O império do consumo

Cezar Bueno
  Hoje, homens e mulheres, ainda com medo e sensação de perda de valores e padrões morais do passado, preferem vencer as incertezas seduzidos pela busca incessante de novas experiências e aventuras que, preferencialmente, não fixam compromissos e deixam as opções abertas. Para isso, contam com o apoio do mercado inteiramente organizado em torno da procura do consumidor e interessado em manter essa procura, permanentemente insatisfeita e intensa, de novas experiências.
  O mundo globalizado em curso valoriza estilos e padrões de vida livremente concorrentes, o amor e o respeito às diferenças. Promete abarcar todo aquele que se mostre capaz de ser seduzido pela incalculável possibilidade e constante renovação do mercado consumidor, de vestir e despir identidades e percorrer a vida na caça interminável de fortes sensações e novas experiências. O que acontece com aqueles que, por diversas razões, não conseguem passar nessa prova?
  Convertem-se em indivíduos-problema e em consumidores falhos que inundam as praças e as periferias urbanas. Pessoas incapazes de responder aos atrativos do mercado, e, portanto, de serem livres um vez que o senso de liberdade é definido em função do poder de escolha do consumidor. Essa gente, que cai rotineiramente na vala comum das pessoas que não se ajustam ao mercado de consumo, exige a criação de uma rede de serviços estatais para separar e eliminar o refugo do consumo.
  Uma das conseqüências humanas desse processo é o aumento do discurso da lei e ordem para manter sob suspeita aqueles que a liberdade de consumo privou de habilidades e poderes de consumidor. De agora em diante a lógica das políticas sociais do Estado deve obedecer às duras exigências das regras do mercado: os consumidores fracassados devem ser tratados conforme a lei do menor custo. Em geral, recomenda-se o fim de políticas sociais que visam, por meio do emprego e formas de auxílio previdenciário, restabelecer o status de consumidores. A preferência política agora parece ser outra: criminalizar, excluir e encarcerar.
  Na era do capitalismo globalizado o Estado, comandando por políticos de direita, de centro e por setores da esquerda, opta-se por incriminar os problemas socialmente produzidos e diminuir toda interferência coletiva no destino das ações individuais. Países como o Brasil, acuados por uma série de exigências privatistas e desregulamentadoras promete realizar, por meio da mão invisível do mercado, os desejos de consumidores insaciáveis desde que tenham habilidade e condições para isso. O Estado já admite a impossibilidade de cumprir a promessa de resgatar os consumidores fracassados e seus políticos parecem caminhar nessa direção. Estes, diante da escalada dos riscos e da insegurança, propõem aumentar a cobrança de impostos, solicitam aos eleitores que sejam mais flexíveis e pedem a eles que busquem saídas individuais para os problemas socialmente produzidos.
CEZAR BUENO é professor de Sociologia na Unifil e na PUC-Londrina


As duas faces de Eva

Moacir Costa
  A mulher conquistou o seu espaço. Mora sozinha, decide a sua condição civil, firma-se no mercado de trabalho e já questiona se a dobradinha casamento e filhos são a melhor opção.
  Postura é muito diferente da mulher de 30, 40 anos atrás. Naquela época, ser solteira, por exemplo, era uma condição muito penosa. Estavam condenadas a ser dependentes do homem, porque o mercado de trabalho não oferecia emprego. Essas mulheres também tinham uma vida destituída de sensualidade e erotismo. Eram pressionadas a resguardar a virgindade até o casamento. Muitas vezes, esta espera era longa e as chances de encontrar um marido se tornavam remotas. Quando acontecia, elas comemoravam como se tivessem ganho um prêmio. Em geral, toda a energia feminina era usada na capacidade de sedução, porque afinal a solteira não tinha valor nem identidade.
  Graças às conquistas que ocorreram nos últimos 30 anos, as mulheres começaram a desafiar o tabu da virgindade, iniciaram sua trajetória profissional e adquiriram atitudes mais firmes em relação aos seus direitos, que inclui até o prazer sexual.
  Mas algumas mulheres ainda têm expectativas irreais sobre a vida a dois. Imaginam-se vivendo uma eterna lua-de-mel ao lado do príncipe encantado que sempre buscaram e não conseguem enxergar o homem comum. Alimentam a idéia do parceiro rico, bonito, inteligente, charmoso e bem-sucedido.
  Na verdade, essa figura não existe e não passa de um resquício do imperialismo machista do passado alimentado por inseguranças adquiridas ainda na infância. A mulher tem de fazer um esforço para se livrar do seu próprio preconceito e valorizar aquele homem que luta ao seu lado, um companheiro de bom caráter, inteligente, que tem seus problemas, carências e dificuldades, mas disposto a fazer boa parceria e vencer juntos os desafios. É dessa maneira que ela vai atingir um grau de amadurecimento e conseguir fazer escolhas mais sensatas, para poder crescer como parceira e cidadã.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta e mantém um serviço gratuito de esclarecimento sobre sexo pelo 0800-770-6543. Site: www.projetoamarbem.com.br


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