Passividade moral e ativismo diabólico

Stuart Martin Hook
  Uma das coisas mais perturbadoras da realidade brasileira é que está começando a ter muito mais em comum com um mundo nominalista religioso do que com o de forma declarado mundo cristão, de uns séculos atrás. Podemos ver em todos os cantos uma doença patológica: a raiz de um ponto de vista da vida basicamente materialista. Uma vida marcada por oportunismo e pragmatismo. Nessa ótica, o nível de moralidade está sendo caracterizada por pessoas que são cegamente passivas na sua submissão para uma determinação que, em vigor, deixa todas completamente irresponsáveis. Portanto, obrigações morais e também decisões têm a tendência de ser praticamente sem sentido. Na sua melhor forma elas são apenas formas de palavras, racionalizações e decisões que têm sido ditados pelo momento.
  Naturalmente nem todos são materialistas indisciplinados, há alguns que possuem uma consciência moral e que enfrentam, por exemplo, os problemas da crescente violência, a exclusão social, a corrupção etc. Contudo, a maioria está contente por simplesmente observar todo tipo de atrocidade espantosa numa ‘‘obediência’’ para a formação de uma cidadania indiferente e letárgica.
  No nível de atividade política e econômica, essa passividade moral é equilibrada ou até preponderada por ativismo diabólico. Há aqueles poucos, que possuem a solução em suas mãos, o poder, influência e dinheiro para transformar este lindo país num lugar melhor, mas estão infelizmente gangrenados por desejos egoístas e uma falta de compaixão. Cristologicamente essas pessoas andam com vidas sem propósitos.
  Todavia, a grande tragédia do nosso tempo não é a malícia dos perversos e ímpios enquanto a futilidade impotente das melhores intenções dos ‘‘justos’’ e ‘‘bons’’. Quantas entidades religiosas estão tentando fazer uma diferença? Quantas ONG’s existem em Londrina? Quantas boas obras estão sendo feitas enquanto você lê essas palavras? Sim, há justos e bons, mas evidentemente não é o suficiente para curar o Brasil da sua doença terminal. Temos que procurar o remédio. A obrigação moral de todos é para considerar as necessidades da humanidade e não a posição míope que temos. É necessário uma restauração da consciência moral e o resgate de uma responsabilidade autêntica.
  Infelizmente, mesmo que princípios morais ainda têm respeito, a moralidade tem perdido contato com as realidades da nossa situação. Somos vítimas da teorização e estrangeiros para a prática de transformação. Essa forma de condição da irresponsabilidade e passividade é extremamente perigosa, e dificilmente condutivo à moralidade autêntica. Até que grau nós podemos supor que seguindo de forma passiva e submissa - pelo menos não por falta de opção - o Brasil está agindo como o país cristão que se declarar ser?
STUART MARTIN HOOK é natural da Inglaterra e aluno do curso de mestrado na Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina


As ciganas do Calçadão

Walmor Macarini
  O Calçadão, no centro velho de Londrina, não pertence a ninguém e pertence a todos. É também das ciganas. Por estes dias elas são assunto na seção de cartas desta página, porque há aqueles que se incomodam com elas, e, naturalmente, os que as admiram. A cidade, construída por gente de 33 etnias – que depois foram se diluindo e resultaram nas 8 atuais – nunca fez distinção entre as gentes que aqui aportaram para ver a sorte e prosperar.
  As ciganas do Calçadão são iguais a todos que Londrina acolhe. Os que as repudiam implicam com o assédio delas e com seus vestidos e adereços extravagantes. Mas se assim não se trajassem, elas não seriam ciganas. Talvez estivessem desfilando nos salões elegantes com roupas de grife ou nas passarelas com Gisele Bündchen. O Calçadão é belo pela multiplicidade de cores, de fisionomias e de cheiros. Ali tem, inclusive, assaltantes. E bancos, que também assaltam.
  Tem guardas municipais ocupando-se de tagarelar, quando não estão correndo atrás de vendedores de goiabas. Tem idosos contando histórias de antigamente. ‘‘Quando eu aqui cheguei...’’, eles começam, e por aí vão desfiando lembranças. A história de Londrina ainda caminha pelas pernas de seus personagens. As ciganas – visitantes ocasionais – formam a diversidade étnica que fundou e compõe a cidade. O mundo também é feito de ciganos. Eles povoam a Terra desde longínquas eras.
  No Calçadão tem louco pregando bíblia e maldizendo os pecadores. Tem vendedores de quinquilharias, tem malabaristas, tem gente ‘‘botando conversa fora’’. Se o Calçadão é do povo como o céu é das pombas e pombinhas – que emporcalham a cidade com seus cuspes – então ali é um ponto neutro. Os ambulantes não pagam imposto. Mas o pouco que ganham, mal dá para o sustento próprio. E a maioria sustenta famílias.
  O Calçadão é interessante pela presença dessas figuras diferenciadas. Por ali também passam os políticos, porque o caminhar é livre. Não é preciso segregar ninguém, desde que se mantenha o princípio da ordem e da liberdade de ser e dizer. O som alto dos locutores das lojas, este sim precisa ser proibido, pela quebra da lei do silêncio sustentável.
  Ontem, com a notícia da morte do Doutor Hosken, lembrei-me da vez que ele me puxou pelo braço – um estilo seu, como das ciganas – e, sem dizer para que, foi me conduzindo até o vendedor de queijo mineiro e me presenteou com dois. Não fosse o Calçadão, eu não teria encontrado o ilustre homem público e nem desfrutado, por aqueles instantes, de sua amável companhia. E dos queijos.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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