Exame de ordem para médicos

Lecy Marcondes Cabral
  O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) aplicou, em outubro de 2005, a primeira prova de avaliação do ensino médico para recém-formados em Medicina do estado de São Paulo. Na ocasião, 1.003 estudantes sextanistas prestaram os exames, na capital paulista e em Ribeirão Preto. Levando em conta o caráter voluntário e experimental da iniciativa, a prova superou as expectativas de inscrição e comparecimento: 88% dos inscritos prestaram o exame escrito.
  Conforme as regras estabelecidas pelo Cremesp, todos aqueles que acertassem pelo menos 60% das questões estariam habilitados a participar da etapa seguinte, que consistiria na aplicação de um exame prático, em dezembro de 2005. Dentre os 1.003 participantes da primeira etapa, 686 foram habilitados a fazer o exame prático, mas apenas 286 estudantes se interessaram em fazê-lo. O teste simulou, no computador, situações de atendimento médico. O objetivo da prova foi avaliar conhecimentos, habilidades e aptidão no exercício da Medicina. Foram apresentadas 30 simulações de problemas práticos das ocorrências clínicas mais comuns: atendimentos de emergência, procedimentos médicos, realização e leitura de exames diagnósticos. Os candidatos foram avaliados levando em consideração a habilidade para realizar o diagnóstico e a decisão pela conduta mais adequada, de acordo com cada situação.
  Todos os 286 participantes da segunda etapa do exame foram aprovados. A aprovação no exame dependia do acerto de pelo menos 60% da prova. O Cremesp fará uma análise detalhada dos resultados, inclusive da primeira etapa e pretende convidar faculdades, estudantes, docentes e entidades médicas para discutir e aprimorar seu processo de avaliação, que deve se repetir todos os anos.
  No Brasil existem, atualmente, 154 escolas médicas em funcionamento, muitas delas sem a menor condição de manter suas portas abertas. Por ano, estas instituições de ensino oferecem 13.485 vagas. Só o estado de São Paulo conta com 28 escolas médicas, que oferecem por ano 2.558 vagas para formar novos médicos. A quem interessa a abertura de tantas escolas na área da saúde, e principalmente, qual a contribuição social que a abertura de tantos novos cursos pode trazer para a medicina brasileira?
  Boa parte destes 13 mil estudantes que se formam a cada ano não tem a oportunidade de fazer um bom curso e, pior, muitos não terão como fazer a residência médica, pois estas mesmas instituições que os formam não oferecem especialização. Atualmente, temos mais de 290 mil médicos registrados nos Conselhos de Medicina em todo o Brasil e o que sentimos é a ausência de políticas de saúde eficientes que possibilitem uma melhor distribuição desses profissionais pelo país.
  Talvez, o ‘‘exame de ordem’’ do Cremesp não seja o melhor instrumento de avaliação da qualidade do ensino médico brasileiro, mas somente com a continuidade deste projeto será possível chegar a uma avaliação mais detalhada, capaz de apontar as melhores alternativas para o aperfeiçoamento da formação médica. Estamos apenas no início do caminho.
LECY MARCONDES CABRAL é médico, mestre em cirurgia plástica pela Escola Paulista de Medicina e diretor da Clínica Integrada de Cirurgia Plástica São Paulo


Evite DST e gravidez na adolescência

Moacir Costa
  Vamos imaginar um casal de jovens, Roberta e Ricardo. Eles são alegres, estão de bem com a vida e se amam. Mas, como tantos outros casais de namorados, acabam discutindo sempre por causa do mesmo problema: sexo. Eles brigam porque Roberta, cuidadosa e bem informada, só aceita fazer sexo se Ricardo usar preservativo. Como muitos homens, ele não quer nem ouvir falar em preservativo. Diz que sexo com camisinha não tem tanta vibração. Mas Roberta insiste. Afinal, além do amor que sente por Ricardo, ela também tem amor à vida e encara esse relacionamento com seriedade.
  Sem o uso do preservativo, os riscos de contrair a Aids são preocupantes. Trata-se de uma doença fatal e ainda sem cura, embora, nos últimos anos, o tratamento tenha evoluído e a qualidade de vida dos pacientes tenha melhorado nitidamente. Mesmo assim, é preciso lembrar que a doença é grave. Outras doenças sexualmente transmissíveis (DST) também podem trazer conseqüências desagradáveis para a saúde dos jovens. No caso do HPV, por exemplo, a mulher fica mais vulnerável ao câncer de colo de útero. A gravidez na adolescência é outra possibilidade que assusta os pais e se constitui num verdadeiro salto no escuro. A jovem interrompe seus estudos, perde o encantamento nesse período da adolescência, em geral recheado de novos projetos e fantasias e dificilmente consegue se inserir no mercado de trabalho.
  A gestação precoce causa também um forte impacto emocional no contexto familiar: pais, irmãos, avós, amigos - todo o núcleo ao redor da menina se ressente com o acontecimento. Muitas vezes, a criança será criada pelos avós, já que os jovens não têm condições emocionais nem materiais de assumir essa responsabilidade. Em muitos casos, o índice de abandono é crescente. Às vezes, podem ocorrer quadros depressivos com severo comprometimento da sexualidade.
  Infelizmente, no Brasil, os índices mostram um cenário preocupante. Cada vez mais, jovens engravidam na adolescência. No ano de 2004, nasceram quase 650 mil crianças no estado de São Paulo, sendo que 17% delas, ou seja, 106.737 nascimentos, foram de mães com idade entre 10 e 19 anos. O número de mães adolescentes cresce nos bairros e nas regiões mais pobres, em decorrência das precárias condições socioeconômicas e da falta de estrutura e apoio médico, psicológico e educacional à adolescente e sua família.
  Como muitos homens, Ricardo usa a velha desculpa e diz que a camisinha diminui a sua potência e o seu prazer. Isso não passa de uma justificativa para esconder a verdade: ele se mostra medroso e incapaz de se envolver, de transformar o namoro inconseqüente num compromisso mais sério. Sejam quais forem as intenções do casal, saiba que a saúde e a segurança devem vir em primeiro lugar. Afinal, a vida não tem preço.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo e mantém um serviço gratuito de esclarecimento de dúvidas sobre sexo pelo 0800-770-6543. Mais informações pelo site: www.projetoamarbem.com.br


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