ESPAÇO ABERTO
Partidos, verticalização e promiscuidade
Francisca Verginio Soares
Com o fim da verticalização - regra pela qual as coligações partidárias devem ser replicadas nos Estados seguindo as coligações em nível federal - sacramentou-se a máxima de Maquiavel de que os fins justificam os meios. Está oficializada a promiscuidade das coligações na maioria dos estados. A lógica é mais ou menos esta: não importa se o parceiro no estado é inimigo mortal no plano nacional. Se se quer fortalecer o palanque para alcançar o triunfo nas urnas, o pragmatismo é o que conta. Por exemplo, no Acre e Alagoas, PT e PSDB, antagônicos na disputa pelo Palácio do Planalto, podem estar na mesma coligação. No Distrito Federal e na Bahia, o PSDB pode ter como adversário o PFL, parceiro indispensável na disputa pela sucessão de Lula. Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, o PFL ameaça divorciar-se dos tucanos para conquistar o governo do estado. Segundo os críticos da regra, ela engessa a construção de pactos políticos.
Concordo com Roberto Romano, professor de Ciência Política da Unicamp, que diz que se o Brasil fosse, de fato, uma república federativa, a liberação das alianças seria interessante, mas não é o caso. As alianças indiscriminadas favorecem as oligarquias regionais e partidos com maior número de caciques, como PFL e PMDB. Outro exemplo de vale-tudo eleitoral é Sergipe. No estado, o prefeito Marcelo Déda, candidato do PT para o governo, pode reunir nada menos que o PSDB e PMDB. É notório ver que Lula e o PT querem a reeleição, mas perseguem objetivos opostos em estados como Santa Catarina, Paraná, Maranhão e Amazonas. No Maranhão, o presidente quer apoiar a senadora Roseana Sarney (PFL), líder nas pesquisas de intenções de voto. Terá de enquadrar, porém, o PT, que hesita entre a candidatura própria e o apoio ao governador José Reinaldo Tavares, ex-aliado e atual inimigo da família Sarney.
Em Alagoas, o apoio do presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, a Teotônio Vilella Filho (PSDB) resultará numa situação hoje impensável nacionalmente com PSDB, PMDB e PT fazendo parte da mesma coligação. Se os três partidos tiverem candidato próprio à Presidência, como manter todos no mesmo palanque? O principal adversário é o PDT do governador Ronaldo Lessa. Mesmo que o PMDB mantenha a candidatura própria à Presidência, vai oferecer palanque para o presidente Lula em vários estados, como Paraná e Santa Catarina. O presidente do partido, Michel Temer, admite a aliança com o partido que estará trabalhando pela reeleição.
Enfim, ver-se-á uma miscelânea partidária onde será difícil distinguir quem é oposição e quem é situação considerando que nos palanques se ajuntarão legendas de matizes e campos ideológicos diametralmente opostos. Essa situação me remete a um romance clássico de George Orwel, A Revolução dos Bichos, numa cena em que de fora da janela, os bichos olhavam sentados à mesa os homens e os porcos e, ao final, eles não sabiam quem era porco e quem era homem.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente do departamento de Ciências Sociais da UEL, ISBL e Uninorte
Sobre a universalidade das oportunidades
Luiz Carlos Ferraz Manini
Mais uma vez o professor Aguinaldo Pavão lança a semente da discórdia através de um debate público. Porém, desta vez, sinto-me obrigado a concordar com sua argumentação em relação à reserva de vagas para professores negros e pardos no ensino superior (Contra cotas para professores, Espaço Aberto, 10/2). Esta é outra ocasião em que se desfralda um populismo absurdo numa medida inócua de falsa integração na nossa sociedade, tão marcada pelas diferenças e pela discriminação racial.
Estamos trocando o mito da democracia racial, em voga desde que Gilberto Freyre declarou a brandura das relações entre senhores e escravos, pelo mito da inclusão social, construído através de atos políticos sem nenhuma vinculação com as causas do problema, mas somente atacando seus efeitos. Da mesma forma, uma assembléia em Londrina sobre o problema da segurança nos faz pensar sobre isso. Em vez de gerar empregos, garantir uma educação básica de qualidade e desalienada, anuncia-se a compra de 10 novas viaturas e o envio de mais policiais para combater a criminalidade. Dessa forma pensamos: o homem já nasce criminoso? Ou será o delinqüente fruto de condições que não lhe permitem uma vida com o mínimo de dignidade?
Da mesma maneira, a instituição de cotas para professores não resolve um problema; aponta, logicamente, para a existência de outros, como por exemplo, o reduzido número de professores universitários pardos e negros. No entanto, isto é uma conseqüência de um defeito mais grave, que está na falta de uma educação que permita ao jovem acessar o ensino universitário e continuar por lá sua carreira.
Discordo do professor quando o mesmo afirma que estaremos trocando o sistema avaliativo de títulos, experiência e capacidade pelo critério fenotípico; no entanto, tolhemos a liberdade da disputa que deveria mediar estas relações. Cria-se um suporte extra para determinados candidatos, em detrimento de outros.
Não desprezo a história e a luta dos negros pela igualdade de direitos e oportunidades. Vivemos ainda em uma sociedade desigual, na qual há muitas disparidades a serem corrigidas. Apesar disso, a criação de regras desiguais de concorrência somente tende a acirrar ódios, consolidar a diferença, além de não reparar nenhum erro histórico, servindo apenas de trampolim eleitoral para os proponentes de tal idéia que, ao tentarem inovar e mostrar avanços sociais, apelam para a mais conservadora das medidas.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina
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