Londrina, cadê você?

Carlos Rachid
  Quem não se lembra daquela Londrina vibrante de anos atrás? O clima da cidade era outro. Tínhamos cabeças que capitaneavam o movimento empresarial da cidade - GPDR, o PDI, a ACIL, a Codel. Estes foram atores de uma movimentação de força e inteligência nesta cidade. O que aconteceu? Parece que uma jamanta nos atropelou. Alguém anotou a placa? Onde está a força empresarial de Londrina?
  Londrina é uma bolinha um pouco maior que as outras no mapa do Estado. Por duas razões: população de 500 mil habitantes e um aeroporto. Dados do Banco Central colocam Londrina e Maringá quase no mesmo patamar na movimentação financeira. Londrina tem duzentos mil habitantes a mais. O irônico é o aeroporto. O de Maringá funciona o ano todo. O nosso só funciona em dias de céu azul e sem vento. É uma estratégia que os mandantes desenvolveram para atrair novos investidores.
  As diferenças não são só essas. Londrina tem favela. Maringá não. Londrina tem muita gente andando no comércio. Maringá tem mais gente comprando e é crescente o número de marcas fortes das capitais. Londrina tem um custo de ocupação de loja em shopping parecido com o de São Paulo. Em Maringá é bem menor.
  Quem é a liderança empresarial reconhecida de Londrina? Maringá acordou para este diferencial há exatos seis anos. E se mexeu.
  Cenário relevante atual de Londrina: baixa oferta de empregos; médias salariais baixas; índice inexpressivo de remuneração por participação ou resultado; criminalidade elevadíssima; crescente tráfico de drogas (já somos uma capital mundial); nossos bandidos já oferecem ‘‘serviços’’ sofisticados como seqüestros-relâmpagos, especialistas em malotes, rede de informação interna à empresa, etc. E o que dizer da apatia da população em relação à segurança pública?
  Vão negar? Senhores políticos, acabem comigo perante a opinião pública, por favor. Aproveitem meu artigo para garantir votos. Antes disso, porém, lembrem-se que se a opção for esta vocês estarão confirmando a única coisa que parece terem feito ultimamente: discurso. E os piores que já ouvimos!
  Em tempo, aqui vai uma informação não tão ruim. Após estudos, um economista apontou quatro tipos de negócios que têm crescido sem qualquer obstáculo e até algum incentivo em Londrina: igrejas evangélicas, barzinhos, catadores de papel e carroças puxadas a cavalo. Este é, sem dúvida, um maravilhoso modelo de pujança. Com a palavra, os enganadores, os oradores e os oportunistas de plantão!
CARLOS RACHID é pequeno comerciante lojista em Londrina e Maringá



A política de redução de danos

Marcio Antunes da Silva
  Recentemente pude ler nesse Espaço Aberto um artigo no qual a autora fez críticas à política de redução de danos. Dentro de uma sociedade plural, democrática e tolerante, venho manifestar meu posicionamento contrário ao da autora. A redução de danos, segundo pesquisadores sobre o tema, é uma ação estratégica que visa minimizar as conseqüências adversas do uso de drogas do ponto de vista da saúde pública e dos seus aspectos sociais e econômicos, sem que necessariamente o usuário tenha que se abster do consumo.
  Quando analisamos o tema drogas não deveríamos tratá-lo como algo simples de ser equacionado a partir de nossos valores éticos e morais. Dados de pesquisas, como a do prof. Argemiro Procópio e da própria ONU, demonstram que o comércio ilegal de drogas no mundo movimenta hoje a terceira economia, ficando atrás apenas da indústria bélica e do petróleo. Portanto, se concordamos ou não com o uso de drogas, é fato que milhões de pessoas continuam usando drogas, adoecendo e gerando gastos para a política de saúde, pagos por todos nós.
  O que é preferível então? Admitir que o uso de drogas traz danos e que podemos reduzi-los ou crer que somente a abstinência do uso de drogas é a única estratégia de prevenção? A política de redução de danos também não pode ser vista como a única via para a atenção de usuários de drogas, mas sim complementar às outras já existentes. Não concordo quando a autora diz que ‘‘na prática, não existe redução de danos’’. Quando andamos de carro, usamos o cinto de segurança, pois partimos da premissa que se sofrermos algum acidente, com o cinto, os danos serão menores. Quando uma pessoa usa drogas, o mesmo acontece, ou seja, informada e consciente dos danos que as drogas causam ela pode, a partir de medidas de redução de danos, cuidar não só da sua saúde, mas da saúde coletiva.
  Não podemos ainda misturar todas as drogas e todas as intensidades de seu consumo. Existem drogas que causam dependência severa e outras não. Existem usuários ocasionais, mas também existem os contumazes. Disponibilizar equipamentos de prevenção (seringas, agulhas, preservativos, informações e outros) não pode ser considerado estímulo ao uso de drogas. Se for, poderíamos dizer que as fábricas de copos estimulam o alcoolismo. Devemos relembrar que em Londrina existe a Lei Municipal 8.694/2002, que prevê a atuação com usuário de drogas utilizando-se da estratégia de redução de danos como medida de prevenção à Aids.
  A política de redução de danos não é algo que surgiu em Londrina. É uma política fomentada pelo Ministério da Saúde, pela organização Mundial da Saúde, pela Aborda (Associação Brasileira de Redutores de Danos), pela Relard (Rede Latino-Americana de Redução de Danos) e dezenas de outras associações nacionais e internacionais de redução de danos. Não sou favorável ao uso de drogas, mas sou favorável ao cidadão que usa drogas, que precisa ter acesso à política de saúde como direito, que tem o direito de cuidar da sua saúde, que tem o direito de não adoecer, que tem o direito de não se infectar pelo HIV e que tem o direito de ser respeitado.
MARCIO ANTUNES DA SILVA é assistente social em Londrina


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