ESPAÇO ABERTO
Foguetório no refúgio das garças
Célia Musilli
Londrina fica contente quando recebe investimentos. Londrina fica triste quando as empresas, em vez de somar pontos para a cidade, andam na contramão do que se entende por civilização e qualidade de vida. No último sábado, os moradores do Jardim Universitário, Jardim Hedy e outros bairros nas imediações da Fábrica 1 foram contemplados com uma explosiva festa de aniversário da choperia. O estabelecimento, tão bonito, tem desrespeitado o sossego dos moradores desde que foi inaugurado há um ano. De quinta a domingo a música ao vivo deve agradar a clientela, mas irrita as pessoas que moram por perto e querem ter sossego em casa. Neste caso, uma perguntinha básica precisa ser feita: como é que um restaurante sofisticado, que teve um investimento de milhões de reais na sua construção, não criou um espaço com acústica adequada para poder oferecer shows sem que dois bairros escutem a música? Até onde eu sei, ninguém quer uma orquestra tocando na sala ou um grupo de pagode instalado no quarto.
Mas este fundo musical não é nada, perto do barulho da bateria de fogos que comemorou o primeiro ano do estabelecimento no fim de semana. Detalhe: o foguetório, que começou quase às 23 horas, não foi feito no terreno da choperia, mas sim num terreno do outro lado da Avenida Castelo Branco, próximo ao Lago Igapó 3 que, entre suas atrações, tem um refúgio de garças, um dos orgulhos da cidade. Não é preciso ser muito inteligente para compreender que devemos preservar a natureza em vez de torturá-la. Mas os fogos foram detonados a poucos metros dos ninhos das aves e também de algumas residências.
A Folha, em diversos editoriais, já se posicionou como um veículo favorável às leis do silêncio e do sossego que regem a boa convivência urbana. Como integro o time de profissionais deste Jornal, faço aqui um apelo ao respeito, à consciência e à cidadania. Em vez de perturbar gente e bichos, a Fábrica 1 que também é um cartão-postal de Londrina poderia fazer um link entre seus negócios e o habitat onde está instalada, ajudando a preservar o lago, as árvores, as aves e o sossego das pessoas. Cada vez mais as empresas modernas investem em projetos de responsabilidade social e o meio ambiente pode ser acolhido dentro dessas propostas.
Fica ainda mais uma perguntinha básica: por que o poder público permite ainda que áreas tradicionalmente residenciais se transformem do dia para a noite e sem consulta aos moradores que também pagam impostos em áreas comerciais que vão gerar barulho, movimento e estrangulamento do trânsito? Cadê o tão propalado planejamento e o respeito ao crescimento urbano inteligente? Alguém aí pode me responder?
CÉLIA MUSILLI é jornalista e editora de Cultura da Folha de Londrina
Perspectivas da construção civil
Junker de Assis Grassiotto
No último dia 20, esteve em Londrina o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e o presidente da CEF, Jorge Mattoso. Vieram para nos trazer boas notícias. Nesse dia foram autorizadas a execução de obras, pela prefeitura, no valor aproximado de R$ 60 milhões, se incluirmos a contrapartida do município, destacando-se: a transposição da BR-369 na altura da PUC, a duplicação da Goiás, a transposição da PR-445 na continuação da Ayrton Senna. Coube também à CEF assinar um contrato para a construção de 500 apartamentos de um programa que prevê duas mil moradias populares.
Além desses dois pacotes, cabe aqui citar o empenho do nosso prefeito para conseguir junto ao BID um empréstimo da ordem de R$ 70 milhões (cuja contrapartida chega a mais R$ 20 milhões) o que deverá ocorrer ainda este ano. Assim, só através desses contratos, estaremos investindo no setor R$ 150 milhões (sem abordar os aspectos ligados à iniciativa privada que continuará operando, normalmente). Um valor muito significativo para a cidade, que poucas obras tem feito nos últimos anos. Essa mudança de perspectiva é altamente positiva. A construção civil tem uma enorme capacidade de dar resposta imediata quando solicitada. Basta a contratação de uma obra para se gerar riquezas e empregos.
O mais importante, porém, não é isso. Quando o cidadão comum anda pelas ruas e bairros vendo construções, se anima com a constatação do progresso. Motiva-se e parte também para iniciativas pessoais, tomando atitudes de investimentos em seus negócios. O surgimento de uma avenida traz com ela a criação de inúmeras oportunidades. Às suas margens aparecem novos loteamentos, casas comerciais, enfim um novo bairro. Cria-se um clima de entusiasmo, mais importante do que o próprio empreendimento público em si.
Nesse quadro auspicioso cabe um pedido ao senhor prefeito e demais autoridades envolvidas, especialmente ao nosso secretário de Obras e ao presidente da Cohab: fracionem as obras! Por quê? Porque se a prefeitura licitar pequenas obras, certamente as pequenas construtoras poderão participar da execução e a riqueza gerada será automaticamente distribuída pela cidade como um todo. Isto não quer dizer que as grandes empresas serão impedidas de trabalhar. Claro que não. Mas isto quer dizer que as pequenas não serão alijadas do processo.
À CEF também uma solicitação especial: que estabeleça critérios abertos às pequenas construtoras, que saberão aproveitar as oportunidades dadas, assim elas virão a ser as grandes de amanhã. No caso citado, em que uma única grande construtora vai fazer 500 apartamentos, poderiam ter sido contratadas 10 pequenas que fariam 50 apartamentos cada. Certamente isso daria um pouco mais de trabalho, mas os riscos diminuiriam e a riqueza seria distribuída em Londrina como um todo, de forma muitíssimo mais homogênea, atendendo diretamente aos interesses da nossa comunidade.
JUNKER DE ASSIS GRASSIOTTO é engenheiro civil, doutor em Arquitetura e Urbanismo e presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Londrina
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