Uma flor nas mãos do Criador

Padre Jonas Abib
  Numa conversa informal surgiu o assunto do Dia Internacional da Mulher. E, é claro, dentro dele os famosos itens polêmicos. Será que, para ser livre, a mulher tem que ser feminista? O que é feminismo? Segundo o dicionário, é o ‘‘sistema que preconiza a igualdade de direitos entre a mulher e o homem’’. Que direitos são esses? De tomar suas próprias decisões? Ter sua mão-de-obra valorizada, sem discriminações? Exercer poder sobre seu próprio corpo? Viver seu livre-arbítrio? O sentido do feminismo foi se deturpando, de acordo com as mentes que o lideravam, surgindo assim os subgrupos. Com o tempo, o que era para ser libertação se tornou prisão.
  É impossível lançar um olhar sobre o século XVIII e não ficar inconformado com os hábitos e costumes da mulher ‘‘Amélia’’, que era educada para servir aos ‘‘homens’’ de sua vida. Primeiro ao pai, depois aos irmãos, ao marido, aos filhos, chegando aos netos. Nada mais justo do que direitos iguais. O sistema discriminatório tem que ser abolido. Mas fico perplexo com o rumo que as reivindicações tomaram. Sabemos que há países em que as mulheres vivem no submundo, oprimidas pelo sistema político e religioso do local. Porém, no geral, o que se vê é muito triste e nos força a pensar nas conseqüências.
  A mulher passou a ser escrava de seu corpo. Colocou-se como um belo ‘‘produto disponível’’ ao uso comum. Aceitou ser símbolo sexual. Perdeu a dimensão da beleza da criação. Por perder o respeito por si mesma, acabou desrespeitada. Por não se valorizar em sua dignidade, permitiu ser vulgarizada e vulgarizou-se. Em nome da auto-suficiência, perdeu-se nos caminhos de sua opção de vida. Não quer que ninguém mande nela, mas tem certeza que manda na vida da criança indesejada. Tem direito e poder sobre seu corpo, mas desrespeita o frágil corpo de um ser em formação. Faz e defende sexo livre e desregrado, mas cai em depressão por carência afetiva.
  Por não buscar com equilíbrio ‘‘seus direitos’’, a mulher acabou escrava de seu grito feminista: ‘‘Não apóiem e principalmente não obedeçam ao sistema patriarcal, ele escraviza... Para ser livre tem que ter princípios feministas... Para ser feminista tem que lutar pelos direitos da mulher: sim ao aborto, sim ao divórcio...’’.
  Sinceramente! Para ser livre tem que entregar sua vida a Cristo! Ele sim liberta dos sistemas. Ensina a pensar com amor, a não ter discriminação ou preconceito. Foi pioneiro nos direitos humanos. Entregou a vida pela libertação do homem e da mulher igualmente. Jesus também desafiou as leis sociais em relação a ambos os sexos. Há coisas que nem os séculos conseguem mudar. O amor não teve princípio e não terá fim! Por isso, não se deixe levar por revoluções passageiras e humanas. É possível ser feliz sendo mulher, sendo mãe, sendo profissional... É possível ter paz nos relacionamentos, ter diálogo com o marido e os filhos. É possível continuar a luta pelos direitos da mulher sem faltar com o amor ao próximo.
PADRE JONAS ABIB é fundador da comunidade Canção Nova


Saúde do trabalhador em perigo

Cleuza Aparecida Beluzo Ferreira
  A palavra ‘‘trabalho’’ é originária do latim tripalium (instrumento de tortura para empalar escravos rebeldes). A expressão ‘‘trabalho de parto’’ nos lembra que o ato de trabalhar envolve algum tipo de sofrimento.
  Quando as atividades de trabalho são organizadas de forma muito fragmentada, sem variabilidade, com pobreza de conteúdo, limitado espaço para criação, restringe a oportunidade de realização que o trabalho poderia proporcionar. Some a tudo isso, a tensão provocada por um ritmo de trabalho muito intenso, grande pressão por resultados e está pronta a receita de um trabalho penoso.
  A interação com os colegas e o bom relacionamento com as chefias, podem oferecer algum alívio para contrapor a essas agressões, mas se a gestão for hierarquizada (centralizadora), punitiva, o ambiente torna-se ‘‘pesado’’ e o trabalho passa a ser marcado por insatisfação e sofrimento.
  Na tentativa de autopreservação, muitos funcionários se desligam da empresa. Aqueles que permanecem, podem exibir comportamentos de agressividade, seja com as pessoas ou com o patrimônio da organização sob a forma de ironias, burlando normas de propósito, danificando materiais, etc., como se quisessem dizer: ‘‘Eu estou vivo’’. As causas não devem ser procuradas em outro lugar, senão nas formas de gestão.
  Algumas organizações na ânsia de coibir estes ‘‘deslizes’’, e na contramão do bom senso, instalam câmeras para vigiar os funcionários ‘‘rebeldes’’.
  Christophe Dejours em seu livro ‘‘Psicodinâmica do Trabalho’’ (1994), concebe a organização do trabalho como sendo responsável pelo sofrimento mental do trabalhador, seguida do respeito à liberdade como condição importante para o equilíbrio psicossomático. Assim, ‘‘o trabalho torna-se perigoso para o aparelho psíquico, quando ele se opõe à livre atividade’’ (p.24).
  Em vez de se trabalhar com a perspectiva da emancipação, algumas organizações ainda utilizam o expediente de domesticar seus colaboradores (deveriam ser), cerceando a subjetividade, propiciando ao trabalhador e à trabalhadora situações de risco e vulnerabilidade para o desenvolvimento de descompensações psíquicas e/ou doenças somáticas.
CLEUZA APARECIDA BELUZO FERREIRA é psicóloga clínica e do trabalho em Londrina


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