2006, crescimento ou controle inflacionário?

Rafael Lopes Antunes
  O ‘‘bem-sucedido’’ ano de 2005 foi marcado por sucessivos superávits nas contas públicas, o que no acumulado do ano resultou em um superávit primário (arrecadação líquida dos gastos públicos) de 5,6% do PIB, 1,35 pontos percentuais (pp) superior à meta fiscal definida pelo governo de 4,25%, e 0,3 pp superior ao mesmo indicador do ano anterior, nada mal para um país que detém status mundial no quesito carga tributária.
  Mesmo diante desses resultados, o déficit nominal (incluem-se os juros da dívida) ainda se encontra em torno de 2,7% do PIB em função do elevado patamar das despesas com juros nominais que até novembro acumularam R$ 146,5 bilhões (8,3% do PIB), comparativamente a R$ 116,7 bilhões (7,3% do PIB) no mesmo período de 2004. Assim, o superávit primário ganhou destaque como grande pilar de sustentação da política econômica.
  A lógica consiste na geração de superávits primários, com o intuito de reduzir o déficit orçamentário do governo ano a ano, reduzir o montante da dívida, para que num horizonte temporal possamos estabilizá-la e iniciar um processo de redução do valor absoluto dos juros. E assim caminham as aspirações dos economistas para 2006 no âmbito da política fiscal.
  Especificamente na política monetária, o direcionamento no ano passado foi o controle da inflação através do instrumento ‘‘taxa de juros’’, que já foi reduzida em 0,75 pp na primeira reunião do Copom em 2006. Mesmo diante da maior redução dos últimos tempos, muitos analistas ainda esperavam mais, entretanto a ponderação nas ações persiste.
  A inflação em 2005, 5,69% (IPCA), patamar acima do objetivo de 5,1% do Copom e da meta de 4,5%, entretanto, dentro do intervalo de 2,5 pontos percentuais permitidos. Neste contexto, que venha um aumento real de 13% do salário mínimo, que estrategicamente tentar cumprir de longe uma antiga promessa de candidatura. Entretanto, para quem anuncia um espetáculo de administração pública em 2006, controlar um possível aumento de preços não é problema, a solução a sociedade já conhece, infelizmente.
  Mesmo diante de alguns indicadores de otimismo para 2006, o Banco Central projeta um crescimento e inflação em torno de 4,0% e juros de 15% ao final do ano, isso se a mais velha vilã da sociedade brasileira não atrapalhar a brincadeira: inflação.
RAFAEL LOPES ANTUNES é graduando de Economia na Universidade Estadual de Londrina


A universalidade dos santos

Walmor Macarini
  Não é porque certas religiões não acreditam em santos que eles deixarão de existir e de assistir aos fiéis de todas as crenças. Não é porque Maria, a mãe de Jesus, não é aceita por certas instituições religiosas que ela perderá a divindade de que já era detentora ao aqui chegar com a missão de gerar o avatar que viria. Não há santos católicos. Há santos universais, embora a Igreja católica os adote, pelo fato de a maioria deles, em vida, haver tido vivência ligada ao catolicismo. Também não significa que são santos apenas aqueles que determinada religião os consagre como tal, porque há milhares deles, nas elevadas hierarquias, que não figuram na listagem conhecida. Os santos, catalogados ou não, estão todos irmanados. Os homens é que não estão.
  Nos trabalhos sérios de socorro, por via da incorporação, também comparecem (e se manifestam, ou não) almas de líderes religiosos e fiéis das mais diversas doutrinas, incluindo os mais radicais e outrora descrentes dessa possibilidade. Muitos, por não encontrarem o Céu que esperavam e constatar que as coisas são diferentes do que pregavam, vagam meio desorientados e encontram abrigo no círculo desses obreiros que lhes dão acolhida e orientação. Outros, mais evoluídos, se apresentam para ajudar. Os testemunhos são freqüentes. E ali chegam, por encontrar um facho de luz, também integrantes da mesma doutrina promotora de tais reuniões, assim como professadores do culto esotérico, igualmente na busca de doutrinação ou para auxiliar.
  Não é a erudição acerca dos textos bíblicos e o acúmulo de conhecimentos sobre as coisas místicas que irão produzir, apenas por isso, um ser iluminado. O conhecimento, a elevação da consciência, o encontro com seu Deus interno, a ação, este o caminho. Mais vale um belo gesto que um milhão de palavras se estas não estiverem impregnadas da impulsão do amor. Só os sentimentos elevados e os avançados estados de luz, que independem de vinculação religiosa, darão ao ser a leveza que o impulsionará para as altas esferas.
  Dar umas férias à freqüência aos templos e entrar no silêncio do santuário interior proporcionaria a oportunidade de ouvir o sussurro da própria alma. Escutar a voz que vem de dentro de cada ser é ouvir a voz de Deus. A Providência Divina dotou cada qual da capacidade de percepção das coisas da Terra e do Céu. Tudo o que se ouvir de terceiros e se ler (incluindo textos como este) sobre as coisas transcendentes, deve servir apenas como incentivo, porque a verdade – que é uma apenas – cada qual a tem, bastando permitir que se manifeste.
  Enquanto o homem tiver receios, temer a morte, tiver dúvidas sobre a razão de sua existência, temer supostos castigos divinos e vislumbrar demônios em toda a parte e especialmente no que estiver fora de sua crença, ele ainda não encontrou a verdade. E esta, se ele a buscar, não a achará, porque ela costuma chegar como um lampejo. Como de alguém que, encontrando-se no nevoeiro e não souber da existência da clareira – por nunca havê-la concebido e por isso não conhecê-la – de repente vê-se dentro dela e passa a enxergar tudo claramente, em todas as direções.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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