ESPAÇO ABERTO
A iniquidade dos homens
Wilmar Sachetin Marçal
Desde outubro de 2005 estamos vivendo a triste e amarga situação da febre aftosa no gado bovino paranaense. De um lado um amadorismo sem tamanho por parte do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) que, perdido em sua incompetência técnica, insuficiente e mal treinada corporação de fiscais e na obsolência de seus equipamentos analíticos, insiste em contrariar a lei da semiologia que, como arte e ciência, define ser os sinais e sintomas de qualquer enfermidade como condição básica para o diagnóstico clínico.
Por outro lado vivemos a luta da classe de pecuaristas que, com verdades e juízos de razões, demonstraram e continuam a comprovar que o gado bovino paranaense não tem qualquer indício de febre aftosa, reunindo importantes e sérios estudiosos na busca incansável da verdade dos fatos e de tudo que acontece nos bastidores. Há, contudo, outros pontos também a serem considerados nesta indesejável questão. O primeiro é de que o episódio forjado pelo Mapa tem conotação puramente política para desestabilizar o governo do Paraná, que detém um expressivo índice de aceitação popular e incomoda aqueles que querem o poder presidencial a todo custo.
Outro aspecto a ser considerado e que reforça a tese da aftosa política relaciona-se ao fato de que pela Lei nº 5517, de 23 de outubro de 1968, define-se ser de competência privativa do médico veterinário o exercício das atividades e funções relacionadas à assistência técnica e sanitária aos animais sob qualquer forma, além da exclusividade do planejamento e execução da defesa sanitária animal. Por isso, seria oportuno que os pecuaristas, sob orientação de nossos renomados juristas, questionassem o gerenciamento ministerial do senhor Roberto Rodrigues, que, salvo melhor juízo, não é médico veterinário. Já passou da hora de termos um Ministério da Pecuária exclusivamente , já que o Brasil detém o maior rebanho comercial de bovinos do mundo, além de números impressionantes de suínos e aves.
Esse cruel massacre que vem ocorrendo nos faz refletir sobre algo que recrudesce nas intenções dos homens a cada ano de eleições no País: perde-se a lógica e o bom senso, esquecem-se as raízes da ciência, desrespeita-se a natureza e suas leis. Apregoa-se somente a falta de eqüidade nas ações para benefício político-partidário, gerando com isso impactos negativos e irrecuperáveis de nossa economia. Além disso, manchas indeléveis na nossa Pátria, desperdício de alimentos, como carne e leite num país tão miserável pela fome , maior adoecimento de nossos povos, e a matança pecaminosa de nossos inocentes animais. Que Deus tenha piedade da iniqüidade dos homens.
WILMAR SACHETIN MARÇAL é professor e diretor do Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina.
As charges de Maomé
Marcos Antônio Lopes e Marcos Lobato Martins
Acontecimentos recentes, como as intervenções militares no Iraque, os conflitos sobre véus e outros símbolos religiosos nas escolas francesas e até as disputas sobre trajes de concursos de beleza na África negra islâmica, demonstram o acirramento das tensões e conflitos entre etnias e crenças religiosas em diversas partes do mundo. Ao retratar o Islã coroado com o símbolo global do mal Maomé portando um turbante em forma de bomba, com o pavio aceso , o caricaturista associou uma religião com o terrorismo, a barbárie, o fanatismo. As charges dinamarquesas trazem mais água para o moinho cotidiano das representações ocidentais do Islã: comunidade religiosa de terroristas encapuzados, mulheres cobertas por burcas, multidões enfurecidas.
Nas ruas de grandes cidades muçulmanas no Líbano, na Palestina, no Irã, na Síria, no Afeganistão, no Paquistão, na Líbia e na Indonésia, protestos violentos contra representações diplomáticas e sedes de ONGs européias, na esteira da publicação das charges em jornais europeus, mais uma vez incitaram o ódio contra o Ocidente, acusado de desdenhar de toda religião. Manipuladas por governos autoritários, as massas islâmicas reavivaram mitos anti-semitas e visões falsificadoras da Europa e dos Estados Unidos, tidos como domínios exclusivos da impiedade, do consumismo, do hedonismo e das liberdades sem limites. Guiadas por líderes políticos e religiosos que rejeitam a presença do Ocidente nas crises do Oriente Médio, as multidões que saíram para protestar nas ruas das cidades islâmicas contra as charges dinamarquesas enviaram a mensagem de que, hoje, como na Idade Média, há uma oposição acirrada entre o Ocidente cristão e o Oriente muçulmano.
A batalha em torno das charges dinamarquesas contribui para obscurecer a percepção de que, há décadas, as sociedades em toda parte vêm se tornando plurais. Se há muito o Islã adentrou a Europa, os Estados Unidos, a América Latina, como seguir acreditando em um mundo hegemonicamente nosso cristão, liberal, progressista , contraposto a um submundo hostil, que seria islâmico, irracional, despótico? Para enfraquecer os fanáticos, convém lembrar do antídoto proposto pelo filósofo alemão Theodor Adorno: manter em convívio os que discriminam e os que são alvo de discriminação, esclarecendo e ensinando sobre si mesmos no cotidiano. Tarefa difícil, demorada, prova de paciência e de tolerância, exercício de compreensão e de razão.
MARCOS ANTÔNIO LOPES e MARCOS LOBATO MARTINS são doutores em História pela Universidade de São Paulo e autores de A peste das almas: histórias de fanatismo (Editora da Fundação Getúlio Vargas)





