ESPAÇO ABERTO
No meio do caminho havia uma pedra
Renata Maciulis Dip
A Lei Orgânica de Saúde traz à tona o enfoque mais correto e completo que deve ser dado às tentativas de melhorias na saúde para que essas possam ser eficazes: A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais: os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do país (artigo 2º , º 3º da Lei 8.080, de 19/09/1990).
A concepção biologicista da saúde já está ultrapassada. No entanto, permanece na mentalidade de muitos, quando tentam melhorar a saúde de nosso país medicalizando as soluções. A grande virada na situação atual acontecerá gradualmente, com a conscientização dos profissionais, para que esses mudem seu modo de atuar e se disponham a enfrentar a grande batalha de mudar a mentalidade da população, que não valoriza suficientemente a prevenção, e cada vez mais reivindica exames e remédios como a solução universal.
As políticas de saúde que enfatizam a importância da prevenção e do PSF (programa de saúde da família) como meios mais econômicos e eficazes para a promoção da saúde são importantes, mas não podemos esquecer que continua havendo urgências e, às vezes, são necessários recursos de tecnologia mais avançada para resolver o problema de um indivíduo em particular. O PSF isolado não é, em sua configuração atual, suficiente para os problemas da população. De tal modo que faz-se necessário encontrar o ponto de equilíbrio entre um modelo excessivamente voltado para procedimentos médicos e outro que não disponibiliza os recursos médicos e tecnológicos necessários.
Não mudamos o país de uma vez, mas dividir para vencer é um lema antigo que, interpretado noutro sentido, pode apontar o caminho a seguir: não mudamos todas as escolas, todos o hospitais e unidades básicas de saúde de uma só vez. Mas podemos propor projetos pilotos para novos modelos de funcionamento em pequenos territórios: uma escola, um bairro... (Londrina é um exemplo disso, pois em comparação com outras cidades do mesmo porte, aqui temos um PSF relativamente eficaz). Claro que para tanto, são necessários recursos financeiros e há entraves para otimizá-los.
O percurso até a meta é longo, e há várias pedras no caminho e no sapato. É necessário que o maior número possível de pessoas esteja consciente da situação, disponha-se a cuidar bem do que tem entre as mãos (como bons cidadãos, se cada um cumprisse seu trabalho bem, mais da metade dos problemas já estariam resolvidos), e a fazer um pouco mais por toda a sociedade. Só assim conseguiremos a saúde do país com todos os benefícios que daí decorrem. Vale a pena, pois a principal riqueza de um país é seu povo.
RENATA MACIULIS DIP é médica em Londrina
Pandemia de notícias
Paulo Ferreira Muniz
Notícias alarmantes sobre a incidência da gripe aviária na Ásia, Leste Europeu e, agora, mais recentemente na Europa Oriental estão sendo veiculadas maciçamente pela mídia. É importante esclarecer que o vírus H5N1, da gripe aviária, e mesmo outras variantes da Influenza Aviária não são transmitidos de pessoa para pessoa. Os casos de contaminação na Ásia se deram pela íntima convivência entre pessoas e aves que estavam infectadas pelo vírus.
Por enquanto nem um só caso foi registrado nas Américas. E não cremos que isso possa acontecer tão cedo. A ocorrência da gripe aviária na Europa está praticamente restrita às aves silvestres. E a possibilidade da chegada desse vírus ao Brasil é muito pequena uma vez que as aves que para cá migram provêm da América do Norte, onde o H5N1 não está presente. Além disso, as aves migratórias estão sendo monitoradas pelos Ministérios da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente, através de captura nos principais pontos de invernada. Também a Fundação Apinco de Ciência e Tecnologia Avícola (Facta), formada por médicos veterinários, professores universitários e pesquisadores das mais renomadas empresas, universidades e instituições de pesquisa no Brasil garantem que a gripe aviária jamais ocorreu no Brasil.
Diante disso, conclamo as pessoas para refletirem e constatarem que as notícias da forma como vêm sendo alardeadas estão criando enormes prejuízos a um setor que tantos benefícios já proporcionou, com a criação de emprego e renda. Além de oferecer alimentos com elevado teor de proteína e baixo custo para a população. O setor pode fazer ainda muito mais ao País e às famílias, pois todos sabemos que a carne de frango e os ovos sempre foram as proteínas mais acessíveis às populações.
Enquanto no Brasil, a criação de frangos é altamente tecnificada, protegida, com galpões isolados por telas para evitar o contato com aves silvestres e controle sanitário considerado de excelência, a gripe aviária já é bastante conhecida em outras regiões do planeta. Temos conhecimento que o H5N1 já está circulando desde 1995 e desde então já provocou 100 mortes, o que sem dúvida é lamentável. No entanto, somos forçados a comparar que no Brasil outras patologias provocadas por vírus matam muito mais. Segundo o Ministério da Saúde, a Aids já matou 172 mil pessoas desde 1980 quando foram registradas as primeiras mortes. Os acidentes de trânsito, então, outra séria ameaça no País, matam em média 45 mil pessoas por ano.
Por isso, insisto na reflexão. Será que por trás de toda essa avalanche de notícias alarmantes não existe interesse de algum laboratório em vender remédios ou antídotos? É importante frisar também que mesmo nos países onde pairam os vírus H5N1, o consumo de aves cozidas ou fritas neutraliza qualquer possibilidade de contágio, já que o vírus é extremamente sensível à temperatura acima de 60 graus. O Brasil é hoje o maior exportador mundial de carne de frango para cerca de 150 países, posição que certifica a alta qualidade e a segurança do frango brasileiro.
PAULO FERREIRA MUNIZ é empresário em Londrina
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