ESPAÇO ABERTO
Alfabetização estética
Fernando Stratico
No país dos desfavorecidos, em que as riquezas se concentram nas mãos de 10% da população, os bens culturais também estão nas mãos de poucos. Como bem cultural, a arte também deveria ser apropriada e usufruída pela maioria. Porém, o poder público, apesar de todo o seu discurso, favorece a existência de produções artísticas como O Fantasma da Ópera, estreada no ano passado em São Paulo, e que custou R$ 5,1 milhões aos cofres públicos, por meio da renúncia fiscal. Assim, é inevitável lançar a pergunta: é legítimo empregar o dinheiro público em produções como esta, que certamente não são destinadas à população sem arte ou sem acesso aos bens culturais?
Ideologias de esquerda sempre apregoaram esta necessária apropriação dos bens culturais pelas classes trabalhadoras. Isto implica em apropriar-se daquilo que sempre lhes fora negado: acesso à terra, ao trabalho, à saúde, à moradia, e, por que não, às artes. Existem aqueles, no entanto, que argumentam que as classes trabalhadoras não precisam se apropriar de arte nenhuma, porque já possuem as suas manifestações artísticas. Isto se expressa pelo artesanato, pela música e pelas danças populares. Como resistência cultural, esta é, na verdade, a estética necessária à sobrevivência, que, tão claramente, dá força, energia e até o sustento a tantas comunidades brasileiras.
Mas, é bom lembrar que arte é conhecimento e que a grande maioria da população não tem acesso a esse conhecimento, e, deste modo, fica confinada a consumir uma arte massificada (se é que pode ser chamada assim), cujo objetivo principal é o lucro. Isto fica mais evidente entre as populações urbanas. Por outro lado, aqueles que detêm o poder, os quais controlam a ciência e a tecnologia, também controlam as instituições nas quais o conhecimento é produzido. Nestas instituições, tais como, universidades, escolas, museus, etc., a arte é estudada e produzida, o que faz avançar a sua compreensão e experiência.
E como para se entender ciência é preciso estudá-la e vivenciá-la, para se compreender e apreciar a arte é preciso também estudá-la e conviver com ela. Assim, cabe ao poder público estabelecer políticas e estratégias que proporcionem o acesso aos bens culturais, de maneira gradativa e democrática, tornando possível, o que poderia ser caracterizado como alfabetização estética. Porém, não basta apenas oferecer arte ou incentivar manifestações populares pelos quatro cantos do Brasil. É necessário educar para a arte, assim como é necessário educar para as ciências.
O acesso aos bens culturais deveria acompanhar o avanço em todos os setores sociais, tais como o acesso ao trabalho e à saúde; no entanto, no país da desigualdade, a verba para a cultura é reduzidíssima. Dentro da escassez de recursos, vemo-nos no dilema de reclamar pela produção de arte de alto nível para uma minoria, ou reclamar pela oportunidade de acesso aos bens culturais aos desfavorecidos. As políticas públicas relacionadas à cultura e a arte não podem ignorar estas questões e isentar-se de suas responsabilidades.
FERNANDO STRATICO é doutor em Artes Cênicas e professor do departamento de Música e Teatro da UEL
Sobre o centenário de Sartre
Roberto Carlos Simões Galvão
Vasculhei a imprensa ano passado a procura de informações relativas ao centenário de nascimento de Jean-Paul Sartre. Quis saber o espaço que o filósofo ocuparia na mídia, vinte e cinco anos após sua morte em abril de 1980. Na imprensa televisiva pouco se falou de Sartre. Os jornais e revistas impressos foram igualmente parcimoniosos ao enfocar o filósofo premiado com o Nobel de literatura em 1964. A Veja trouxe, no mês de abril o ensaio Sartre: 100 anos, assinado por Roberto Pompeu de Toledo. A Folha de S. Paulo dispensou maior atenção ao pensador: Sartre renasce das cinzas, dizia a manchete do caderno Mais! em 12 de junho. No mesmo mês, dia 22, a Isto É trazia reportagem intitulada Cem anos essa noite. Em setembro a Veja trouxe nova matéria sob o título O que sobrou de Sartre?.
Lendo as reportagens o que se pôde encontrar foram muitas críticas e um certo desprezo pelo autor de O Ser e o Nada. Ideólogo ultrapassado, exibicionista compulsivo, foram alguns dos adjetivos atribuídos a Sartre. O mesmo não se deu no exterior. Congressos, exposições, relançamentos de obras de Sartre, e muitas matérias na imprensa, quase sempre enaltecendo o pai do existencialismo contemporâneo. Uma universidade européia chegou a organizar um site na internet com fotos e documentos relativos à vida e a obra de Jean-Paul Sartre. Um nome que não só esteve presente enquanto o existencialismo esteve em moda, comentou o diário suíço Neue Zürcher Zeitung, mas que, durante quatro décadas, representou toda uma época - o pós-guerra.
A Biblioteca Nacional da França, em Paris, apresentou uma exposição com cerca de 400 documentos ligados à vida e à obra do escritor e filósofo. A mostra fez parte das comemorações do centenário do nascimento de Sartre. Vários debates sobre a obra de Jean-Paul Sartre foram realizados ao longo do ano. Na Alemanha esta tentativa de revisitar a obra de Sartre encontrou ressonâncias através de uma série de lançamentos no mercado literário.
No Brasil a editora Nova Fronteira também relançou alguns dos clássicos de Sartre. Uma crítica freqüente na imprensa brasileira, no ano do centenário (que também foi o Année du Brésil en France), esteve relacionada ao espaço ocupado por Sartre na mídia de seu tempo. Muito do que li remeteu-me à obra Em defesa dos intelectuais, quando Sartre advertia: Nenhuma sociedade pode se queixar de seus intelectuais sem acusar a si mesma, pois ela só tem os que faz.
Durante décadas o nome de Sartre esteve associado a clichês e boatos. Julgamentos bem fundados foram raros. Porém, ao menos na França sua presença sobreviveu à hostilidade e à indiferença.
ROBERTO CARLOS SIMÕES GALVÃO é mestrando em Fundamentos da Educação pela Universidade Estadual de Maringá
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