ESPAÇO ABERTO
Fim da chinelada
Samantha Buglione
As lembranças que tenho das chineladas de pequena são sempre engraçadas. Eram situações em que eu, uma pobre garotinha, colocava meus pais no limite. Esta é uma memória individual e não serve de parâmetro para pensar em nada o projeto de lei que visa abolir a palmada com o argumento de que se deve equipar - igualar - a relação adulto-adulto e criança-adulto. O problema do projeto não está no consenso óbvio de que ninguém cuida, educa ou ama na base da pancadaria, mas no pressuposto de incapacidade dos pais.
A relação entre criança (filhos) e adulto (pais) não é a mesma de dois adultos. A criança se subordina à autoridade do adulto e este lhe deve cuidado. Ao se criar uma legislação que equipare pais e filhos em termos de poder se dissolve a natureza desta peculiar relação. O pressuposto do cuidado, da autoridade e confiança será substituído pelo do perigo, do excesso possível e da violência. Não há duvida alguma que muitos pais ignoram os limites e que crianças sofrem violência em casa. Mas, para isso, já existe uma série de mecanismos legais de proteção do interesse das crianças, como a destituição do pátrio poder. Se o Estado não está cumprindo o seu papel é outra história. Agora, não se pode trocar os pés pelas mãos e dizer que os pais, no geral, não cumprem o seu.
Pressupor que os pais desconhecem a sua função de cuidado e educação e proibir a chinelada é pressupor que não estão aptos a esta função. O melhor, talvez, seria que o Estado promovesse cursos de capacitação para ser pai e mãe, tal qual carteira de motorista. Só pode dirigir quem tem a carteira. No nosso caso, só pode ter filhos quem foi aprovado.
O que me preocupa é que cada vez mais os espaços de liberdade e autonomia estão sucumbindo. Não se tem poder sobre o corpo, não se pode avaliar privadamente quando um filho merece uma palmada e quando apenas uma conversa é suficiente. É lamentável a presunção de culpa e incapacidade dos pais. Mesmo que existam vários pais que cometem verdadeiros absurdos e que, jamais, poderiam ser aprovados no hipotético curso; cabe, ainda, a pergunta: quem será o coordenador pedagógico? Quem definirá o que é ou não ser um bom pai e mãe? Haverá cartilha? O que temos aqui, com alguns exageros nos exemplos, é um alerta para o fato de que se esta a cada dia transferindo ao Estado a função de criar e educar os filhos.
Limitar ainda mais o privado, o espaço doméstico é liquidar com a democracia e a liberdade. A violência doméstica é preocupante sim, mas não se acaba com ela aniquilando o mundo privado e a liberdade: isto é um outro tipo de violência. Pressupor que as crianças são sempre pobres crianças é ignorar suas capacidades humanas. Uma coisa é um neném outra é um manezinho de cinco anos. Equiparar estas relações é compreender o princípio da igualdade de forma totalmente equivocada.
SAMANTHA BUGLIONE é mestre em Direito e doutoranda em Ciências Humanas na Universidade Federal de Santa Catarina
Namorar para crescer
Moacir Costa
Nos dias de hoje está difícil definir o namoro. Até alguns anos atrás, ele era um compromisso afetivo que duas pessoas tinham numa relação em que havia uma verdadeira troca no sentido do envolvimento amoroso, muitas vezes também sexual; enfim, um compromisso.
Hoje continua sendo compromisso, mas existe uma liberdade maior. As pessoas já não têm aquela solene obrigatoriedade do compromisso do passado. Namoro hoje tem um sentido de experimentar para ver onde vai dar. Até o nome mudou. Tanto que se fala em ficar, ou então se fala em rolo, ou outras expressões do momento.
A gíria muda; a terminologia é muito mais rica nesse sentido e existe mais espaço para as trocas no relacionamento. A mudança de certa forma é positiva, pois antigamente, quando se falava em namoro, entendia-se sempre como algo definitivo. Tão sério que muitas vezes o compromisso era mais forte com a família do que com o rapaz ou com a garota. E esse envolvimento era tão grande que às vezes chegavam a interferir na qualidade de vida a dois.
O ficar de hoje em dia tem a vantagem de oferecer maior liberdade para cada um testar as suas possibilidades, no sentido de se conhecerem melhor e conhecerem seus próprios desejos.
Afinal de contas, o namoro é uma experiência que facilita não só conhecer o outro, mas principalmente a si mesmo, suas limitações, suas possibilidades de envolvimento e de entrega, sua capacidade de aceitar o outro; o que é diferente de você.
A questão da sexualidade realmente é o passo seguinte. Pois quando você se define e faz uma escolha ou quando se sente bem num relacionamento, a questão da sexualidade vem junto. É inevitável, sente-se a necessidade de um conhecimento maior ou uma convivência mais íntima, para não se sentir usado e não usar o próximo e perceber o grau de sintonia e bem estar.
O desenvolvimento afetivo se faz também através do namoro. É extremamente importante para a vida adulta essa verdadeira educação sentimental, que passa pelas trocas afetivas, admiração mútua, sensualidade e disponibilidade para dar e receber amor. Esses são os ingredientes mais importantes para que a vida a dois seja mais gratificante.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo e mantém um serviço gratuito de esclarecimento de dúvidas sobre sexo pelo 0800-770-6543. Mais informações pelo site: www.projetoamarbem.com.br
- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].





