ESPAÇO ABERTO
Democracia, sempre!
Rudolf Minikowski Ziegler
Quando de seu artigo PT nunca mais!, publicado em 11/01/2005, Maria Aparecida Vivan de Carvalho, em meio a hipérboles, parece se olvidar da história republicana.
O PT constitui, talvez, uma experiência única, por haver congregado por trás de suas fileiras três correntes tão peculiares quanto díspares, a saber: os católicos dos movimentos eclesiais de base, trabalhadores e sindicalistas, além de militantes e pensadores esquerdistas. Daí vem a riqueza do partido: suas correntes e suas idéias.
Mais do que isso, é um partido de classes. Quem o conhece por dentro, sabe: ali está representado o povo do Brasil. No PT se encontra a gente negra, militante do movimento negro; encontram-se enfermeiras do HU, aquela gente alcunhada de trolls por alguns residentes; encontram-se professores universitários, advogados e médicos; encontram-se representantes de associações de bairro a discutir problemas de suas comunidades; encontra-se a gente sem-terra; encontra-se operário de mão calejada. Fidelidade partidária, militância e forte marca ideológica. Tem representatividade, tem história, tem sangue. Tem programa. Isso não se apaga. Isso não se joga no lixo assim, gratuitamente.
O PT funcionou nestes 25 anos como vertedouro da insatisfação de parcelas importantíssimas da sociedade brasileira. Mesmo antes de integrá-lo, muitos de seus futuros membros lutaram pela redemocratização do país. Já como partido constituído, um dos responsáveis pelas conquistas populares plasmadas na Constituição. Histórico defensor dos direitos humanos, dos direitos do negro, da mulher e do homossexual. Internacionalista. Eleição interna direta para seus cargos de direção nos três níveis, municipal, estadual e nacional. É um partido. Quem mais se pode assumir assim? Não temos partidos políticos. Só temos um: o PT, (...) organizado e nacional. Mas não temos uma vida de partidos políticos (...), disse Roberto Mangabeira Unger, filósofo e jurista, professor em Harvard.
Doutra parte, resta patente que graves equívocos foram cometidos ao largo de seu caminho. Na busca por corrigi-los, em recente eleição interna seus filiados deram nova composição ao diretório nacional, bem como aos diretórios estaduais e municipais. E não parou por aí: Delúbio Soares e Silvio Pereira não fazem mais parte das hostes partidárias.
Por seu passado e por seu presente, o PT merece da sociedade brasileira a oportunidade de se reerguer e assim contribuir para o desenvolvimento nacional. Que o pensamento reacionário faça água. Democracia, sempre!
RUDOLF MINIKOWSKI ZIEGLER é estudante do 5º ano de Direito da Universidade Estadual de Londrina
A constituição divina do homem
Walmor Macarini
Nada tem mais força criadora do que o uso controlado do pensamento e do sentimento. Esse controle e esse domínio são possíveis, e se não ocorrem com mais freqüência é porque o homem cria limitações, por desconhecer o próprio poder. Pensa-se um ser pequeno e imagina-se apenas a dimensão de sua estatura tridimensional aquela que enxerga com os olhos carnais. Proclama-se pequeno diante de Deus, mas isto não é nenhuma reverência ao Criador e nem um gesto de humildade. É, antes, a negação de Deus, por considerar-se um ser à parte. Portanto, com a presunção de ser dissociado. Supõe que sua essência supra-física também tenha sido criada no ventre materno.
O homem não pode existir apartado de Deus entenda-se a Mente do Universo ou outra denominação que se queira dar porque o compõe. Ao proclamar-se pequeno, assume uma postura de arrogância, e não pela suposição de pequenez mas por arrogar-se a condição de uma criatura apartada, supostamente com vida própria, eis que não se posiciona junto mas diante de Deus; atribui-se uma posição, a de estar defronte de alguma coisa e não de estar integrado a essa coisa.
Ao não compreender-se com o idêntico poder divino, ele nega Deus, por não reconhecê-lo em si mesmo. Se somos um componente do Criador não podemos nos pensar à margem. Se compomos o organismo de Deus, somos esse organismo, porque feitos da mesma substância. (As palavras são escassas para definições, porque não há linguagem que possa definir Deus). Homem e Deus são indivisíveis. Não há, pois, parte pequena e parte grande, mas tão somente o Todo. Somos pulverizações de Deus e então somos ele. (O pronome figura aqui como mero recurso de escrita). É inconcebível um Deus só, supostamente apartado de toda a sua criação, porque essa criação plasmou-se em si mesmo.
Se o enigma da Criação é indecifrável, é fácil entender que o homem e todos os seres e todas as coisas são uma única coisa. Está dito Tudo posso naquele que me fortalece. Não está dito
Deus tudo pode mas Tudo posso. Se tudo posso, então não sou pequeno. Não somos apêndices de Deus, mas feitos da mesma argamassa divina. Deus se move pelo movimento de todas as coisas, desde um ser microscópico até as constelações. Quando tangemos alguém, tangemos a nós próprios, tangemos Deus, porque formamos um só corpo. O homem e tudo o que é e existe são a milagrosa presença de Deus.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
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