ESPAÇO ABERTO
Londrina: presente e futuro
Edson Gradia
Tive ouro, tive gado, (tive fazendas). Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói (Carlos Drumond de Andrade). O grito angustiado do poeta deu-se ao visitar a sua terra natal. Rica, graças à produção de minérios, Itabira entrou em tempo recorde numa decadência econômica e social que doía na alma do grande brasileiro. Londrina não é Itabira. Londrina é a coragem da sua gente de enfrentar e vencer desafios. Em passado recente, o dínamo econômico do Paraná era a região que tem Londrina como seu núcleo. Era inclusive a capital política estadual da resistência ao poder autoritário que por duas décadas dominou a vida pública nacional.
A força da riqueza que produzia, a partir do café, levava à felicidade das famílias que viam no crescimento econômico as oportunidades do emprego e da renda se expandirem com relativa uniformidade. Se no passado recente isso colocou Londrina como a 3ªcidade do Sul do Brasil, hoje essa realidade está mudando. Em Santa Catarina, Joinville já ocupa aquela posição, graças ao planejamento que erigiu um sólido parque industrial com oportunidades econômicas e sociais quase duplicadoras da sua população. No Rio Grande do Sul, está claro que Caxias do Sul também deverá ultrapassar Londrina, jogando-a para a 5ªposição.
O que aconteceu com Londrina? Quais os insondáveis mistérios que resultaram na sua estagnação? O que fazer para enfrentar essa realidade? A resposta é reagir unida, com a determinação e a coragem que não faltam ao seu povo. A sua pobreza e carências estão hoje escancaradas nas ruas. A insegurança pública parece ter transformado o medo em componente do cotidiano londrinense. É preciso explodir esse túnel escuro e fazer Londrina voltar à criadora luz do dia. Nos últimos três anos Londrina teve o índice negativo de crescimento de 0,77%, de acordo com o Target - Instituto de Pesquisas Econômicas. Esse é o túnel escuro da incompetência.
Felizmente a luz do dia londrinense é muito clara: recentemente a Folha Economia publicou que Londrina é a 7ªcidade do Brasil em depósitos e aplicações bancárias. Vale dizer, é das mais ricas do País. Aí está o começo da grande redenção. A elite londrinense precisa deixar de ter amor ao dinheiro como posse, substituindo-o pelo amor como meio. Para a sua própria felicidade. Londrina precisa investir na geração do progresso pela via do desenvolvimento. A isso some-se a mobilização de uma vontade política que deve começar na administração municipal comprometida com a modernidade, estendendo-se a nível de Estado, contra a discriminação que os últimos governadores devotaram e devotam a Londrina. A resposta deve ser dada pelo londrinense e pelos norte-paranaenses.
É preciso recolocar Londrina na sua trilha histórica de 72 anos: uma terra generosa de oportunidades para todos que nela apostaram. Determinação e coragem são partes integrantes da personalidade dos londrinenses. Cabe a eles travar a grande luta para recolocá-la no rumo do desenvolvimento com justiça social. E essa é uma luta que precisa ser travada. Só depende da vontade dos londrinenses.
EDSON GRADIA é formado em Odontologia, ex-vereador em Londrina e ex-secretário de Esporte e Turismo do Paraná
Duas conchas: Vitória e Londrina
Humberto Yamaki
Segundo o Guia do Patrimônio Cultural de Londrina (PROMIC 2005), a Concha Acústica de Londrina comemora meio século. Uma façanha, em se tratando de uma cidade que vem destruindo obeliscos, coretos, bebedouros de animais, chaminés e outros artefatos urbanos. Na época de sua construção, em 1957, Londrina respirava os ares do modernismo na arquitetura. Os jornais da época consideravam que a Concha viria a enriquecer os padrões estéticos da cidade.
É recorrente mas equivocada a afirmação de que a Concha Acústica de Londrina é projeto do arquiteto Henrique Mindlin. O então recém-graduado engenheiro pela UFPr José Augusto de Queiroz que a executou, relata ter visto numa revista de arquitetura dos anos 50, uma estrutura semelhante, uma alternativa aos coretos tradicionais. Lembra-se de Mindlin como sendo o autor.
Na verdade, a Concha Acústica que serviu de inspiração é o Auditório ao Ar Livre do Jardim de Infância em Vitória-ES, projeto do arquiteto modernista Francisco Bolonha com cálculo estrutural de Sidney Homes dos Santos e Silvio Coelho da Rocha. Foi publicado no número 29 - janeiro/fevereiro de 1954, da emblemática revista Arquitetura e Engenharia (SP, RJ, BH, SAL) entre obras de Sergio Bernardes, MMM Roberto e Jacques Pilon. Hoje, o conjunto faz parte do Parque Moscoso em Vitória-ES.
Na forma da Concha e nos bancos de concreto, é difícil deixar de notar a semelhança entre as duas estruturas. Queiroz afirma que em Londrina mudou a dimensão, a inclinação, a altura do palco, incorporou escadas palito e outros detalhes.
Sugestivo e encorajador parece ter sido o editorial escrito em 1953 por Eduardo Guimarães, do Conselho Editor da Revista Arquitetura e Engenharia, com o título de Plágio e Ecleticismo. Discorria sobre a importância do não-excesso de originalismo e na abstratíssima forma primeira. Criticava o não-reconhecimento pelos jovens arquitetos, da arquitetura como história viva e a genealogia de formas, dando lugar à formação do que chamava de tabu da cópia. E continuava, o uso de formas anteriores exige também que o arquiteto, aprimorando, modificando, adaptando, imprima o caráter do seu tempo e o calor de sua própria arte. Concluía enfim que, determinada forma sempre encontrará um precedente idêntico ou uma outra anterior de parentesco muito próximo.
Aproveitando pois o parentesco, e no momento em que se pensa realizar uma intervenção na Praça Primeiro de Maio, poderíamos criar um evento nos moldes de cidades-irmãs: o Projeto Conchas-Irmãs, entre a Concha Acústica de Londrina e a de Vitória. Seria uma oportunidade para discussão e reflexão, visando a recuperação integral da grande e surpreendente simplicidade da Concha Acústica, sua característica maior.
HUMBERTO YAMAKI é docente do mestrado em Geografia, Meio Ambiente e Desenvolvimento na Universidade Estadual de Londrina.
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