Sobre o acidente na UEL

José Miguel Arias Neto
  O desabamento da marquise do anfiteatro do Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESA) foi uma tragédia que deixará marcas em muitas pessoas para o resto da vida: naqueles que perderam seus entes queridos, nos que perderam partes de seu corpo, na comunidade universitária que manterá na memória o fato de que dois jovens oriundos de lugares distantes, tiveram aqui, tão cedo sua existência interrompida.
  Estes fatos devem ser sempre rememorados para que não caiam no esquecimento e, principalmente, se constituam no esteio das responsabilizações. Isto é necessário ser dito, uma vez, que se tem visto na imprensa, nestes últimos dias uma série de hipóteses acerca das causas do acidente. Embora tenham elas aparência de ‘‘hipóteses técnicas’’, o público leitor tem consciência de que cada uma das ‘‘suposições’’ de engenheiros, arquitetos, etc., tem implicações claras: leva à responsabilização ou não de determinados sujeitos sociais.
  De fato, as hipóteses, sejam elas fundamentadas na idéia de que a laje estava cheia de água, que o ferro não dá sinais de desgaste, que o concreto estala, solta lascas, etc., elas são irrelevantes de um ponto de vista social. O que de fato é relevante do ponto de vista da sociedade é que deve haver uma apuração séria das causas do acidente e que os responsáveis (porque afinal de contas uma obra de engenharia não deve desabar) sejam devidamente punidos. Ou seja, trata-se de uma questão de justiça. A justiça deve ser feita.
  Assim, o conhecimento técnico deve estar a serviço deste objetivo final: o fazer-se a justiça. Pois a sociedade merece uma resposta clara, responsável e séria sobre o ocorrido. Fica ainda, finalmente a lição para técnicos da área, engenheiros, arquitetos, mas também para administradores que qualquer edificação seja ela pública ou privada, deve ser feita e mantida com responsabilidade social. E isto se aprende nos cursos de graduação, mas também na vida. Ruim é quando este aprendizado custa a vida de outros. Isto não pode ficar sem resposta. Qualquer outra ‘‘hipótese’’ é mero exercício de especulação fantasiosa.
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor de História da América na Universidade Estadual de Londrina


Tragédia e maturidade administrativa

Isaac Antonio Camargo
  Talvez não fosse eu a pessoa mais indicada para manifestar minha opinião neste espaço, lembrando que, por participar também da atual administração da UEL, poderia estar comprometido com uma visão interna que favorecesse a instituição. Entretanto, como professor que sou, sinto o dever de manifestar-me, mesmo porque faço parte desta instituição há 30 anos e sempre participei de sua administração, independente de quem a administrava. Posso dizer que, desde meu ingresso na UEL, estive na lida administrativa com todos os reitores, desde o professor Oscar Alves, que ocupava o cargo de reitor em 1976, quando aqui cheguei, até hoje, com a professora Lygia Pupatto, atual reitora.
  Quero chamar a atenção para o fato de que uma tragédia como a que se abateu sobre nosso campus é muito dolorosa. Não há quem não se comova e se sinta entristecido e desamparado com uma fatalidade destas. Não há quem não se sinta no dever de levar uma palavra amiga às pessoas atingidas e demonstrar os nossos sentimentos, carinho e apoio, como também, aos seus familiares. Ao mesmo tempo, é necessário agradecer à mídia a pronta difusão dos dados que foram sendo colhidos ao longo destes dias, dando conta do andamento das ações tomadas pela universidade. Mas, não posso deixar de notar também que, para algumas pessoas, e me parece a minoria, a tragédia em si parece não ser o mais importante. Não lhes importa o acidente ou a perda de vidas, o que lhes importa é colocar em pauta outras questões, como a da administração da universidade que, diga-se de passagem, no contexto deste evento agiu com presteza e solicitude dando atendimento direto às pessoas atingidas pela ocorrência, bem como aos seus familiares, fraterna e materialmente buscando amenizar a dor imposta a todos.
  Para aqueles que não dão importância ao aspecto humano envolvido num acontecimento como este, pouco importam as pessoas. Uma tragédia deste porte lhes serve apenas de motivo para expor seu desagrado em relação aos seus desafetos pessoais ou políticos, se apropriando de dados especulativos, aleatórios, inoportunos e desencontrados, misturados a uma maledicência ferina, com o simples intuito de agredir e detratar aqueles que respondem pelas instituições e pessoas relacionadas a este triste evento.
  Cabe lembrar que já foram desencadeados diversos procedimentos administrativos em busca das causas do ocorrido, quer pela universidade ou pelo poder público nas suas diferentes instâncias. Os laudos ou relatórios decorrentes destes procedimentos virão a público e serão amplamente difundidos e avaliados, mas independente das causas físicas que provocaram o desabamento ou mesmo considerando que fosse mais uma das fatalidades do destino, não podemos deixar de avaliar que a conduta assumida pela universidade demonstra maturidade administrativa, colocando em primeiro lugar a vida das pessoas, depois o seu bem-estar, ao tentar amenizar a dor da tragédia que se abateu sobre a isntituição e, depois, quem sabe, quando os sentimentos estiverem já amainados, nossas almas menos doloridas e os dados técnicos levantados, aí sim, caberá uma discussão em nível mais técnico ou jurídico. Por ora, respeitemos a dor das pessoas.
ISAAC ANTONIO CAMARGO é coordenador de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina


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