A trans(im)posição do São Francisco

Reginaldo José da Silva

Se o governo quer mesmo que a transposição do rio São Francisco seja fator de acesso equitativo à água, deve ouvir o Ministério do Meio Ambiente, universidades, Ibama, Ongs e, também, os ''especialistas analfabetos'', pois, como diz o clichê: ''Muita gente diz nós vamos mas não sabe sequer aonde ir, enquanto outros dizem nóis vais, mas sabem exatamente o que querem''. Ouvir e incluir a população local (como faz o bem sucedido Projeto Tamar) é um gesto de maturidade e com o qual muito se pode contribuir para a discussão do projeto.

Mas entre milhões de vozes o governo só se preocupou com uma delas. Ouviu o (silêncio do) bispo. E não foi por fé, mas pelo temor de que a morte do padre (pela greve de fome) gerasse um mártir. Mesmo sem este, a rejeição ao projeto tem aumentado. Recentemente o Ibope divulgou uma estimativa da opinião pública em que, na média geral, a obra venceria por 46% a 43% apenas. Fato é que, entre a opinião pública e a que se publica há uma distância muito grande. A população é privada de informações, seja pela quantidade ou pela qualidade destas.

O projeto, semelhante ao de 1984 e também ao que FHC propôs em 1995 em sua campanha presidencial, agora preocupa por ser uma obra do governo federal sem a participação dos habitantes da bacia, e uma série de outros desrespeitos à Lei de Recursos Hídricos. Praticamente uma imposição, que o faz, cada vez mais se parecer com um simples projeto de irrigação, que retiraria água de uma região tão seca quanto a de destino.

Além da seca, diversos são os conflitos com a água na região. O rio sofre, da nascente à foz, em 2.700 km, ao percorrer sete unidades da federação e abrigar nove UHE. Da operação de Sobradinho, no submédio do rio, dependem todos os usos a jusante desta represa. A operação da CHESF teria sua capacidade de produção impedida em 2,4 MW para cada m3 retirado nesse trecho. O projeto quer retirar 70m3/s e, no futuro para se chegar a 280m3/s seria necessário retirar 300m3/s da bacia do Tocantins para esta.

Passar a idéia de resolução definitiva dos problemas da seca no Nordeste com esse projeto é um grave erro (intencional?!) do governo em busca da reeleição. Em relação à água, o problema nordestino é mais uma questão de (falta de) uso racional que de quantidade de água propriamente. Dificuldades nos projetos atuais devem-se principalmente à má administração dos recursos, atraso na liberação de verbas, deficiências dos órgãos executores: é a insecável indústria da seca. Tomadas todas as precauções, a transposição, já é um projeto muitíssimo polêmico. Desenvolvido como mero projeto de irrigação tende a agravar os inúmeros problemas ambientais que ocorrem na bacia. Lixo, poluição, contaminações diversas, desflorestamento, extinção acelerada de espécies. Como novidade, o surgimento, nesta região, de uma espécie exótica da fauna brasileira - um elefante -, mas muito comum nas administrações políticas do país: um ''elefante branco'', agora (na sujeira artificial) do São Francisco.

REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo e pós-graduado em Análise Ambiental pela Universidade Estadual de Londrina




O que fazer na hora do aperto

Abraham Shapiro

Definitivamente é preciso que se saiba: não há vida sem crise. O dicionário define crise como ''estado de súbito desequilíbrio, incerteza, vacilação ou declínio''. Todo ser humano tem o ímpeto de achar que crise é uma perturbação dispensável e injusta. Poucos se permitem convencer de que ela é importante. Estes colhem frutos verdadeiros e outros benefícios.

Devemos ter em mente que sempre há duas únicas alternativas que subsistem quando uma crise nos atinge: mudar a situação - o que nem sempre é possível - ou mudar o modo de pensar sobre ela - o que é relativamente fácil por que só depende de nós mesmos.

Em dias normais, quando tudo nos parece bem, colocamos para fora uma fração insignificante daquilo que verdadeiramente somos. Chegam as turbulências, e salientam-se nossas reais qualidades. Quem somos nós? Só uma crise revela. E então, quanto melhor fundamentado estiver o indivíduo sobre princípios e valores, maior aprendizado e crescimento irá absorver. Este é o efeito edificante da crise.

É lamentável que as pessoas se perturbem e às vezes até se percam pensando que as crises são destrutivas. Está errado. Há um provérbio que ensina: ''Se somos lapidados ou moídos pelos problemas da vida depende apenas do material de que somos feitos!''

Imagine esta situação: você ouve o vozerio desesperado de um bebê chorando numa casa. Chega a pensar que a pobre criancinha está sendo surrada. Ao aproximar-se, depara-se com a cena de um menino no colo da mãe. Ela tenta dar-lhe uma colher de remédio que o garoto detesta. É amargo. Seu protesto é vigoroso. A mãe, por sua vez, só deseja a cura do filho.

A julgar somente pelo que se ouve, dificilmente a realidade seria conhecida de fato. Após examinar bem, a conclusão oassa a ser diferente. O que antes parecia mal, tornou-se um bem tão logo conhecido por completo.

Toda crise tem exatamente este perfil. Superficialmente parece uma desgraça. Ao conhecê-la mais a fundo, descobre-se o bem que nela se esconde. A crise existe para o nosso bem e crescimento.

As pessoas erram quando se autodestróem, se depreciam ou se flagelam por causa de suas crises. Este momento requer confiança. Se falta, a luta precisa se concentrar no resgate dos mais altos índices de confiança e força. E então, ao invés do pior, começamos a conhecer os benefícios educativos da crise. À beira de um precipício, só há um modo de andar para frente: dando um passo para trás!

ABRAHAM SHAPIRO é consultor de Liderança Empresarial em Londrina

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