ESPAÇO ABERTO
Perdão, Deus
Phoenix Finardi
Ao ler os jornais esta manhã, fiquei profundamente envergonhada. Minha vontade era não olhar as fotos do sacrifício dos animais nas fazendas aqui do Paraná, não ler os textos dos repórteres que estiveram lá presenciando esse horror. Mas eu sei que os Teus olhos estavam lá. O Senhor viu.
Eu não sou veterinária, nem pecuarista. Não tenho nenhum cargo no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), nunca trabalhei na Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento). Não sou especialista em gado nem entendo muito de febre aftosa. Mas o que eu não entendo mesmo é como pudemos chegar a esse ponto.
Fui ensinada a crer que o homem é superior a todas as outras criaturas porque têm inteligência e raciocínio. Estou começando a duvidar disso.
Recebemos nas mãos um planeta maravilhoso, habitado por uma variedade incrível de criaturas. Tudo que tínhamos a fazer era cuidar do Jardim. Perdão, Senhor.
Não conhecemos a cura para a aftosa, mas tínhamos como prevenir a doença. Não sabemos se o gado estava mesmo doente, mas poderíamos ter confirmado isso antes de matá-lo. O que nós sabemos com certeza, Deus, é destruir.
Na falta de respostas convicentes para um problema que nós mesmos criamos, buscamos a solução usual para todos os conflitos: as
armas.
Perdão também, Deus, pela forma como matamos esse gado. Até para matar nós somos incompetentes.
Finalmente, perdão pelo desperdício da carne, que cobrimos com terra como se assim nossa vergonha também fosse encoberta.
Nada pode contrariar os interesses políticos e econômicos. Eles berram mais alto que a ciência, que a fome, que o bom senso, que a misericórdia, que a honestidade, e que o próprio gado ao ser morto.
Perdão. E se é que ainda podemos pedir alguma coisa, Deus, livra-nos da gripe aviária.
PHOENIX FINARDI é jornalista da Folha de
Londrina
Encarando a morte
Eu esperava cheiro de ração,
senti o cheiro de chumbo
Pensando bem, nada mudou: meus antepassados puxavam carroções enquanto aguentavam. Velhos e cansados, eram mandados para o frigorífico. Homens ingratos! Continuam ingratos! Eu mesma, como mãe, herdei lindos bezerros que viraram reprodutores, que tiveram filhos e que ganharam prêmios. Me orgulho tanto disso que até relevo o fato de nunca ter podido namorar um boi formoso e conviver lado a lado com ele... sonho de toda fêmea. Ao longo da minha vida, entupiram meu ventre de sêmen de ampola, congelado. Coisa mais fria. Mas aceito, resignada, a nova tecnologia. Aceito até o fato de terem sugado meu leite, enquanto meu bebê, apartado de mim, comia capim em outro pasto. É melhor pensar assim do que imaginar que o destino dele poderia ser pior. Mas, gente, dei tudo de mim! Dei leite, dei carne, dei lucro. E estou sadia! Posso dar muito mais! Então, vira esse rifle pra lá, meu! Céus, o que está acontecendo ao meu lado? Colegas se esvaindo em sangue? Não tem jeito mesmo, chegou a minha vez. Então, que eu morra com dignidade! Vou encarar esse idiota olho no olho. Ele não vai esquecer a cena. Mas, espera aí... Vou apodrecer naquela vala? Não vão aproveitar minha carne? Nem o couro? Quanto desprezo! Então, usem pelo menos meus chifres. Mandem aqueles poderosos guardarem meus chifres de recordação. Ah, eles já têm um... alguns! Então, entendi. Agora entendi o motivo de tanto despeito, intolerância e maldade.
Carta psicografada da vaca Eterna (foto), que encarou com dignidade o rifle sanitário na Fazenda Pedra Preta no dia 08/03/2006.
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