Operação ‘camufla-buraco’

Antonio Wrobleski Filho
  Qualquer iniciativa batizada como ‘‘tapa-buraco’’ gera desconfianças imediatas em relação ao seu resultado efetivo. Como se a infeliz, porém real, denominação da operação do governo para recuperar as rodovias já não bastasse para o descrédito geral, o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, admitiu que o material que será usado nas obras dura, em média, um ano. ‘‘Teremos de fazer a obra em definitivo depois’’, prevê Nascimento, segundo noticiou a imprensa. O serviço será realizado em seis meses. Metade do tempo que vai durar seus resultados. Isso, provavelmente, é algum tipo de recorde.
  Foram liberados R$ 440 milhões para a recuperação de 26,4 mil quilômetros de rodovias. Para justificar a verba pública, o ministro prometeu: ‘‘Vamos fazer uma operação para valer. Nos próximos três meses a gente deve ter uma situação bem diferente nas estradas’’. Faltou dizer que daqui a 12 meses a situação será a mesma de hoje. Ao custo de quase meio bilhão de reais. Não é preciso ser especialista para perceber que não se trata de uma iniciativa para recuperar estradas, mas apenas para esconder buracos. Esconder durante um ano, período suficiente para atender ao calendário de Brasília, mas ínfimo para os interesses nacionais.
  Os entraves e gargalos para a movimentação de mercadorias são um dos principais obstáculos para o desenvolvimento do país. Os buracos das estradas e a falta de alternativa às rodovias encarecem o frete em 30% e o custo total de logística das empresas em 10%. É claro que isso chega ao bolso dos consumidores, além de corroer a competitividade da indústria nacional.
  A infra-estrutura precária também impede o desenvolvimento regional. Se existisse fácil acesso aos grandes centros consumidores, certamente as empresas investiriam mais em estados fora do Sudeste. Muitas vezes, por vários motivos, é mais interessante produzir no interior do país. O problema, nesse caso, é fazer os produtos chegarem aos compradores.
  É justo lembrar que essa situação não é de mérito exclusivo deste governo. A questão nunca foi tratada com a devida seriedade no Brasil e, infelizmente, o problema está se agravando. Estudo da consultoria Trevisan revelou que, no final dos anos 90, 2,5% do PIB nacional eram aplicados no desenvolvimento de obras básicas de transporte, o que já era pouco. No período entre 2000 e 2003, o volume de investimentos nesse setor caiu para 1,5% do PIB.
  Além de mais dinheiro, também é preciso pensar em infra-estrutura de transportes em um sentido mais amplo. A priorização das rodovias em detrimento de outros meios mostrou-se um erro de planejamento. A movimentação por meio de caminhões sobrecarregou a malha viária e a péssima conservação das estradas encareceu demais o transporte. Porém, as alternativas são escassas, pois as ferrovias continuam relegadas ao segundo plano e os rios, intransitáveis.
  Em tempo, segundo o Houaiss, tapa-buraco significa: ‘‘Indivíduo sem função definida que substitui outro temporariamente’’. Coincidentemente ou não, uma definição aplicável ao comportamento de muitos ocupantes de cargos públicos no Brasil.
ANTONIO WROBLESKI FILHO é presidente da Ryder Logística em São Paulo


Aceno para caminho mais fácil

Walmor Macarini
  Se cada indivíduo tomasse consciência de que é um ser espiritual (usando temporariamente vestimenta carnal), a vida terrena resultaria muito mais amena. Porque ele então entenderia a razão das coisas que acontecem com ele e ao seu redor. Compreendendo a realidade – a que está oculta aos olhos físicos – não encontraria razão para tanta disputa com os iguais terrenos.
  Todos os ensinamentos do mundo de hoje são no sentido de alfabetizar o homem, proporcionar-lhe conhecimentos que irão prepará-lo profissionalmente, abastecê-lo de cultura, eventualmente convertê-lo num intelectual, enfim municiá-lo de instrumentação para ele enfrentar a concorrência e ‘‘vencer na vida’’, como se diz. Não faltam dedos apontando para que siga uma religião, de preferência a tradicional do meio familiar. Seguir uma tradição, em tal caso, é a demonstração clara de que não há buscas e descobertas individuais mas o simples seguir a uma caravana, sem se importar para que rumo vai.
  O homem dá importância a tudo o que tenha a ver com o aprendizado convencional, o que é ditado genericamente pelo Estado e pelo convencionalismo social. Tudo com o sentido implícito da competição. Conhecimentos não fazem mal, porque nececessários à vida, mas não apenas isto. Só conhecer coisas e artifícios desta existência passageira irá produzir um ser horizontal, linear, não um ser vertical. O homem não busca saber o que ele é, e esta seria sua melhor graduação. Porque assim estaria se preparando para o exercício da Grande Vida e, por antecipação, seria feliz também aqui.
  Por imaginar-se pequeno e um fragmento autônomo no Universo, o homem situado nessa condição começa a disputar com seus semelhantes, e assim converte sua vida num grande campo de batalha. Cada ser individual não é a roupagem carnal que veste e sim um espírito de grande luz, cuja dimensão toca ‘‘a Terra e o Céu’’. Se ele galgar a si mesmo se encontrará nos muitos corpos que o compõem, desde os mais densos até os mais sutis. Saberá então de sua grandeza, e então não terá dúvidas e medos, e o amor triunfará.
  O indivíduo não é o seu corpo físico que, no entanto, precisa ser cuidado e não molestado por vícios – drogas, fumo, bebida, excessos físicos, submissão a perigos desnecessários, auto-flagelação. Porém o corpo não é o seu fundamento. O homem, com absoluta certeza, não é isto. E se não é essa roupagem de ‘astronauta’ que o espírito precisa utilizar para a sua viagem a este plano denso da tridimensionalidade, então sua essência primordial é que é a única realidade. E a esta ele não está dedicando cuidados. Chegará então o momento de ele constatar que os penduricalhos que foi juntando não lhe servem para nada. E terá de retomar o caminho de volta ou regredir para ‘moradas‘ inferiores, recomeçando tudo de novo.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


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