MST canibal

Luiz Carlos Ferraz Manini
  As atuais notícias sobre o ‘‘Março Vermelho’’ e as ações do MST nos mostram cada vez mais a face deste movimento social brasileiro. Movimento que, aliás, em vista de sua doutrina (se é que ainda alguém se lembra disso) se mostra extremamente contraditório.
  A atuação dos sem-terra nos mostra que, cada vez mais, tudo degringola para uma violência barata e sem sentido, pois já alertava Hannah Arendt que, quando nada mais temos a construir, passamos a destruir. O MST assumiu uma postura canibal, devorando a si mesmo com papelões como os mostrados em rede de televisão, no qual não se visa mais o assentamento e a luta pela terra, mas sim atacar o patrimônio alheio como se este fosse a causa última da pobreza de milhares de pequenos agricultores.
  Tempos atrás, novamente a mídia atuou no sentido de desmascarar o atuação do movimento, mostrando como assentados vendiam ou faziam especulação com as terras que haviam ganho. De uma promessa de revolução no campo, pensando no pequeno agricultor e sua família, o MST transformou-se em massa amorfa, que não faz mais do que se arrastar e deixar atrás de si um rastro de destruição e de uma luta que redunda em quase nada.
  De acordo com a Constituição Federal de 1988, as terras consideradas produtivas são intocáveis, independentemente da extensão da propriedade. Em sua reivindicação, o movimento vermelho luta por desapropriar, então, terras improdutivas, lutando por migalhas que não resolverão os problemas de ‘‘camponês’’ algum.
  Lembrando a contradição que citei no começo, lembro-me das palavras do próprio Marx, afirmando que primeiro a burguesia deveria ser banida para que se pudesse enfim haver a ascensão do proletariado, que traria junto de si a redenção terrena. No entanto, um movimento social que se diz marxista, ou ao menos de tal inspiração, luta por migalhas em nome de interesses egoístas, tentando resolver um problema localizado (o da distribuição agrária) em detrimento de uma visão universal de mudança social.
  Enfim, somente registro aqui meu profundo desagrado com os métodos de tal movimento, que há muito perdeu sua inspiração e talvez até sua razão de existir, transformando-se em quase uma cria daquilo que pretende destruir.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


O auge da reflexão

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  As caricaturas do profeta Maomé foram o auge da agressão a um povo que já convivia com as guerras envolvendo seus irmãos palestinos, iranianos, afegãos, iraquianos,... No entanto, qual o motivo para todos esses fatos? E por que a cultura muçulmana insiste em não se adequar à modernidade?
  A forte união dos seguidores de Maomé, tidos como radicais em sua visão de mundo, é vista de maneira preocupante pelo Ocidente (comparável a um exército de homens-bomba com capacidade para atuar em nível global). Esse motivo, bem como o interesse financeiro e político pela região, são a explicação para as tragédias que assolam a vida dos muçulmanos. A impressão que se tem é de que estes vivem uma espécie de holocausto, visto que o clima de medo e de falta de perspectivas vivenciadas pelas minorias perseguidas pelo nazismo é similar ao que passa, no momento, os seguidores do Islã. E, nessas condições, um povo perplexo frente a esse selvagem e caótico mundo globalizado, às vezes conta somente com a fé. É possível compreender a razão de as caricaturas terem sido o estopim, uma vez que elas feriram a mesma fé que os muçulmanos utilizavam para se proteger da violência ocidental.
  Outra questão a ser discutida é a insistência dos islâmicos em seguir um modo de vida ultrapassado, segundo, novamente, os ocidentais. Parece que os povos que se dizem desenvolvidos não percebem que a religião não é a causa do ódio; ela é o instrumento. O instrumento para manter os ânimos em alta (e isso se dá por meio de um discurso pacifista, bem como inspirado em necessidade de guerra santa) e, com isso, evitar que um povo que já perdeu seus irmãos, suas terras e sua riqueza, acabe perdendo também sua cultura. E sem cultura, sem os valores que guiaram os seus antepassados, não restam perspectivas. Assim, quanto mais se persegue, mais isolado do mundo fica a presa. E como o caçador segue seu código (no caso, baseado na crença à modernidade), a presa não acredita que será livre caso siga esse código. É por isso que alguns grupos muçulmanos não vêem com bons olhos a modernidade: não estão preparados para assimilar mudanças tão ousadas que levem a um progresso, o qual não sabem para aonde levará.
  Por conta disso, talvez as caricaturas deveriam ter sido dirigidas não contra as crenças religiosas, mas sim contra a atitude de acreditar que há apenas uma única explicação para as coisas. Com isso, haveria protestos. Entretanto, estes se baseariam na contestação ao modo de vida que a humanidade vivencia no momento, e não puramente na violência.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina


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