 8 dias pedimos declaradamente que a sociedade olhasse para nós.
  Assim como muitos dos meus colegas, assisti a pai e mãe reverem o orçamento doméstico para acomodar uma câmera fotográfica e um computador. Contabilizamos os gastos do ensino gratuito como quem procura a interpretação otimista: isso não deixa de ser um investimento. Recusei-me a aceitar que o investimento estava ali, dentro de nossas salas de aula.
  Poderia estender-me em números para justificar a minha recusa. Cifras impressionáveis, tão eloqüentes quanto avanços destacados em campanhas eleitorais. Coisas de um país habituado a prestar suas contas. E números não me renderam satisfação alguma: eles se chocam com uma simples circulada por nossos laboratórios e salas de aula. Passam os anos e ficam as lembranças das operações matemáticas que realizávamos semanalmente: era grande o nosso esmero para fazer análises combinatórias envolvendo 4 câmeras, 2 iluminadores, 2 microfones e 1 famigerado microfone de lapela que insistia em não funcionar. Nessa conta ainda deveríamos incluir 40 alunos de Jornalismo Matutino e mais 40 do Noturno.
  Caso alguém houvesse perdido o gostinho de ter uma aula de programação visual utilizando papel sulfite e régua, o ano de 2006 acena com déjà vu: aulas de jornalismo on-line sem computadores. Mas aqui é o Brasil, e para tudo se dá um jeito. Mais uma vez a educação se torna um caso emergencial, cujos únicos salvadores costuram as demais obrigações de suas vidas pessoais com o pouco que sobrou de suas injustas folhas de pagamento.
  E assim são formados os profissionais de um Brasil que apregoa a ética e a autocrítica como premissas para a evolução do País. Mas, infelizmente, estamos todos muito ocupados com o nosso nostálgico sonho revivido pela minissérie global. Quando chegar o intervalo, talvez então pensemos em trilhar o espetáculo de nosso crescimento.
AMANDA MONT‘ALVÃO VELOSO RABELO é estudante do 4º ano de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina


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