ESPAÇO ABERTO
Hosken esquina com JK
Christian Steagall-Condé
Nas mais de dez mil esquinas desta bela cidade, o mapa das ruas locais enseja um erro que só foi detectado nesses primeiros dias quentes de 2006, onde Hosken de Novaes cruza com JK. Ambos mineiros do interior, ambos discretos, ambos realizadores, ambos recolhidos às suas insignificâncias, como poucos de nós, no apagar de nossas luzes, quer sejam privadas ou públicas.
Mais do que nunca, as trajetórias de rara retidão desses caminhos (in)existentes encontram abrigo ao assemelharem-se, um como um presidente, o outro, como um vice-governador, plantando progressos.
Donos de uma integridade cívica de envergonhar a súcia de pilantras que toma de assalto esta, a julgar pela lente da politicalha atual, combalida república de colonial herança, esses dois mineiros deram o tom e, sem desafinarem sequer por um segundo fico imaginando com que corações tão doídos , encaravam espantados a pátria que os uniu, cada qual ao seu modo, estilo e pensamento.
Distando anos-luz desta corja atual e in-reciclável de canalhas bem-equipados e diplomados em astúcia de primeiro nível, estes sim, travestidos de patriotas e de (maus) comendadores, céleres contratantes dinásticos em gentilezas contratuais cruzadas, pinçando alguém da família do outro e ficando tudo em casa, como convém quando as coisas ficam entre amigos, hoje, mais do que nunca, esse nosso mineiro pé-vermelho, agora como mais um de menos na galeria esvaziada de notáveis homens públicos, é que vemos como fazem falta danada!
Na vida real da Londrina-cenário suas mais de 40 mil quadras, a José Hosken de Novaes, ainda inexistente, nem faz cruzamento com a Juscelino Kubitscheck de Oliveira porém, é no silêncio cada vez mais raro das noites e quando o tráfego descortês que nos caracteriza desaparece, que as pessoas com algum resquício de civismo parecem compreender que ambos, de fato, sempre se encontraram bem ali na esquina, bem quando a humildade começa e aonde uma vida, enfim, termina.
CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto e designer em Londrina
A matemática da vida
Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
Muitos acreditam que a vida do homem moderno pode ser resumida em números, embora isso não signifique que esteja ocorrendo uma onda global de esoterismo. Na verdade, essa forte ligação entre números e homens é resultado de uma antiga necessidade das civilizações: a construção das bases do conhecimento técnico. Assim, da busca de um instrumento para as Ciências Exatas chegou-se à influência numérica no campo das relações humanas. No entanto, essa parceria acabou resultando na substituição do individualismo pensante pelo coletivismo alienante.
No cotidiano, é comum ouvir as seguintes frases: Paciente da enfermaria 4, leito 6, Senha de atendimento número 43, 12 foram assassinados ontem de madrugada, entre tantas outras. Os números estão arraigados de tal modo na vida das pessoas, que Deus e Satã também são também conhecidos por números (o Criador seria o infinito, ou seja, o 8 deitado, e o Diabo seria 666, embora possa ser também 999, afinal ele é bem danado para dar um jeito de atormentar a vida da humanidade). Fora o fato de a carteira de identidade se basear em um conjunto de números para provar que existimos. Isso mostra que os números são como uma nova linguagem adaptada para um mundo que precisa lidar com grande quantidade de informações. E qual o malefício desse novo idioma? É que ele mascara a realidade dos fatos.
Se analisarmos as frases do cotidiano citadas acima poderíamos fazer os seguintes questionamentos: Quem é o paciente da enfermaria 4? Por que ele está internado? Como ele está se sentindo?, Quem é o portador da senha 43? O que ele veio fazer para obter aquela senha?, Quem foram as pessoas assassinadas de madrugada, e por quê? Você notou que a ênfase nos dados numéricos não deixou espaço para que mais informações relevantes pudessem ter sido consideradas? Isso mostra que a realidade é, às vezes, vista como um amontoado de números que surgem sem parar, de todos os lados, mas que não dizem quase nada. E, muitas vezes, o cidadão adota, com isso, a estratégia de se isolar em sua vida particular. Ao mesmo tempo, se torna mais um número na estatística da manipulação social.
Percebe-se que os números são capazes de transformar os indivíduos em um bloco homogêneo, talvez de formato cúbico (afinal números e a matemática das figuras sólidas combinam), pois são guiados a vivenciar a rotina de maneira ordenada (como em uma seqüência numérica). E quanto às nossas experiências de vida, aos nossos momentos de felicidade, aos nossos dias de tristeza, à nossa sabedoria de anos de maturidade, à nossa criatividade vinda de observações de fatos banais? Tudo isso reduzido a números?
O que faz a humanidade ser ela mesma é o fato de que sua existência não pode ser medida, pois todos os valores que ela constrói são passados para outras gerações e isso ocorre sem parar. Quando se valoriza em excesso os números se está limitando o ser humano, visto que os números são exatos, parciais, frios e não admitem contestações (características opostas à da humanidade). Além disso, a essência humana não tem um valor que possa ser considerado em termos numéricos como se fosse o preço de uma mercadoria, já que seu valor é espiritual. Dessa forma, não seja uma pessoa, mas a pessoa que romperá com essa mentalidade numérica vigente.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina
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