O parto em questão

Carmem Almeida
  O número preocupante de cesarianas realizadas pelo sistema de saúde suplementar (79,70% dos nascimentos ocorridos no setor em 2004 foram por meio de intervenção cirúrgica) está levando a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) a tentar junto às operadoras a modificação desse quadro, que posiciona o nosso país, lamentavelmente, entre as nações com maiores taxas de parto cesáreo do mundo.
  É questão de extrema gravidade, e não apenas pelo fato de saber-se que o número crescente de bebês nascidos prematuramente está relacionado, em grande parte, às cesarianas e às induções do trabalho de parto realizadas antes da completa maturidade fetal. A tais intervenções, embora necessárias em situações especiais, também estão sendo associadas as taxas elevadas de morbidez e mortalidade materna e infantil.
  Acertadamente, a ANS tem feito gestões junto às operadoras de planos privados de saúde para reduzir o número de cesáreas, mas sabe-se que para isso objetivo será preciso remover os interesses ligados à chamada ôindústria da cesárea".
Sinal visível e palpável desse tipo de reação foi, e continua sendo, a guerra desencadeada por alguns setores contra as chamadas casas de parto, que são nada mais do que locais onde enfermeiros, a maioria pós-graduada em obstetrícia, assistem mulheres em partos normais, com índices relevantes de sucesso. Localizadas sempre perto de um hospital de referência com ambulância à porta para emergências decorrentes de eventuais complicações, elas representam, na concepção e na prática, a resposta mais barata, pertinente e adequada ao alto custo, aos riscos e aos transtornos inerentes ao procedimento operatório. Para a própria mulher, parece não haver termo de comparação entre um tipo de atendimento que lhe garante período mínimo de internação, com possibilidade de retomada quase imediata de suas atividades normais, e uma solução que, além de física e psicologicamente penosa, a obriga a afastar-se por longo tempo dos seus afazeres.
  Se a reação de algumas corporações poderosas vai permitir essa inovação num sistema privado de saúde, é assunto que cabe às partes interessadas resolver. Por suas implicações econômicas e sociais, já que os beneficiários dos planos somam hoje quase 40 milhões, seria razoável e necessário que o governo usasse de sua influência no sentido de resolver, de vez e efetivamente, essa grave e intrincada questão.
CARMEM ALMEIDA é presidente do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen)


Charges de Maomé, sob outro olhar

Walmor Macarini
  O profeta Maomé não se molesta com as charges que um jornal norueguês fez sobre ele – e reproduzidas por jornais europeus – porque está acima dessas pequenas coisas mundanas. Mas seus adoradores, estes estão brigando. Jesus não se incomoda se dizem que ele amou uma mulher, se com ela teve filhos, mas os cristãos mais ortodoxos são capazes de grande ira por isso. Os iluminados mestres que habitaram a Terra, desde os que se revelaram em eras remotas até os dos milênios recentes, estão todos unidos na missão de velar pelos habitantes deste planeta e de suas colônias circunvizinhas, mas seus adeptos se engalfinham em lutas religiosas.
  O enfoque que os analistas dão ao episódio das charges é sempre relacionado com o mero discurso do respeito ao culto e aos respectivos guias espirituais (e tal está nas Constituições de quase todos os povos). Mas pouco importam as charges, pouco importa o respeito ou não às crenças de cada um. Importa sim a fé que cada qual tem dentro de si; importa o respeito mútuo entre os seres humanos. Maomé nunca ensinou que se devesse queimar embaixadas por conta de gracejos do tipo que o chargista – de mau gosto e nada pertinente – produziu, porque Maomé não foi um líder político mas falava à alma das pessoas.
  O Profeta, pai do Alcorão – a escritura sagrada dos muçulmanos – pregou a adoração de um Deus único, o respeito ao ser humano, a valorização do pensamento, negando a obscenidade e a imoralidade. Durante os seus 23 anos de vida missionária foi um admirável mestre, assim como Jesus havia sido 700 anos antes dele, e Buda 600 anos antes do sublime rabi. Mas assim como os cristãos não seguiram os ensinamentos de Jesus mas passaram apenas a adorá-lo e a fazer-lhe súplicas, o mesmo se dá com grande legião de muçulmanos com relação a Maomé.
  Pelo decreto islâmico o Profeta não pode ser retratado e nem molestado, e por conta disso e à revelia do mestre, seus adoradores cometem barbaridades. Maomé exerceu missão pacifista, semeou sua luz e tudo proclamava ‘‘em nome de Deus, clemente e misericordioso’’, mas seus adeptos mais radicais querem agora incendiar a Europa. E islã quer dizer entrega, tem o mesmo significado de salam e de paz. O caso das charges não macula Maomé mas mostra o quanto os quase 1 bilhão e 300 milhões de muçulmanos do mundo pouco aprenderam da profundeza de seus ensinamentos.
  Iluminados mestres, que de tempos em tempos incorporam na Terra para derramar um pouco de luz, não se perturbam com o que fazem com eles os humanos. Maomé foi um desses avatares – que veio para salvar a Península Arábica obscena – mas enquanto futilidades como a das charges ainda incomodam seus adoradores, enquanto cristãos fanáticos postam-se como guardiães de Jesus e apossam-se dele e pregam divisionismos, com certeza ainda não aprenderam nada do que esses sábios mestres lhes ensinaram.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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