A favelização do Calçadão

Luiz Claudio Romanelli
  Londrinense que sou, domingo desses aproveitei que estava na cidade pra matar as saudades e fui tomar um café no Calçadão. Voltei para o hotel estarrecido com a favelização do local. Londrina é um marco no desenvolvimento do Paraná, apesar de ser uma menina se considerarmos a história das cidades. Nasceu sob a égide da vanguarda, sendo admirada e, sobretudo, valorizada pela qualidade de sua configuração espacial, reflexo de um planejamento urbano de princípios ingleses, graças à Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. O grande boom da cidade ocorreu na década de 50, quando a agricultura cafeeira permitiu, dentre outras benesses, a disseminação do estilo arquitetônico moderno no Estado. Londrina tornou-se referência nacional desta arquitetura vultuosa, sofisticada e ousada, com grande destaque para as obras de Villanova Artigas.
  Caminhando pelo Calçadão, concluí que ele reflete hoje a imagem do descaso: mobiliário urbano completamente desfigurado, ausência de um desenho urbano de qualidade, proliferação de atividades comerciais impróprias, ausência de paisagismo mais elaborado, com um arranjo espacial tão confuso, perde-se o sentido de adotar conceitos de arquitetura da luz, como forma de valorizar o espaço. Enfim, um pequeno caos em meio ao coração da cidade. É uma prova viva de que as pessoas se acostumam com aquilo que é feio, e nada mais inconcebível do que a conivência diante desta realidade.
  Para que as mudanças ocorram, é preciso conhecer a aldeia. Essa tomada de consciência sobre as condições do meio que nos cerca é o primeiro passo, seguido da vívida manifestação de que algo precisa ser feito. O ‘‘Calçadão’’ não é apenas uma via de circulação de pedestres com forte atividade comercial; ele é parte da imagem da cidade de Londrina e hoje, pode-se dizer, que o reflexo no espelho não é nada agradável. Muito se discute sobre qualidade, mas até que ponto podemos restringi-la a um mero rótulo de produto? Costumamos comprar o que nos traz retornos positivos e possui um diferencial; logo, nada mais justo do que comprar a cidade em que nascemos, ou escolhemos como lar, como um investimento de vida pessoal, intransferível e de longo prazo.
  Não se pode aceitar que um centro de disseminação do conhecimento como Londrina, com grande disponibilidade de profissionais qualificados, possa continuar a ignorar que atitudes precisam ser tomadas e propostas precisam ser sugeridas, seja pelo âmbito acadêmico, seja pelos órgãos gestores do planejamento urbano, seja pelo cidadão que deseja para si uma cidade cada vez melhor. É com este olhar que, espero, as pessoas passem a perceber a cidade: através de um ‘‘calçadão’’ cuja importância e pertinência no espaço urbano são indiscutíveis, pois reflete a postura que pode ser adotada para todas as outras questões a espera de uma solução.
LUIZ CLAUDIO ROMANELLI é especialista em Gestão Técnica do Meio Urbano pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e presidente da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar)


Nova política para o Brasil

René Ariel Dotti
  A ‘‘carta aberta ao próximo presidente (qualquer que seja ele)’’ é o início de uma série de opiniões e conselhos do cientista social e diplomata Paulo Roberto de Almeida, autor de diversos livros sobre as relações econômicas internacionais do Brasil.
  A carta está na obra a ‘‘A grande mudança’’ (São Paulo, F-QM Editores Associados Ltda, 2003), na qual o autor faz observações de natureza econômica, política e social. O livro foi escrito em Washington, no mês de agosto de 2002. Naquela época no Brasil os candidatos Lula e Serra intensificavam a propaganda eleitoral. Alguns recados continuam atuais e merecem a reflexão dos cidadãos. Principalmente em tempo de eleição.
  ‘‘Não tente inovar apenas para se diferenciar de seu predecessor’’. Essa advertência revela um dos graves problemas do desvio de conduta de muitos chefes do Executivo dos três níveis de poder. Certos projetos da administração pública e de interesse social não devem sofrer interrupção por causa das idiossincrasias partidárias ou pessoais dos administradores que se substituem. É correta a crítica: ‘‘Fazer política com sinal trocado apenas para se diferenciar do seu adversário ou antecessor costuma ser sinal de infantilidade política, não de maturidade’’.
  ‘‘Cuidado com as más companhias’’. O autor sugere reuniões abertas e seminários de trabalho nos quais todos os grupos de interesse poderão apresentar as propostas de ‘‘prioridades nacionais’’. Mas, recomenda com vigor: ‘‘Em geral, desconfie - se puder afaste-se - de capitalistas nacionais, investidores estrangeiros, banqueiros bonzinhos, sindicalistas ativos, universitários cheios de idéias, enfim, de membros da ‘elite pensante’, aí se incluindo os ‘acadêmicos progressistas’ que lhe trazem uma nova ‘idéia genial’ para resolver tal ou qual problema nacional ou alguma angústia nacional’’.
   ‘‘Não confie na onipotência do governo’’. A expectativa de uma imensidão de homens de boa vontade e das pessoas carentes é transferir para o Estado, suposto poder absoluto, a responsabilidade para a solução de todos os seus problemas. Esse estado soberano como o concebeu Thomas Hobbes (1588-1679), em seu Leviatã, é um mito. ‘‘O governo é forte, mas não é Deus’’, observa o diplomata e cientista social. ‘‘Geralmente ele tem alguma sapiência, mas muito pouca onisciência, uma vez que depende de burocratas e de assessores novatos, e está sempre cercado de aduladores da corte, de aproveitadores e de oportunistas de todo tipo, como sempre acontece com qualquer governo’’.
  O livro ‘‘A grande mudança’’, pensado e escrito com sensibilidade e competência, é um valioso roteiro não somente para o administrador público. Ele é, também, um bom endereço para a leitura e meditação das novas gerações de políticos do presente e do futuro.
RENÉ ARIEL DOTTI é advogado e professor universitário em Curitiba


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