ESPAÇO ABERTO
Olhar o mundo com novos olhos
Renan Boldori Santos
Desde os primeiros suspiros do homem dito
civilizado, passando mais tarde pelo advento do capitalismo como sistema econômico vigente, a humanidade chora e grita por melhores condições de vida. Ainda que, talvez jamais tenha existido, a luta do homem é uma luta acima de tudo por liberdade, por uma nova vida, uma eterna disputa por interesses individuais e coletivos.
Hoje, em pleno período da revolução tecno-científica, nota-se claramente novos anseios, o despertar de uma revigorada consciência. Uma justa e perfeita tentativa de resgate dos valores essenciais ao futuro, tanto que, já existem instituições de diversos segmentos da sociedade, que estão passando por uma verdadeira metamorfose na entrada ao século XXI. Dentro de um processo de amadurecimento deverão se tornar verdadeiras escolas de solidariedade.
No setor educacional, onde dedico a maior parte de meu tempo, pode-se perceber tal fato com facilidade. Ao aluno é dado o privilégio, antes só concedido apenas às elites, de poder questionar, pensar, valorizar a sua individualidade sem se esquecer dos ensinamentos de ajuda ao próximo. O mesmo vai acontecendo com o funcionalismo que é positivamente estimulado a trabalhar em equipe, diminuindo o instinto competitivo e fortalecendo um estreitamento hierárquico. Já não existem mais donos de verdades e sim como dizem os pedagogos: construtores de novos saberes e competências.
A área empresarial, também vem dando a sua parcela de contribuição. Da mesma maneira que a instabilidade empregatícia ainda é um fator preocupante, juntamente com o aumento nas terceirizações, algumas companhias já oferecem partilha dos lucros, repudiando a tentação da retenção financeira irresponsável. Neste caso em específico, mesmo que Marx e Locke tremam em suas tumbas, é evidente o fato de que surge a grande tendência para o futuro, nem capitalismo nem comunismo, mas sim um sistema econômico que continue visando lucro, porém enfatizando as comunidades nele envolvidas.
Portanto, diante de um Brasil tão acostumado a ficar repensando desgraças alheias, mensalões e crises institucionais, a boa nova é que, podemos criar uma nova realidade, num futuro não tão distante. Será muito melhor para todos olhar o mundo com novos olhos. A parte individual passa a ser as pessoas, o plural é o bem da sociedade. Os pedaços são os povos da Terra, o conjunto é a humanidade.
RENAN BOLDORI SANTOS é geógrafo, especialista em Filosofia Política e Jurídica e educador da rede particular de ensino em Londrina
Adquirir hábito de agradecer
Walmor Macarini
Tenho escrito e me agrada repetir que a maior das dádivas é o dom da vida, mas as pessoas raramente se detêm para agradecer por este privilégio. O sol se levanta e se põe com precisa regularidade, mas as pessoas poucas vezes proclamam que é lindo o dia e que é repousante a noite que chega. Essas pessoas têm a graça do livre ser e do livre pensar, a mente singra os espaços e voa para além das galáxias, mas não percebem que elas próprias compõem a majestade do universo que contemplam.
Sentam-se à mesa e alguém lhes serve o alimento, mas poucos fazem reverência àqueles que, com o cansaço dos músculos e o suor do rosto, sulcaram a terra e extraíram dela o sustento para tantos. E aos que trabalham os campos não ocorre a gratidão pelo fabricante da enxada e do arado, pelo animal que o transporta pelas veredas. Alguém confeccionou os sapatos que protegem do chão pedregoso os pés, a roupa que cobre a nudez e abriga do frio, o chapéu que protege do sol escaldante a cabeça, mas poucos agradecem por isto.
O cientista descobre a fórmula, o médico a ministra ao paciente e o remédio cura a doença; toda uma legião de anônimos movimenta-se nesse processo de amenizar dores e sofrimentos, e o paciente sustenta esses empregos, mas poucos se louvam entre si. Alguém, enquanto alguns dormem, monta a guarda para garantir-lhes o repouso, e estes lhes pagam o soldo, mas eles não se reconhecem. Enquanto uns produzem suas criações e seus inventos, para beneficiar as pessoas, outros fazem descobertas, arrojam-se em empreitadas perigosas e proporcionam iguais benefícios a outrem, mas raros são os que se detêm para um momento de gratidão, uns para os outros.
O jardineiro cultiva as flores para garantir a própria sobrevivência, e sem perceber faz mais festiva a paisagem e proporciona que os amantes enviem essas flores às suas amadas. Mas as pessoas se esquecem de enviar uma imaginária flor ao jardineiro. Alguém dotado de gênio inventou os instrumentos musicais, outro compôs a música, outro mais criou tecnologias que tornaram possível ouvi-la, mas poucos curvam-se em reverência a esses talentosos benfeitores.
Todos se imaginam pagadores e pagos, por tudo, mas esquecem de agradecer portanto esforço mútuo. É escassa a homenagem do discípulo ao mestre, e a este raramente ocorre reverenciar o aluno pela oportunidade que lhe dá de ser útil. Os serviçais que carregam a carga pesada, que limpam os cômodos e recolhem nossos detritos, raramente recebem menção de gratidão.
Mas, sobretudo, quantos agradecem aos que os atropelam, no entanto os fazem cair e os ensinam a levantar-se? Aos que lhes colocam pelo caminhos as pedras de tropeço, mas os fazem dar saltos? Aos que os chutam, empurrando-os para a frente? Aos que os enganam, alertando-os para que fiquem vigilantes? Estes são os agradecimentos mais difíceis, porém, se acontecem com palavras ou com sentimentos fazem um grande bem. Os resultados são fantásticos quando se adquire o hábito de agradecer, por todas as coisas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
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