A gripe aviária brasileira

Nelio Roberto dos Reis
  Foram detectados na China, Vietnã, Indonésia, Camboja, Tailândia, Iraque e Turquia 101 casos de morte pelo ‘‘H5N1’’ - o vírus da gripe aviária -, e os brasileiros, provocados pela mídia que noticia diariamente através de seus veículos de massa, já discutem e se preocupam de maneira ostensiva sobre o risco desta doença chegar ao Brasil.
  Saibam os patrícios que muito mais brasileiros morrem anualmente com malária na Amazônia e não há divulgação sobre o fato. A dengue, que vive ao nosso lado, mata muito mais do que isso anualmente nos estados do Sul e Sudeste. Saibam também que 40% das mortes de crianças nordestinas são causadas por diarréia e novamente não há comentários a respeito. Proporcionalmente temos muito mais índios se suicidando por depressão no Mato Grosso do que todas as mortes causadas pela gripe aviária.
  Por que, então, a notícia sobre os quatro turcos que morreram pela gripe aviária é mais importante que a dos nossos índios que sem apoio, despreparados, se suicidam? Por que dois iraquianos mortos pelo ‘‘H5N1’’ são mais noticiados que centenas de brasileiros que morrem na Amazônia com malária, ou os quatro cambojanos que tiveram a infelicidade de morrer deste vírus, são tão mais prestigiados que os nossos vizinhos vitimados pela dengue?
  Enquanto a nossa sociedade está preocupada com o ‘‘Sars’’, ‘‘Doença da Vaca Louca’’ e ‘‘Ebola’’ do outro lado do mundo, tem gente acometida de leishmaniose aqui no Norte do Paraná, bem no nosso quintal. Esta que é uma doença terrível causada por um protozoário e transmitida pelo mosquito chamado flebótomo que provoca ulcerações devastadoras e que pode levar a óbito.
  O risco de uma bala perdida para um brasileiro viajando de férias no Rio de Janeiro é infinitamente maior do que pegar gripe aviária mesmo ‘‘rolando’’ no meio de um galinheiro malcuidado e sujo num quintal de qualquer chinês do interior da Ásia.
  Não sei qual é o interesse em desviar a nossa atenção para um assunto tão longe, para um vírus já descoberto desde 1925 e até então despercebido. Não que a gripe aviária não seja importante, mas nunca terá no Brasil maior relevância que a malária, a leishmaniose, a dengue, a lepra e a tuberculose.
NELIO ROBERTO DOS REIS é doutor em Ciências pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) e professor da Universidade Estadual de Londrina


‘Rainha da Sucata’

Renato Forin Junior
  Foi com a alegria de quem perde dois mil reais que meu pai me presenteou com uma câmera fotográfica profissional no primeiro ano de Jornalismo. Em troca - claro - concedi-lhe o mérito de ter o meu nome entre os classificados no segundo curso mais concorrido da UEL. Depois pedi um gravador para as entrevistas; alguns livros que a biblioteca da UEL não dispunha; também precisei de um computador para os trabalhos de diagramação. Certo dia a voz paterna não calou: ‘‘Filho, não tenho mais dinheiro. A universidade não tem esses equipamentos que você precisa?’’ Minha negativa foi categórica.
  Começava ali mais um drama pelo qual várias turmas do curso de Jornalismo vem passando: a conclusão de que a formação pela qual lutaram a vida inteira não passa de uma farsa bem maquiada por números elevados de concorrência e pelo nome pomposo que a instituição pública ostenta. Estudar Jornalismo na UEL é altercar uma luta diária para contornar problemas como a falta de equipamentos e técnicos especializados. O resultado é o desenvolvimento de exercícios práticos de modo rudimentar, com máquinas ultrapassadas - quando elas existem - e com um grande esforço de imaginação por parte dos professores que ainda resistem e dos estudantes que são condenados ao suicídio profissional.
  Esperamos há anos melhorias na universidade. De um lado a morosidade das instâncias públicas, de outro o cotidiano pachorrento e célere dos estudantes que precisam ler o ‘‘Manifesto Comunista de Marx’’ e, portanto, não têm tempo para as reivindicações. No fundo, todos tratam o bem público com aquele descaso das coisas que não são de ninguém, justamente por ser de todos.
  Não me excluo dessa regra. Precisei de quase quatro anos anódinos no curso de Jornalismo e de uma marquise desabada para espertar-me para o quão importante é a preservação de nossa existência física e intelectual a partir da conservação de boas estruturas na instituição de ensino. Não que tenhamos ficado calados por muito tempo, mas as nossas tentativas tímidas por melhorias quase sempre baixaram a cabeça para a eloqüência nata dos poderosos e de seus assessores, que sempre contaram, a despeito de nós, com a retórica empolada da linguagem técnica e jurídica, com a tramitação das licitações e com o passa-anel de responsabilidades, típico dos órgãos públicos.
  Mas chega um momento em que não se pode ser apenas um espectador da própria desgraça, um anti-herói da própria história. Resolvemos lançar o nosso grito de horror ao status quo e à lentidão das instâncias públicas. ‘‘Vocês precisam de jornalismo de qualidade. Nós também.’’ - de posse desse lema, marchamos pela universidade e por Londrina atentando a população para as nossas reivindicações e para a competência dos políticos que destinam nossos impostos. Resta a certeza de que, aos berros, somos muito mais úteis à nossa educação do que como meros súditos da ‘‘Rainha da Sucata’’.
RENATO FORIN JUNIOR é estudante do quarto ano do curso de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina



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